Última Lírica Urgente (Por Fernando Naporano)

foto napo

Última Lírica Urgente (Por Fernando Naporano)

                                                Mauricio Salles Vasconcelos

Águas, pássaros, círios abstratos – Um lance de poesia, como poderia formular Charles Bernstein, em sua muito recente reunião ensaística, A Pitch of Poetry (publicada no ano passado em Nova York) – Os livros que Fernando Naporano produziu entre 20014 (A agonia dos pássaros) e 2017 (A convergência das águas, lançado em março pela Editora Poética, Lisboa) encontra, entre a estranheza e a ressurgência de muitos topoi e tropos da dicção do poético, um modo renovado de escrita pela intensificação de um veio ultralírico – o que quer dizer último e, simultaneamente, urgente (vindo de um instante único, de agora).

Pássaros, águas, “teatro dos restos”. O autor paulista rearticula o lirismo em encruzilhadas surpreendentes sempre, depois da estilização parodístico-citacional do pós-moderno que o situa numa condição contemporânea de escrita, no mesmo gesto em que vai dialogar com tradições remotas – barrocas, simbolistas e mesmo aquelas perdidas em fontes imemoriais de instantes consagrados por imagem e entoação de canto (desde que a poesia na Grécia muda de estatuto e se faz musicalmente convocadora das divindades sob influxo do corpo, das sensações). Fontes medievas também ecoam em módulos repentinos de canções, recepcionadas certamente em sintonia com o interesse grande que nutre Naporano pela poesia portuguesa em todas as suas variantes de tempo e enunciação. Ainda que ele faça especial menção – e seja perceptível em seus versos – a nomes impressivos a partir dos anos 1950 em Portugal (Mário Cesariny de Vasconcelos, Carlos Eurico da Costa, Pedro Oom, António Maria Lisboa, referidos por ele, entre outros poucos lidos no Brasil)

Interessante é deixar viva a procedência pop do cantor/letrista da banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui (cultuada nos 80, difundida internacionalmente por força de seu composto de psicodelia e vibrante concepção poemática). Mais interessante se torna perceber que tal dimensão mediática possibilitou a FN um ingresso em um campo escritural específico, propiciado pelo livro-de-poesia, com um sentido tradutório nada linear por parte de quem atuou no espaço espetacular. Algo realizado para além do foco de um tipo de estética muito particular, o que se restringiria a um sentido de letra-de-música característico, com contornos conhecidos –  circunscritos a certas temáticas, a posturas/procedimentos iconográficos e cênicos, numa modulação inseparável do “som da banda”.

Intrigante se revela, justamente, o senso preciso e ampliado no trato da matéria escrita no âmbito do livro, da lírica, linha sobre linha.

          Ai, pis, quantos, prantos

        inumeráveis dicções

       assomados pensamentos

       nasceram

      desta pedra

     deste meu permanente

    ascendente, veemente

    olharesgrima à pedra   (Naporano, 2014: 60-61)

 

      A agonia dos pássaros traz, na estreia do poeta, outra musicalidade – conjugada por afiada convivência com um vasto repertório de escrita paralelamente à escuta das sonoridades eletrônicas e enunciativas da new music há muitas décadas. E, também, outra imagem – depois das incursões pelo estroboscópico/délico pop universe.

Em outra via, há um dimensionamento do imagético, indissociável da formação de um autor pelas muitas esferas de mediação que regem vida/arte/cultura desde o século XX. Século intensificadamente plugado nos sistemas de informação, até sua travessia milenar, que consolida nosso agora numa civilização tecno, sem perda, entretanto, do lugar reconfigurado, renascente, reservado, sem cessar, a palavra/livro/linha poética.

Através de uma mobilizante mescla com vários fronts da hipermodernidade – do âmbito electro/acústico à sua atuação como crítico de cinema (do audiovisual em todas as suas acepções atuais) -, um toque deliberadamente antigo se torna flagrante – advindo da receptividade a uma tradição aberta a várias acepções da poiesis literária -, tornando-se mais e mais extemporâneo, exorbitado do relevo/timbre/tag do que é meramente epocal, sem recair, contudo, em qualquer especie de cultismo, de reverência classicizante. Muito ao contrário. Justo, o contrassenso aqui avulta, sensorial voltagem da potência de poeta e poesia em nosso contexto veloz de fruição e modelação de gosto.

Em tal compasso, tão heterodoxo quanto imantador, Naporano cria um elo renovado com diferentes referências de escrita. E, no caso, de um projeto poético, as dimensões de pensamento, sonoridade e imagismo definidoras de uma arte precisa, autônoma no seu modo de compor (desde as proposições ressonantes, essenciais, concebidas por Pound), obtêm formulações inesperadas, tamanhos são os planos cruzados capazes de jogar com o espaço/tempo (da ressonância íntima de algo conhecido como lírico, num sentido vivo de proveniência e revivência). Assim como conseguem se redesenhar domínios de linguagem e regimes de signos os mais diversificados sob o influxo de instigantes acentos rítmicos/construtivos.

Atravessei as máximas possibilidades do silêncio,

reentrâncias áridas que desconheciam o teor do pulso,

a posse do tato, o tao, a pose da vida.

Fiquei assim: imune ao mundo imundo

              com um olhar caligráfico dissipado de todo o passado,

o formalismo lírico, pisado feito trapo.            (Naporano, 2017: 106)

Curiosamente, o trânsito por temporalidades remotas toca fundo a poesia desse agora.  Ao avesso de qualquer imobilismo, revival ou cultismo, dá-se o enfrentamento com o “passado puro”, a “memória imemorial” (tal como Deleuze faz vibrar até o momento o lastro bergsoniano do pensamento-tempo). Tal postura explica, também, o sentido mais pulsante de cada ser em trajeto/em linguagem na recriação dos vetores intermitentes incapazes de paralisar uma intensidade sempre virtual, no contrafluxo da síntese do bom senso (súmula do tempo).

