POÉTICA DOS ATORES — POLÍTICA DA REAPARIÇÃO

DINA SFAT OU

       MISTÉRIO MUTANTE PAÍS-TELEVISÃO

DO ATOR – EMANAÇÕES, DESCONTINUIDADES IRRUPTIVAS

     De um outro desfile das teses tela-país ou do tempo ultrapassado por serializações ultratemáticas instantâneas]

     Regressos revolutos ainda explicáveis à pauta do que se vê fabularmente

DOROTEIA VAI À GUERRA HEDDA GABLER EROS, O DEUS DO AMOR OS FANTOCHES

     DINA SFAT, recém-vista na reapresentação de O ASTRO, disponibilizada pela plataforma Globoplay, acende uma perspectiva inédita para a imensamente talentosa e bela atriz. Tive a felicidade de entrevistá-la, quando eu produzia o programa “Momento Teatral” (Rádio MEC, Rio de Janeiro), por ocasião da montagem do espetáculo IRRESISTÍVEL AVENTURA, em 1983. Certamente, foi a criatura de teatro mais aberta e empolgante que pude contatar. Conversamos muito sobre algo que o tempo parece ter levado, mas a imantação única dela se reaviva através de aparatos de reprodução. Acaba por criar passagens entre épocas e dimensões de vida, do vivido. Outra reconfiguração do que se entende a respeito de arte, técnica, presenças e dispositivos de projeção, virtualidade e realidade, avulta em atos nunca findos, nada lineares

Os atores atualizam sempre a Primeira Vez, gesto fundante de toda criação não encerrada, a desencadear as linhas-meadas (como diria a grande poeta contemporânea Susan Howe) de um passado (de um feito artístico) em andamento –

Surgem como narradores-atuantes – possuem um ritmo gravitador passível de se estender à construção do Poema (nomeação entendida aqui como súmula de tudo que se produz por arte, trabalho conceitual no interior de linguagens específicas). Por força de arrasto, contingência, por mais que haja reverência à lei de cada gênero, o rastro imagético-imantador de figuras reais reprojetadas, de linhas gráficas plurissemiotizadas, acaba por instalar vizinhanças. Recepciona devires nada circunscritos a uma única maneira de ver e ler, de ser no tempo (em sua pujança proliferante posta em outro esquadro não apenas tributário do corte heideggeriano).

Foto: Acervo da FUNARTE Dina Sfat e Ítalo Rossi, atores de DOROTÉIA VAI À GUERRA, peça de Carlos Alberto Ratton, Prêmio Molière de Dramaturgia (1972)

Desentranhar os Atores Reais (Sfat, Laurent Terzieff, Grande Otelo, Charles Laughton, Delphine Seyrig, Denise Assunção, Setsuko Hara, a extraordinária visagem dos filmes de Ozu) de suas circunstâncias fugazes de palco e dos enquadramentos preservados em películas para que a cena seja outra, incansavelmente bifurcada –  Algo capaz de fomentar compactuação com o campo literário. Justamente onde o leitor-alvo (ainda que implícito ou simplesmente intuído a cada criação) não conduz a meta-história com seu efeito de real-reprodução a algo permanente, já posto, não garantindo o desgarramento imantador do escrito para fora de um adstrito adestramento aos valores em vigor.

(O Teatro da Primeira Vez se embute na mecânica das repetições/récitas. Reprojeta o que está escrito e dito de 1 a cada gênero, gente agendada para funcionalizar, pelo atributo de ficcionalizar, não-mais do que o instante de sua feitura. Em descarte dos artifícios do decoro eternizante próprios da institucionalização da autoria, da assinatura, do nome na História, dos rostos tão somente decorativos, autorreplicantes, dos Atores)

    O TEATRO DA PRIMEIRA VEZ ou os Atuantes Não morrem (sejam atores ou autores das variáveis artes)

Mesmo em uma telenovela antiga, como O ASTRO, revigorada numa visão 50 anos depois quase…DINA SFAT joga com as noções auráticas cabíveis a específicos talhes de arte, da literatura, por exemplo, como livro-monumento-bloco esculpido para permanência

Os seres passageiros emissores, em seus invólucros tão imatéricos (retidos apenas pelo memorial do ato ao vivo teatral) quanto impressos no fio-filme de conjunções coletivas, dotadas do poder de reexibição (enquanto figuras da morte em trabalho processada em cada sessão cinematográfica), então, se mostram.

