Em reconfiguração para o blog KOBO & TRANSISTOR,
Um fragmento de Exterior. Noite – Filosofia/Literatura.
São Paulo: Lumme, 2015.
O ensaio “1874 – 3 Novelas ou O que se passou?”, constante de Mille plateaux, lido hoje suscita não apenas uma reconsideração sobre um gênero narrativo, mas sobre a vida presente da narrativa – e do narrativo. Fomenta outro modo de criar sequências, formas de fabular e montar entrechos, figuras, em diversas configurações de escrita, nas artes, na filosofia e em outros campos de cognição, tal como se apreende na cena de agora – enquanto atividade e arte. Assim como instila seu potencial de apreender e produzir acontecimento.
Subjaz a indagação desdobrada de Blanchot, “para onde vai a literatura?” (título do último ensaio de O livro por vir) convertida em “o que pode a literatura em tempos de alta tecnologia ou o que faz com que aconteça?”. Eis o que revela o embate especulativo dos pensadores, nesse texto centrado em eixos de temporalidade, assim como na espacialidade dos planos conceituais dispostos num diagrama pluritópico de leitura e literatura.
A indagação central do oitavo capítulo-programa de Mil Platôs, situado no campo sinuoso da novela e em sua questão-motriz: “O que aconteceu?”, incita a atualização do trajeto de segmentaridades (duras, molares, institucionais em diversificados domínios cognitivos e dimensões de poder) no corpo do relato, assim como de linhas de fissura e fuga. Os eventos fabulativos da novela (da narrativa pós-romanesca, na concepção de Blanchot) se vitalizam, perpassados por toda uma micropolítica (sublinham os pensadores), um caso de política mundial, “em escala e uma forma não-superponivel, incomensurável. Mas também um caso de percepção, pois a percepção, a semiótica, a prática a política, a teoria, estão sempre juntas” (Deleuze e Guattari, 2010: 75).
Outra dimensão se acresce àquela dos gêneros de literatura em desmontagem e refeitura. A contar da regência onisciente do aparato tecnoinformacional onde toda criação e impressão se processa: novos modos de escrever se disseminam sob o efeito do compartilhamento, da simultaneidade.
Tudo o que se escreve é diário –
O fator maquínico indescartável não efetiva um projeto escritural sem o irrompimento de seu stream multitópico, heterogeneamente dado em experiência, em vias paralelas, entre corpo e máquina, texto e esferas de linguagens/signos/saberes –
Avital Ronell, em Finitude’s Score – Essays for the End of the Millennium (1994), já podia desenhar a contemporaneidade do gesto escritural sob a marcação conjunta de rumor e tecnologia, scratch urbano e remapeamento da palavra em interrelações sempre desapropriadoras de um lugar estável, não-mais endereçável aos loci e às temporalidades autorrecorrentes de uma noção unidimensional – disciplinarmente posta acerca do literário. Quanto mais a filósofa norte-americana, nascida em Praga, constrói uma ensaística concebida entre dispositivos maquinais e a extração polivante de autorias (de Goethe a Thomas de Quincey, de Musil a Pynchon) no decurso nada-linear de uma longa história de textos fictivos, desbrava por sua vez o pluralismo de instâncias cognitivas (psicanálise, história cultural, tecnoanálise, política) sob o signo de uma especie de ética da instantaneidade. Faz-se guiar pela mobilização de escritos inseparáveis de sua presentificação heterodoxa, no centro de uma época pontuada pela intermitente – mais uma vez, atualizada – indagação acerca da literatura e sua finitude. Ao mesmo tempo, potencializa um universo dotado de assinaturas, legados e referendos textuais, tornado seminal para a reconfiguração do mondo techno, movido, num contato momentâneo, como se fosse para a fruição do dia de hoje, a mais efêmera.
No fio do dia-milênio – Tudo gira em torno da duração e da descontinuidade da literatura (quando se escreve em uma época há muito tempo anunciada, em curso, já).
Numa primeira apreensão, o weblog comparece como um novo espaço de inscrição de onde poderia surgir uma escrita na mais ampla sintonia com a máquina, materialmente instaurada como horizonte de criação.
Vertidos nas variações de diário/site literário em fragmentos, os textos se revelam dispersos entre a página em miscelânea marcada por entrechos de testemunhos, registros líricos em diferentes formatos e o estatuto generalizado de postagem social. A menção à rede prepondera, com características opinativas, quando muito citacionais, sem que se promova a conjugação/conjunção dos repertórios.