A aproximação feita com Novalis, em Diferença e repetição, se revela bem engrenada com a dinâmica da ultralírica em Naporano. Trata-se de um estado “da diferença infinitamente desdobrada, ressoando indefinidamente”. (Deleuze, 1988: 356).

É a disparidade que torna o infinito a força declinada/dobrada formadora do poético. Para lá de qualquer ajuste consensual a uma disposição ordenadora, o que aparece toma o plano, o palco da agonística verbal – o fator-imagem tão decisivo para Fernando Naporano, numa extração ultrassensível do romantismo radical de Novalis quando faz emergir a turmalina como peça pensante, propiciadora do movimento revolto da palavra na poesia, em desarmonia com o retórico, o simples protocolo da forma (gênero e estilo referenciais da disciplina Literatura). Assim como a flor azul de Novalis, em sua desconcertante narrativa Henri D’Ofterdingen, cria um indício interminado entre real e revelação pela escrita.

“A disparidade, isto é, a diferença ou a intensidade (diferença de intensidade) é a razão suficiente do fenômeno, a condição daquilo que aparece” (Deleuze, Ibid.)

Desponta a pauta poética como spatium – plano não-coincidente, nada coeso, de tempo-espaço – de emergências.

A imediaticidade das sensações – “nada mais eram que a saudade/a jazer em Jackson Pollock,/vítima borrada,/carmim-cinzel abstrato/de todas as futuras manhãs” (Naporano, 2014: 48) – requer incisão para captura da vertigem do tempo posto sempre fora do eixo (o hamletiano time out of joint), vindo de todos os quadrantes/quadrículas de passagem e duração.

Não ao acaso, a imagem “ao longo do cipreste ininterrupto” (Ibid., 38) fornece a ponta insidiosa do lirismo díspar – último ultra tornando-se urgente. A emergência do que se passou instila a indagação: o que está se passando? Um plano-poema linha sobre linha montado a partir de um dínamo pataquérico, como propõe Charles Bernstein, num ensaio nuclear de seu A Pitch of Poetry –  “Imaginação Pataquérica”. 

Ao derivar a patafísica de Jarry em estado disseminante, infestador do excedente de criação proveniente da combinatória incessante entre a tradição e o imediato, através de um inviolável pacto com o presente, Bernstein acentua o traço tardio, multiplamente exquisite, propiciador da poesia que é só de agora. A proveniência latina da modernidade – modernus –  bem exige, como pensa Jauss, leitor agudo de Baudelaire, a incorporação da hora única que passa, do que há de mais efêmero para existência de uma escrita com senso de historicidade, ou seja, do potencial de descontinuidade em relação ao incorporado à tradição. Tudo o que impõe absorção e contraefetuação do legado/recepção de um repertório por obra de uma irrefutável (não dada, inacabada) condição de agoridade.

De tal amálgama, precisamente, são compostos os livros de Fernando Naporano, nos quais vibram um imagismo maximal, contíguo à música extremada com que são reinventados lirismo e livro de poesia no auge da mais alta tecnologia. O choque da disparidade se instala, então, no declinado solo de palavras como arrebol, anil, lourejante, diamantífero, cinzel, entre inúmeras outras conjugadas em um dispositivo de lirismo intensamente dobrado sobre o antique e o intempestivo toque de um montador/mixeur multimidia.

Imagine Imagem – Situe o Som. O abstrato da poesia é viral – Pharmakon. O Afeto, como em Blake, decorre como estratégia e esgrima do supercomposto, hiperposto (mais que sobreposto) lugar da poesia depois de tanto tempo – depois dos propagados fins do livro e da arte – como arena/área viva de insurgências.

Sem temor da coda afectual dobrada a cada linha – construto concebido/conceituado de afflatus/imago –  por pulsação extravagada o mais novo vem da ganga de imediaticidade, nunca desfeita do tom impessoal de uma construção poética, feita para ser visiva. Um ato movido por uma imagética em seu senso performativo de ato, de cena – sob o signo da aparição, do surgimento disparatado, insuflador de sentido/síntese nunca encerrados –  antes experimentado em letras e cantos de música por Fernando Naporano, desbravado agora como a questão mais urgente do poético, por meio da acentuação exacerbada do lirismo.

Através/em travessia de sua marca ultralírica – pássaros, águas, entre os dados da coerência e da agonia  (como se leem nos títulos dos dois livros de FN) -, tornada ponto de urgência, da mais pontual incisão no tempo.

“Nestas memórias em chamas/tua infância arde, criança-sabre” (Ibid., 44).

Fotografia de Fernando Naporano

Por Melanie Havens

O recém-lançado livro A coerência das águas, de Fernando Naporano, está disponível no site da Poética Edições, através do link

http://poetica-livros.com/loja/index.php?route=product%2Fproduct&product_id=452

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BERNSTEIN, Charles. A Pitch of Poetry.  Chicago: The University of Chicago Press, 2016.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

JAUSS, Hans Robert. “Modernity and Literary Tradition”. In Critical Inquiry. Vol. 31, No. 2 (Winter 2005), pp. 329-364.

NAPORANO, Fernando. A agonia dos pássaros. São Paulo: Demônio Negro, 2014.

______________. A coerência das águas. Lisboa: Poética, 2017.

Avatar de Desconhecido

Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

Deixe um comentário