Atores (quaisquer que sejam os autores, do impresso e do visual). Mais se potenciam quando apreendidos sob o prisma performativo do palco – set telecinemático

Indiciam matrizes reconfiguradoras de arte-imagem-tecnocultura – história e comportamento, cultura vária cotidiana. Tudo o que politiza, indesligável do corte poético, em desalinhamento do conhecido, inserindo-se tal como se apresentasse agora, a cada rememoração (como ocorre depois do ato-teatro), a todo momento de leitura, de visão de um filme-peça cenoplástica em qualquer medida ou módulo d’ars

Encerram ao mesmo tempo em que descerram os dínamos das realizações em arte, fundadas que são sobre o morrer na linguagem (para ser no tempo) e as técnicas de reprodução-reinstalação da aura (espantosamente reinstaurada quanto mais desaparecem de seus artefatos únicos os atuantes/artistas nas eras do instante-imagem). A 1ª vez reencena sua passagem, mais e mais intensificando a potência de reaparecer no fluxo das desaparições. Ao modo de um embate, também combate, interior à feitura de cada sessão/sequência da história das artes em seu caudaloso suceder apropriador e deslocador do princípio, da pertença, desidealizado que é dos patamares da autenticidade, da verdade, da lógica autoiterativa da procedência-destinação. Embate/Combate inseparável do que se pretende ser difusão, duração, diacrônica captação/captura capitalista das mediações, dos transportes/veículos/dispositivos.

Justo por ser a radicada imagem do mais fugaz, do vislumbre radiante do que há apenas agora, momentaneamente reiterado, Dina Sfat, por exemplo, enquanto Amanda Assunção em seu desfile de jóias, adereços, rostos, roupas, recursos da presença plural, plena. Tal como pode ainda se assistir em O astro, no interior da provisória sequencialidade de uma telenovela.

Foto: ACERVO DA FUNARTE

                                                                      

Kobo&Transistor Redivivo

Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos, livro de ensaios do inglês Mark Fisher (Editora Autonomia Literária), nos chega feito uma mensagem poderosa.
Em contraste com o empobrecimento generalizado das bases culturais, coletivas, existenciais nas últimas décadas – de uma longa e sistemática conversão da vida em mercadoria, sua perspicácia e sensibilidade para articular com as complexidades do tempo em que viveu são exemplares. Construtor de uma novíssima teoria na qual biografia, ficções e tecnologias entrelaçam-se numa obra rigorosa em permanente mutação, Fisher hoje talvez tenha para nós a equivalência do que a música foi para ele: “uma recusa em desistir do desejo pelo futuro”.
Sob o signo de toda obra e da vida de M. Fisher, apresentamos o blog Kobo & Transistor. Antenados com as muitas referências vindas de Fantasmas da Minha Vida, envolvendo artes e esferas do saber, nos situamos a partir dos espectros do presente e do futuro no Brasil Depois da Pandemia.
Outras realidades se abrem quando pluralizamos nosso foco, com senso de historicidade. Para lá da pauta hegemônica, datadamente ideológica e identitária, paralisada em construções descompassadas com a urgência desta nossa época. Algo não medido por partidarismos e pela indigência em todos os campos promovida pelo Bolsão do Bolso Mínimo. Sintonia em tempo real, integral. Politização cotidiana, arte na veia, plurais modos de vida.

Em ressurgência mutante da já nostálgica blogosfera dos anos 2000-10
KOBO & TRANSISTOR na rede de todo-dia.

Mauricio Salles Vasconcelos e Tiago Cfer