Zulawski/Gombrowicz – Corpos/Cosmos

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Mauricio Salles Vasconcelos

A viagem pelo meio das coisas  –  Uma agrimensura que alude a Kafka. Por força das marcações heterodoxas de uma passagem. Ao tomar Cosmos (1965), narrativa de Witold Gombrowicz, o também polonês Andrzej Zulawski – recentemente falecido – empreende o cinema em meio às imagens correntes do cotidiano mundializado (eminentemente audiovisualizado e, num polo extremo, populoso, hiperhíbrido em suas formações e contingências coletivas). As afluências não cessam (“migrações enormes”, retornam mais do que nunca as Iluminações). O cinema volta a pensar, ou melhor, a se indagar sobre o ethos e as extensas conjunções do mundo satelizado, na atual conjuntura político-cultural tecnoglobalizada.

Todos são caminhantes. Não são  viajantes (em dissídio do aprendizado evolutivo a se extrair da “jornada sentimental” concebida por Goethe, tendo-se em conta um lastro nomádico a perambular ante a remissão e a destinação, entre procedência e pouso). Atritam-se sobre um mapa tão ampliado quanto refratado por uma incidência comum, estridente, puramente escópica. Entre espelhos – acrescidos de um vitrô televisivo posto ao fundo dos dias igualados aos cômodos de uma casa (igualmente matricial e vicária) – e o aspirador de pó acionado por uma hospedeira/hóspede do caos/acaso.

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Há uma neura exacerbada, em captura constante de diferentes personagens em estreito convívio (em locus microscópico), por parte do cineasta em seu filme final (2015), que vem muito dele (5o anos depois da publicação do “romance”) em adição ao universo fronteiriço apreendido na normalidade mais abstrusa por Gombro. Algo extrapolado ao ponto do insuportável e da repetição maníaca. Suplementa-se, porém, pelo traço de uma contemporaneidade formulada como leitura direta dos corpos em confronto com a descoberta do que há de mais expandido pela via do estritamente corrente, corriqueiro.

Um filme de intervenções no imediato quanto mais se lança a um entendimento macrocósmico a contar de fraturas orgânicas, despedaçamentos animais e vegetais. Zune uma outra biologia. O cinematismo se sincroniza com a letra literária para fora da pauta dos gêneros da escrita e daqueles de uma adaptação fílmica.

Interessante é ver que o frenesi tão característico de A.Z beira o comics ao instalar um circuito nascido de irrompimentos. Uma cinematografia dotada de fisicidade, de um senso de força, para reinventar o que muitas vezes o Cosmos de Gombrowicz intenta e não chega a plasmar. Como se a propagação de seus motivos só encontrasse a desmesura mais plena no plano-pauta de um cinema abismado na fábula dos atuantes tornados partículas de uma investigação crescentemente osmótica/orbital. Para além da paródia retórica da detective story (como se joga topologicamente no livro Cosmos). Neural, nervótico, nevrálgico – há alguma coisa de clínico no empenho da arte como descoberta através da deflagração da deriva.

Se a narratividade para Gombro estimula-se pelo esvaziamento do horizonte problemático do mundo romanesco, fazendo-se pontuar pelos elementos da imediaticidade a um grau máximo de degenerescência e dissolução, a cosmicidade cinemática de Zulawski não se desfaz do paroxismo que conduz as imagens ao seu ponto mais segregado, emparedado mesmo, de patetismo mesclado à mais visceral incitação. Intrigante se torna ser guiado por um longo entrecho de complôs, plots desbaratados e indagações insolúveis. Pois a trilha que se toma para “dar a imagem”, a partir de um livro, evita o espelhamento e o mero comentário acerca do cosmos enquanto caos  encapsulado numa perspectiva humanamente centrada, autopositiva de um ponto-de-vista, de uma “cosmovisão”.

Ao contrário, a engrenagem somática, estendida à caosmose da natureza de outros seres vivos (animalidade, herborização, mecânica dos fluidos), implanta um modo de ver. Impulsiona os menores, irrefreáveis sinais, presentes na tela provocadoramente oscilante de Zulawski. Ainda que direcionados por uma saturação de signos mediados, culturalizados, são estes capazes de criar a aventura vitalista do “dar a ver” quando se mais despedaça, forma fragmentos e abala fundamentos o que se chama de cosmos no interior da mais imperceptível existência (agregados e desgarrados trocam analogias adversas ao “romance familiar” do freudismo, na casa-mãe do livro polonês original). Parecem se avizinhar do que concebe Donna Haraway, em How Like a Leaf, como desprogramação dos códigos antropomórficos mais radicados acerca da geração e da continuidade dos elos relacionados a humanidade/vida.