Ocorre mais o referendamento à cultura em vigor, sedentarizada off-line, do que a ativação instantânea – em um momento único e compartilhado
– dos instrumentais de toda ordem (disponibilizados a toda hora). Imobiliza-se um vasto arsenal (sêmico/sígnico de linguagens e saberes) acessado tanto
na linha-do-tempo (um presente em interação/intervenção) quanto na linha- do-espaço possível de se diagramatizar a partir da combinação e recirculação de diversos recursos/dispositivos informacionais.
Uma poética formada e fomentada pela convivência com as órbitas virtuais, cruzadas, por sua vez, com a simultaneidade em tempo real, ainda não encontrou sua trilha.
Deixa, então, de emergir uma literatura produzida diretamente na rede, em favor da confissão (em um tom remissivo à estética marginal dos 70 no que tem de mais “datado” e revelador de uma ideia de eu, inexistente sem o crivo da atuação crítica sobre a subjetividade).
Quando não é o caso de uma noção de experiência, em depoimento, que fica sem escancarar o vínculo de historicidade passível de se deflagrar entre individuação e evento. Esse mesmo que se estende do manancial multissemiótico enlaçado com o post do dia após dia.
Fica sem irromper, na ordem do dia em download, toda uma emergência a ser timbrada por um projeto de linguagem e investimento no tempo presente dos corpos e das mentes. No corpus da história que corre agora, como nunca antes, em fluxos bloggers capazes de redesenhar os limites e as expansões de vida, máquina e escrita.
Escrever envolve extração da atividade exercida em um constructo complexo, em estocagem de infindáveis arquivos. Em mapeamento (correlato, não causal-consecutivo). Entre o que se vive e aquilo a se configurar no dia-noite-tarde do tempo (o milênio afora, adentro) – em face de um horizonte de emissão e endereçamento. Requer exscrição (tradução ressituada dos muitos planos implicados no ato inscritivo). Assim como sondagem de materiais: de tudo o que se colhe fora da órbita computacional. Exposição e exterioridade em mais de um sentido, lugar e tempo.
Máquina de pinball, de Clarah Averbuck (uma autora surgida na Rede), joga bem com a dimensão de verismo facultada pelo escrito-post e a contingência de um estar no tempo/no espaço entre a experiência e a recorrência a um universo referencial. Estridências.
Principalmente, quando C. A recepciona a música que está no ar, irradiada pelo toque contagiante dos Strokes, banda incluída como insert obsessivo. A incidir no realce dado à sexualidade, por onde tudo flui enquanto texto capaz de se testemunhar.
Imponente, nos escritos de Clarah, se mostra a entrada/saída da forma-livro. O que se dá na pulsação de um outro chamado escritural, que não subsiste apenas de uma emissão imediata para compartilhamento de internautas. Máquina de pinball invoca a suplementação do tempo real simultâneo que subjaz ao timing de exposição/exibição favorecido pela postagem.
Guiada pela dinâmica da plugagem/montagem, a escrita conjuga autoficção e andamento narrativo a envolver o logos maquínico a partir do qual o texto é concebido. Imprime, em sua forma final de composto blogger e “relato de si”, um modo de notação.
A partir daí, acoplam-se máquina e jogo (tal como estampa o pinball score a que o livro-título recorre). Fazem menção ao sentido mais producente de um diário em tempo de alta tecnologia.
O projeto de Clarah A. acaba por mostrar que toda forma de escrita passa a ser uma extensão da linha informática decorrente de uma atividade feita numa máquina-de-escrever, que a um só tempo radia outros modos inscritivos/insertivos de recursos e efeitos. Cria-se, pois, uma extensão na experiência cotidiana – enquanto se ativam os arquivos em download entre a emissão e a recepção de dados –, na vida mais crua, no jorro do sexo e da maquínica ocorrência dessa microhistória que se documenta (em pistas multiplicadas). E se esvai, num complexo enredamento de fatores e forças captados do modo mais incisivo.
Através do livro – sem que este tenha prevalência sobre o streaming das notas em registro, em exteriorização, nem desapareça ante a aleatoriedade do escrito contido em site – concebido como jogo/score maquinal, cotidianamente atravessado pela mais impensada, imaterial ideia/existência. (Ou experiência).
Tudo o que um livro relata, torna compartilhável a linha do dia (horizonte do tempo compactado na instantaneidade de uma tela comum, coletiva, em acesso múltiplo).
Ou seja, segundo Máquina de pinball, a escrita se faz, paralelamente, na invisibilidade do livro. Forma-livro tomada por qualquer texto, mesmo virtualmente, recheada que se encontra a Rede por reuniões/compilações/compactações imateriais pelo modo wearable/portable, que o volume retangular, impresso, condensa.
