
Mauricio Salles Vasconcelos
A poesia, segundo Octavio Paz em “A consagração do instante”, canta o ato de estar se fazendo (algo revelado em seu étimo, poiesis). Todos os seus temas e apelos evocativos/enunciativos se reportam a um autochamamento em processo rítmico/imagético/conceitual.
Já a música, especialmente aquela tocada pela vertente do rock (inseparável, em suas primícias, de disco/rádio/audiência massiva), celebra seu passar/sob o toque de uma modulação. Diz respeito ao movimento (eletrificado a um ponto máximo) radiado, encenado com toda a entourage de uma cena, para onde está indo. Tudo o que induz à fonte-de-escuta/recepção crescente e ao seu desaparecimento/ressurgimento na história (memória articulada enquanto canto) a contar de seus ouvintes (feito música de um tempo).
Música: o ato de um fazer concertado, em alta mediação.
A criação sonora se apresenta indesligável da produção (em tudo que contém técnica, administração/corporação) e da coletividade – outra forma de circuito/conjunção – que a acolhe, cultua. Até se tornar refrão básico de um corpo sob a audição metamorfoseada em comportamento, mecanismo melódico-mnemônico de uma época em passagem e retorno a cada vez que certas canções se executam. Principalmente, o que faz o rock.
Principalmente, pelo dado de incitar uma corporeidade desembalada. Ou como acentua Patti Smith, em seu legendário Horses, quando reacelerou o rock há mais de 40 anos, prenunciando o punk, a feminização da autoria band-leader e dos corpos-de-dança: música e cavalgada. (Este é um termo da teoria musical muito bem estudado por Pascale Criton quando aproxima o universo da sonoridade àquele da filosofia, tendo em mira algumas teses dos Mil Platôs deleuzo-guattarianos).
O ritornelo de toda música não subsiste sem o cume de desmesura acionada aos seus ritmos formadores – precipitação e profecia, muito bem inseridos na faixa-título do disco de estreia de Patti. Algo em alta voltagem, entre o revival da energia rocker colhida na negritude de Little Richard e na poética crescentemente desterrada de Arthur Rimbaud, referência inescapável das letras e da imagem celebrizada pela garota andrógina fotografada por Mapplethorpe na capa-ícone de Horses.
Courtney Barnett, jovem compositora australiana, munida de longos versos ao modo de Dylan e um senso agudo de comentário sobre a realidade presente, indissociável de seu conhecimento da fusão electro da música de agora e do poder de imagem da mulher no universo discográfico depois da streaming explosion, compreende agudamente o espaço de formação e emissão através do rock. Curioso é que o faça através de uma aporia capaz de lançar luz não apenas no circuito estrito de produção musical após a disseminação instantânea propiciada pela web (tudo o que pôs em risco a indústria de discos). Seu hit “Avant Gardener”, em 2013, deixa evidente a potência de aprendizado que toda criação de arte e linguagem encerra na contemporaneidade – intensificado no campo da sonoridade, modulável em seu abarcamento de voz e palavra poeticamente emitida. Justamente, o que diz a letra acerca da experiência e do experimentalismo trazidos com o jogo formado entre “avant-garde” e um trabalho de jardinagem (gardener) feito entre recolha residual e exercício premonitório.

Uma tarde na fruteira –
