O lançamento de Caderneta-Maquete no mês de março deste 2016 propiciou para mim não só a alegria de incursionar por um trabalho de escrita que revê livro e poesia numa proposição de enlace com muitas formas de pensar o presente.
Outros livros da Editora Córrego foram publicados conjuntamente e no mesmo gênero. Muitas poéticas se lançam dos modos mais potentes. Faço referência (em ordenação alfabética dos primeiros nomes de seus autores) – Meninínima, de Amélia Loureiro; A criação do mundo segundo o esquecimento, de Marcelo Ariel e Lolita em prado de bode, de Rubens Zárate. Focos variados para fazer de alinhamento verbal + ritmo (mais) pulsação de imagem e pensamento-linguagem uma conjunção interessante. Elos entre o testemunhal e a performance das variações do feminino (Meninínima); ensaísmo/diário ontológico e mentação no cerne da existência de poeta/poema (A criação do mundo segundo o esquecimento); erótica de corpos-de-mulher em decantação luxuriante compassada com demonismos/dialogismos mitopoéticos (Lolita em prado de bode).
Muita alegria dá em compartilhar com esses novos livros as linhas de Caderneta-Maquete, concebidas sob o signo do ativismo urbano e diferentes takes do Musical enquanto ritmia de corpos em dança e visão celebratória do mundo.
Há algo que se move no campo escritural. Vejo-me em sintonia com um momento único no Brasil, pulsante em criação, concomitante aos enfrentamentos do quase impossível desemparadamento do monopolítico quadro da vida real hipermediada, girada em círculo.
A multiplicação de veios ativos de corpo, coletividade e pensamento vibra para fora do enquadramento dicotômico, não-mais regido pelas fontes ditas reais, porém simplesmente oficiais/funcionais de informação e confronto. Tudo se revela muito capaz de expandir a lógica das segmentações e a regra imobilizadora de um infinito impasse. O espaço dançado pela poesia cada vez mais se materializa. Pode se nutrir do que é o avesso do inefável, sublime, superior e tratar da vida imediata, do dorso duro político das coisas que não se anicham, aninham na dimensão inalcançável construída pelas demarcações partidárias e governamentais. Ao contrário, já está aqui, na porção mais cotidiana de cada existência, passível de se desdobrar em uma sequência de implicações concretas e plurais.
Por exemplo, um blog é um bloco feito de palavras e relações com o tempo. Não circula ao sabor de uma área privê, imune aos choques do político. É com nossos escritos e todos os offs da história em rede que passamos de uma página imaterial tela comp. para o passeio público de um plano decisivo, indesviável, da hora corrente –
Uma espécie de curso em formação incessante, cada vez mais dada na simultaneidade das ruas, do mais público. Em partilha. Os arquivos estão em telas extensivas aos movimentos diários em cena coletiva, aberta. Do lado de fora.
