Mauricio Salles Vasconcelos

Intimismo e Brasilidade –
O filme com Sonia Braga depois de muito tempo (décadas, já, de ausência na tela de um cinema e numa produção nacional) começa um pouco antes. No meu caso, através de lembranças súbitas da atriz que povoou minha passagem para a adolescência, a partir das fotos dela em Hair, divulgadas em revistas, sem que eu pudesse ainda vê-la no teatro por conta da idade. Até que se dá sua aparição lá pelo meio da telenovela Irmãos Coragem.
Ela entra na cena do video preto & branco do Brasil ditatorial, em seu auge (pós AI5), dizendo ao que veio. Nunca antes foram dados beijos iguais nos domínios da Globo. Os limites melôs do telesseriado deixam seu padrão para trás. Eu passo muito tempo com SB na cabeça (signo obsedante de mulher assim como de um país mais erotizado, comportamental, algo mais forte e promissor do que esse território “chapa branca” que habitamos). A deusa no corpo.
Até que, de repente, vejo suas fotos na abertura de Cannes 2016. A exibição de Aquarius propicia o reencontro com a atriz e a fomentação de um outro Brasil abalado pelo Golpe da Ordem contra o Partido dos Trabalhadores. Por mais que tal insígnia tenha passado fisiologicamente por populismo e corrupção – tudo o que exige punição – não torna potente o clamor classe-média-mediatizado do impeachment, quando nada há para repor de transformador em nosso horizonte. Muito ao contrário, o cerceamento mais brutal se instalou, celebrando o pior sob o comando de um dirigente-mantenedor do poder hegemônico, sem o menor espírito de partilha, nenhum projeto político-social para a Nação-Continente.
É Sonia B. quem centraliza a exibição das faixas que noticiam na França – com força mundial de repercussão – a instalação de um Golpe em nosso país, ao lado da equipe de Aquarius. O filme estreou no dia 1/9/2016 no Brasil. Um dia antes, nosso ícone de mulher exposta ao mundo – a formar par possante com Carmem Miranda – está na capa do Cahiers du Cinéma, de setembro, na edição que foi para as ruas europeias a 31 de agosto (o dia em que completei 60 anos). Tudo isso me toca.
Eu confesso que sonhei com essa capa na revista mais importante do mundo dedicada à produção cinematográfica (desde a década de 1950), lida por mim até hoje com paixão mês a mês. Sonia está no foco central da edição recém-lançada na companhia de outras fotos de atores (entre os quais Sandra Hüller, protagonista de Toni Erdmann, dirigido pela excelente realizadora alemã Maren Ade). Agora o cinema e sua revista mais completa dizem ao que vieram, tendo Sônia Braga não só na capa, mas em entrevista aos duradouros, sempre renovados, Cahiers. A ênfase recai – em reconfiguração da “política autoral”, vigente desde os anos 50 do último século – nos atores (de todas as partes do sistema-mundo-imagem, frise-se, sendo assim dada a capa/cara do tempo para fora do <em>glamour system</em> do rosto).
Estou sob o impacto da protagonista de Aquarius. O que foi visto na tela se torna mais vivo de um dia para o outro. Aliás, é bem de uma duração que trata o filme. Certamente, a de Clara, melômana, colecionadora de vinis, autora de livro sobre Villa-Lobos (a mulher sob influência de Aquarius/um prédio antigo à beira-mar visado pela especulação das construtoras), cada vez mais associada à história de uma atriz. História de um corpo extensivo aos de seus espectadores, ao fluxo de filmes e signos no feminino inerentes a um país.
O que pega em em Aquarius, depois de visto, passada uma noite (como me ocorre de ontem, na estreia nacional, ao bom sono/pensamento desta manhã na órbita das imagens ainda em curso)? Intimismo e brasilidade, volto a nomear. Brasil Vinil, sem que se descarte o streaming e nada das dicotomias que nos assolam. Cada vez mais som na roda: História de Sonia e seus espectadores sob o impacto na abertura e no fecho, com a execução de um esquecido Taiguara a inflamar a voz de uma época em “Hoje”. “A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo”.
Apesar do sentido catártico que encerra seu final, em total acordo com este momento da vida brasileira, Aquarius ressoa mais do que o efeito-folhetim impresso na conclusão do superestimado O som ao redor. Se, em seu primeiro longa, o cineasta recorria ao fundamento oligárquico por meio do qual se explica o cerceamento de um condomínio no Recife, a expor uma trama em que toda força reflexiva se sedimenta em analogias sociológicas mais que conhecidas, Aquarius exibe a devastação da pedra fundamental dos edifícios econômicos e patrimoniais da Nação. Expurga as forças da morte que tentam tomar a existência de Clara, a única habitante de um prédio invadido em todas as formas de poder – inevitável se mostra o paralelo com o seminal Tudo Bem, de Jabor.
Diferentemente do plot montado na sobrevivência do coronelismo e do latifúndio sob o solo habitacional/vivencial do presente, o filme protagonizado por Sônia Braga lida com a voragem indiscriminada de forças que minam os impulsos vitais, os mais recônditos, disseminados em diferentes classes e personagens. Seu final abrupto, tomado pela recusa à morte como norma, se encontra em sintonia com o vitalismo da grande atriz – em compasso pleno com seu personagem -, que é também uma imagem poderosa do que de melhor tem o Brasil.
Impulso vital, final, colhido na crista, em combate aos cupins enraízados no projeto da construtora/detonadora do coletivo pulsante nacional. Tudo se encontra à roda de Sônia B., nessa volta – ao extremo dos sulcos dos vinis executados no apartamento/arquivo de Clara -, uma atriz capaz de uma alta (a mais afinada) interiorização, modulada com a potência de seu desnudamento. Vê-se sua vida toda imagem/linguagem (por onde sua figura se plasmou, ondulando-se por variações da tela norte-americana, sobretudo, desde a Hollywood de Eastwood/Redford até os seriados Cosby/Sex and The City).
O contato com Aquarius se faz inevitavelmente ligado a um encadeamento de relações capazes de contrariar a “lógica do pior reinante” hoje entre nós. Ao avesso de quem diz do fim-do-mundo como fechamento de horizonte, vibra a pulsação de outra política do humano como reinvenção da vida imediata.
Ou do corpo como matriz do que é transmutável e vibra por uma recusa crescente através dos menores segmentos e eventos. Como se capta por meio de Sônia Braga – felizmente, visível nas salas de todo o país e na capa dos Cadernos do Cinema Mundial. É o que ela faz repercutir, ao estreitar os elos entre AudioVisual e Imagem Global depois do Crack, do Trash Geopolítico das Comunidades em Consenso Eminentemente Econômico. Conta uma história subterrânea da duração através de fotogramas, cruzamentos de vida/arte. Quanto mais se expõe, mais potentemente interiorizada se apresenta nossa existência brasileira traduzida em cena de cinema sob o Signo de Sonia.