Nota-se, pois, que o universo para Gombrowicz (potencializado no filme, agora disponível para download no site Emule, sem previsão de ser distribuído no Brasil) situa-se no plano do desabrigo. Evidenciável, o desgarramento de qualquer filiação a uma ordem macrossignificante, ao recurso de uma representação central/totalizadora no que toca ao giro de corpúsculos/homúnculos/figuras fissuradas em circulação proliferante de choques e efêmeros enlaces. Curioso se mostra acompanhar o modo como o cineasta traslada a angst fenomenológico-existencialista de W.G, sinalizada pelo escritor como legado secular do pós-guerra, para o tempo presente. Mostra, para lá de qualquer assepsia e homonegeidade do globus tecno-econômico da mundialização, a fibratura esquizóide ativada por criaturas reunidas sem foco de agregação, depois do fim da família, dos laços estáveis de governança e pertença ideológica a instituições. Tudo o que envolve agrupamento exibe seu ponto de racha irreversível, no entanto impele – de uma forma agudamente atual – a flutuação de afetos e um espírito de busca, ainda que não sejam assegurados em fronts reconhecíveis. Muito ao contrário, multiplicam forças em desordem, heterogeneamente lançadas como indiciassem rastros do que se denomina humano pela voltagem de uma gravitação, enquanto seres de passagem, essencialmente timbrados pela orbitação que intensificam. Trafegantes movidos por desenraízamento.

Metamorfoseiam-se, então, o sentido, a arte, a mão humana que move a máquina-olho (a órbita do documento-monumento enquanto hospitalidade, quer dizer: passagem por espaços nada coesos, não-reconciliados, ao modo de Straub e Huillet, numa só mirada de tempo). Como se fosse exatamente o instante-take do cinema depois de todos os fins e reinícios de sua história (secular, técnica, narrativizada no mais das vezes sob o influxo da escrita literária).

 

Sob efeito do contato entre corpos/cosmos.

Tal como está nos agrimensores kafkianos e nos hóspedes/hospedeiros de Gombrowicz. Algo há de preexistente , um excesso anterior, jamais formado, decisivamente não-acabado a repassar vidas/épocas/eras de um ciclo nada historicista de seres, nomes e coisas. Um surplus – o sobrehumano estendido a qualquer um/um-qualquer (reveja-se Agamben) como razão exorbitada ao ser, ao sentido mais íntimo de um ao um mais plural. Do um do múltiplo à unidade mais gutural. Dimensão macro – excedida de qualquer modelagem – confundida com nossa “própria” vida. Um encargo da especie, indissoluvelmente incorporado aos nossos instintos, às mais imanentes biografias.

Vem daí o grito – tudo o que é gritado/gritante na filmografia de Andrzej Zulawski – Schreiben/Schrei (a pulsar a modulação a um só tempo inscrita e dilacerada da filosofia para Heidegger, recepcionada na atualidade por um nome-mulher como Avital Ronell).

Daí, o dizer o cosmos por microfissuras, inseparáveis do toque corpóreo/sensorial que o cinema retém como “morte em trabalho” (reveladora do seu modo de arquivo). Tudo o que diz do morrer –  anti-metafísicos, os dados terrenos, mortais, deixam-se incrustar nos corpos expostos ao ato cenoplástico, em oposição à alusão metafórica da mortalidade/memória da cinematografia enquanto culto. Zulawski incursiona pelo que não se vê, o soma de todo vivo, em recusa ao espetáculo memorial do make-up, ao avesso do entretenimento contido no curso progressivo de uma história meramente roteirística da passagem pela película e pela pele dos que presentificam o espaço, a duração da metragem, do ritual cinematográfico.

Cosmos, de Andrzej Zulawski, como se diz da vida, tantas vezes encalacrada pelo tempo humano – incapaz de ser sentida ou mesmo vivida. Ou seja – ainda que seja – por um corpo humano gravitado, contudo, pelo vasto, vago cosmos. Uma sintonia possível de ocorrer pelo desconcerto/desastre desde a origem (e nenhum fim).

 

 

 

 

 

 

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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