Assim como favorece outra confissão, outra congregação do disperso day-in, pontual up-to-date download all night long. O livro se autorrelata.
O livro confessa o modo histórico – quase imperceptível por obra do efeito volátil, Zeitgeist em alea – por que passa. Tal como a literatura a ele aderida, em contrátil moral e fábula de sua paradoxal presença pelo desaparecimento.
Sob a marcação de um tempo microesquadrinhado em cada dígito acessado até sua rede de articulações/fluxos – o devaneio/delírio de escrever é “histórico, mundial” (lembram Deleuze e Guattari). Conduz o próprio arsenal de estocagem e envio à atuação de uma typewriter, portátil, possante, para se converter em uma “deâmbula tecnologia”. Saliente-se que toda a ensaística de Avital Ronell se mune de tal aparato/aparelhagem. Parte de Friedrich Kittler, semioticista dos media, passando pelos teóricos de Mille Plateaux, para tratar da história da literatura desde a modernidade até o pico de um momento situado entre as cyberesferas e o legado deixado por Burroughs na tattoo-writing operada por Kathy Acker (ícone de uma nomenclatura conhecida como pós-moderno, hoje em desuso, depois da mundialização econômica e da redefinição geopolítica dos territórios planetários), em meio à dinâmica conexional criada pelo tecnoglobalcapitalismo e à insurgência do corpo na cultura. À altura da caminhada – um topos recorrente nos livros de A. R (de Rousseau a Karl Kraus, de Baudelaire a Duras) – em um espaço-tempo conexo ao crash, à guerra diuturna, na rua mais paralela onde alguém escreve (bem poderia ditar a filósofa Avital Ronell, em CRACK WARS).
Em vez de “bem escrever” (acabada e remissivamente, bem posto/postado, seja pela retórica do literário seja pela lógica comunicacional da webwriting) – urgente se revela o descarte da remissão autotélica (preconcebido plano interior/superior) à literatura enquanto aura. Sistema de informação, que é o domínio da escrita (segundo Kittler, em sua percuciente configuração do literário em tempos de tecnificação crescente, desde os primeiros autores modernos sob o crivo analítico do estudo Gramofone, Filme, Máquina-de-Escrever), nada refratário aos encaminhamentos mais adestradores, com foco nos valores recepcionados por universidade/mercado/imprensa. Invés de simplesmente aderir aos códigos de uma visibilidade sustentada pela hora funcional dos maquinismos/mecanismos de transparência, a produção de escrita pode suspender o fato dicotomicamente posto de ser útil ou ser inútil, como questiona Blanchot, em“Para onde vai a literatura?”
Como se tudo viesse de um anotar.
O que se passa?
Referências Bibliográficas
AVERBUCK, Clarah. Máquina de pinball. São Paulo: Conrad, 2002.
BLANCHOT, Maurice. Le livre à venir. Paris: Gallimard, 1959.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mille plateaux. Paris: Minuit,
1980.
___________________. O Anti-Édipo. Trad. Luiz B. L. Orlandi.
São Paulo: 34, 2010.
RONELL, Avital. Crack Wars. Literature. Addiction. Mania. Lincoln
e Londres: University of Nebraska Press, 1992.
_________. Finitude’s Score – Essays for the End of the Millennium. Lincoln e Londres: University of Nebraska Press, 1994.
Mauricio Salles Vasconcelos é autor dos ensaios Exterior. Noite – Filosofia/Literatura (2015), Jean-Luc Godard – História(s) da Literatura (2015), Espiral Terra – Poéticas contemporâneas de língua portuguesa (2013) e Rimbaud da América e outras iluminações (2000). Escreveu, no campo da narrativa, Moça em blazer xadrez (2013), Stereo (2002) – microficções –, Telenovela (2014) e Ela não fuma mais maconha, de 2011 (romances). Publicou os livros de poesia Sonos curtos (1992), Tesouro transparente (1985) e Lembrança arranhada (1980). Dirigiu, entre outros videos, Ocidentes (2001), tendo por base seu livro-poema Ocidentes dum sentimental (1998), uma recriação de “O sentimento dum ocidental”, de Cesário Verde; Blanchot: Para onde vai a literatura? (2005); Giro Noite Cinema – Guy Debord (2011) e Uma árvore no Zaire (2014). Carioca, vive em São Paulo. E-mail: vasconcelosmauricio@hotmail.com
