POTÊNCIA DA POESIA/PATERSON, DE JARMUSCH

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Mauricio Salles Vasconcelos

ContrAnotação do Calendário Hegemônico 2016 –

Até tocar o nada – o que move as palavras para que estejam em um corpo vivo à prova de todas as fronteiras e suas desaparições produtivas. Paterson, de Jim Jarmusch, contra-anotação do brutal calendário 2016.

Se antes, o  cineasta podia estilizar o minimalismo com o toque jovem de quem retomava o pop entre a new-wave anos 1980, na tacada pós-punk de uma época transculturalizada – tudo o que se assistia em Stranger than Paradise (1984) sob a forma de um programa na era do fim dos manifestos (tese producente de Danto, pulsante até a hora de agora) – Paterson (2016) ressurge como um invento precisamente pelo que se dispersa, não tem cara de arte e “posição”, justamente quando mais vibra a incursão pelo toque, pelo timing da criação de poesia. E mais: a escrita no interior do cinema. A um ponto em que a face escritural indissociável do fazer-imagem se expande para a vitalização do cinema mesmo.

A partir da confluência entre o nome da pequena localidade (em New Jersey) e daquele do protagonista (um bus driver), que vem a ser o título de um clássico poético da modernidade – um épico da cotidianidade concebido por William Carlos Williams –, o filme de Jarmusch reengrena a trajetória de um cineasta até há pouco tempo em suspensão. Inegavelmente, um certo refluxo se fazia observar, não obstante os muitos acertos espaçados no tempo em que ele veio produzindo após o estouro com o longo citado de 1984 – a confirmação bem humorada do despojamento em Down By Law; o risco intrigante de Mistery Train; as bases da legenda americana a serviço de uma desbravação inicitática (no grande Dead Man) e algumas centelhas afectuais, comportamentais, não de todo impactantes em Broken Flowers.

Paterson pontilha os toques de um aprendizado pelo silêncio, pela perda – sob auxílio de um nítido repertório nipônico colhido entre o zen e a lírica ideogramática que o personagem-visitante da cidade de W.C. Williams acaba não apenas por ilustrar. Mas, também, está ali – aí – para guiar o protagonista e seus espectadores a um breve incurso pela poética norte-americana estendida em referências bem marcadas a Frank O’Hara (a ponto de inserir um exemplar de Lunch Poems na mínima bagagem que o motorista leva para o trabalho, entre o almoço e os objetos de sua escrita e estima, entre a caderneta-de-anotações e o retrato da mulher).

Uma extensão que chega à vida presente da poesia tal como entende os americanos, entre os mais ativos criadores do gênero nesse momento milenar nada avesso à “Poesia de Linguagem” em várias acepções, desde a Escola de Nova York aos compactos de vida/inquirição de pensamento trilhados por Lyn Hejinian, passando-se pela instigante formulação de sexualidade/mapeamento historiográfico pela via cotidiana trazida por diferentes autores como Wayne Koestenbaum e Felix Bernstein, entre os mais recentes. Em cima do nada, a poesia se revela atuante para o que extravasa a palavra, o espaço literário. Contagia o cinema feito de poucos elementos temáticos, a contrapelo da culturalização, dos esquemas engrenáveis na serialidade de um plot. A fiação se dá através do pequeno percurso diário de um motorista provinciano, a contar de conversas simples da casa às ruas, do retorno do trabalho ao bar de todas as noites.

Jarmusch acaba por incidir numa poética das artes agora ante a agenda da humanidade globalizada em 2016 por meio da “lógica do pior”, como pôde formular há algum tempo atrás Paul Virilio. Todo um temor sublinhado pelo filósofo tendo como horizonte a sistematização do compósito formado entre tecnologia e capital transnacionalizado.

A economia agora se paralisa para usufruto/usura (um poeta como Pound, de modo enviesado, se presentifica na constelação ensaiada pelo filme Paterson), em andamento dissolvente, autodestrutivo. É o que decorre da voltagem de lucro desestabilizadora de seu expansionismo mundializado, ao ponto de sacrificar a governança e o bem-estar das diferentes nacionalidades de um planeta em vários quadrantes geopolíticos submetidos à agonia de corrupção, crime, desassistência social, até o abandono de todo projeto comum/coletivo essencial ao crescimento de qualquer propósito sustentável de economia.

Nesse contexto, um título como Paterson gira em muitas direções de leitura e sensibilidade, numa curvatura de sutileza e poder intelectivo, orientada como ato de valorização do tão pequeno quanto potente universo localizado em uma cidade ao léu de tantos mundos. Valorizados ficam a imaginação e o poder de contemplar, dando-se ênfase ao que fica pelo caminho, para ressurgir em vibrante forma de entendimento . Algo que se mostra eletrizante pelo dado de se ocupar do que é mais vigoroso para a arte (poesia e cinema tomados como núcleos), favorecendo simultaneamente outra ética de viver o fio de tempo que escorre um dia após outro.

Tem-se, então, um modo de escrever, como também de ler/fazer arte, incitar vitalidade e pensamento, através de sinais reveladores colhidos de instante a instante, como se tratassem de nada e nascessem de um vazio sempre em reincidência. Ao mesmo tempo, signos e sinais se fazem traçar na superfície mais simples de quem vê, de fato, algo compreensível em toda sua extensão projetiva como cinema.

Da associação criada entre ser e linguagem, entre analogia e paradoxo, de todo evento em decurso e seu impasse no plano do conhecimento, da história de um corpo e o repertório trazidos por cada criatura, Paterson se estampa ao modo de um satori a ser depreendido como poema. Da mesma forma que a caligrafia do personagem Paterson preenche alguns momentos da tela em escrita.

A senha está na linha-movimento-evento do poema que ele elabora ao final do filme, após cruzar o limite da autonegação e do desaparecimento do livro/projeto de vida. Tornar-se o peixe do que surge como imagem em seu próprio escrito. Outra poesia se deflagra, então. A partir de si ao avesso do falso início da página em branca (uma vez que toda folha a ser preenchida já contém, como bem aponta Foucault em “Linguagem e Literatura” os ecos de tudo que já foi escrito e se alinha numa virtual biblioteca).

Escavar a contingência. Eis o que se plasma como um Mistery Bus dos transportes anti-informacionais percorridos pelo poeta nascente Paterson (da mesma terra que deu W.C. Williams), alguém que vive entre cruzamentos, nas encruzilhadas que a tecnocultura não cobre com seus dispositivos de presença/ubiquidade.

Tornar-se a isca de Clarice na captação do que emerge do rumor subjacente ao ato de escrever. Ou, senão, o aquário de Marianne Moore (de novo, a órbita dos séculos modernos e pós-modernos em língua inglesa). Quanto mais localizado, o dado matérico, formado de resíduos, abre trilhas sobre a aparência do que é off, do que seria contrário e perdido para a poesia. Uma sonda-ambiente desponta, pois. Cria um lugar – o aquário, quanto é mais vazada a paisagem/cachoeira na cidade de Paterson. Um modo de habitação, a partir do que se traduz fora das palavras para melhor integrar-se a elas. A poesia é a questão do que se é em ato. Faz-se onde/quando não teria mais sua potente razão de se dar em evidência.

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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