TeatroFonema

Mauricio Salles Vasconcelos

Ambiência Blanche. Cinema-Mudo (quer dizer, legendado) se acopla a Butoh (via K. Ohno, há décadas recepcionado pela cena de Antunes Filho). Cria outra extensão com o expressionismo das artes visuais/fílmicas revisto sob o rastro pós-punk disseminado pelas derivações de finitude e refiguração dos corpos/comportamentos, numa multidão de rostos inquietantemente atuais (desde o fim da modernidade e depois do “pós-moderno”, em outro século/milênio já).

A “tirada” – “fonemol” – concebida a partir da invenção de uma língua para enunciar A Streetcar Named Desire, de Tennessee Williams, vai ganhando consistência cena a cena (apresentadas em número de 9 como roteiro distribuído para os espectadores, uma vez que os diálogos são pirateados numa dublagem fake).

Desprovida do texto – transformado que é na emissão de um idioma inexistente, vertido em lugar da vocalização dramaticamente  articulada -, a peça acaba por girar em torno do verbo “tirar” em todas suas variantes de extração, apropriação e violação (até ganhar os contornos mais físicos). O público traduz esse sentido extrapolador – contido pela proveniência do prefixo ex a lançar um jogo-fonema do teatro tomado pelo relevo dos gestos (à sombra da fala humana constituída em língua comunicável fora do espectro cênico).

Expropriação. Tirada. Tal como a “tira” de um comics reanimado com presenças vivas, híbrido de melodrama, a se estirar numa encenação ao nível do piso onde se encontram os espectadores (ao rés-do-chão, ao modo de um auditório instalável subitamente em qualquer lugar, uma irrupção imediata do fictivo no espaço de uma sala, no caso, o interior de um Edifício da Cultura, CPT/ SESC). Um não-palco largo, plano, estendido redistribui as rubricas do Bonde (Chamado) Desejo. 

Em vez de seguir a retórica do drama – com um certo peso trazido pelas muito conhecidas figuras e alineas cênicas de T. Williams -, a plateia passa a acompanhar o deslizamento de um texto em estado de alteração até alcançar a mascarada capaz de liberar o impacto nervoso – entre a catarse e o patetismo – do que se dá em tempo presente. Algo oferecido apenas pela arte do instante, do acontecimento, que é o teatro. Porém, a pregnância, a instantaneidade da performance – corpos vivos potencializadores do ato – se efetivam de modo pleno a partir de algo explicitamente tradutório  Não será toda leitura/encenação de um texto algo da ordem de uma dobragem, incidido no duplo, quer dizer seus desdobramentos de dublês, montado sobre uma condição plena e potentemente falsária de língua/linguagem?

Vibra o que há de dubladamente posto sobre os “efeitos de real” passíveis ainda de serem recolhidos pela crueza dramatúrgica do autor americano e de toda uma órbita estética vinda dos anos 1950, à volta do Actor’s Studio, no preciso contexto da América do Norte Pós-Guerra, no qual vicejava uma vitalismo teatral, em intercâmbio com o novo cinema àquela altura. O que se revela inseparável das atitudes desconcertantes, envolvendo subjetividades e estamentos geopolíticos, tendo as balizas da guerra em fronts renascentes – após a conflagração mundial que dividiu o século passado pelo meio – e a satelização planetária a modelar economia, modos de vida e produção,  em época de grandes mutações culturais e históricas.

O cinema de Kazan/Brando, a música mundial do rádio – mix de latinidade e réstias nostálgicas hollywoodianas -, os telefones coloridos, passam como vestígios/indícios no Teatro Antunes Filho acrescido de seus mais recentes atores. Há um trio sensível e inovador, responsável pela encenação de Blanche, Stanley e Stella, personagem “fonemalizada” e corporificada por Andressa Cabral, alguém que conheço de suas atuações e aulas dadas no Espaço dos Satyros. Sob sua coordenação, cursei uma oficina que debateu justamente a possibilidade de se encenar Williams, enquanto ela propunha a fisicidade teatral de Meyerhold e executava em nossas práticas standards musicais de todos os tempos, entre os quais “Over the Rainbow”, que pontua a retirada de Blanche Dubois do último resquício de vida afetiva e familiar rumo à internação psiquiátrica. Certamente, vem da atriz uma boa parte da modulação sonora-enunciativa de Blanche e outra da teatralidade física contagiante na concepção da cena fonêmica e integralmente corpórea desse Antunes renovado que se dá a ver até dia 1/10/16 ali na Vila Buarque, entre outras ruas próximas do Centro (teatral) paulistano.

 O que faz, de modo surpreendente, a atualidade do dramaturgo TW, além do travestismo (impresso à versão TPC da protagonista Blanche D.), do despojamento cênico e da desdramatização possibilitada através do “fonemol”, se encontra na ausência da linguagem (mais do que a substituição de uma língua por outra incompreensível).

Sempre intrigante, na leitura de Agamben em Infância e História, se apresenta o desafio do humano, em sua duração, na descoberta da própria voz (em vez da manutenção de uma linguagem adquirida progressivamente desde o nascimento de qualquer um). Dicção que não se aparta de uma escuta do corpo – compreendido enquanto soma (noção definidora do plano físico e de seus imateriais, potências em insurgimento e contato contínuo). Em tal busca, uma outra noção de temporalidade e o potencial do jogo, do brinquedo (arte, fabulação, saber erguido em múltipla construtividade), despontam como horizonte na historicidade que atravessa toda existência –

Um modo múltiplo de desmontagem do sentido circunscrito a um sistema organicamente dado se impõe. Alude-se antes a um encontro intempestivo, involuntário, com a coleção/constelação, sempre em tradução e abertura, da narrativa de um percurso. Este se faz indissociável de muitos outros signos reveladores de uma vida, sempre por vir, incessante e pluralmente configurada, sob o átimo de cada segundo em paradoxal surgimento e escoamento simultâneos. Assim, é declarada ao final do “espetáculo”, por parte de uma atriz (a tilintar um sino desde a abertura, na passagem e no recomeço de um e outro ato, como arte/cena antiga, imemorial, dada ao vivo, inseminando um senso de moralidade a um “tableau”) a informação (aparentemente redundante, à guisa, porém, de legenda ante uma encenação desenrolada em “fonemol”) de que se passou “a história de duas irmãs”.

Blanche assinala  a importância de se atingir a dinâmica de átomo/fonema que sintetiza o teatro – sua unidade básica, grau zero do instante tomando forma como ato único. Algo raro de ocorrer, tendo-se em conta a reverência à mestria dos encenadores – dedicados a uma assinatura superautoral (não necessariamente atinente à teatralidade) – e a supremacia do texto em sua verbalidade de monumento, no mais das vezes erguido em prejuízo da arte em estado direto. Justo, o que vem de corpos em ação sob um fio de voz  a silenciar o limite do já escrito e a compreensão convencionada do que contém uma cena.

 

Resultado de imagem para blanche antunes filho

Avatar de Desconhecido

Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

Deixe um comentário