ROMANCE E MÚSICA – RADIÂNCIA ALIEN

ORANGE animal dog collective ii

                                     

                                          Tiago Cfer

Se o romance moderno enquadra-se numa antropologia do indivíduo, dentro de um projeto em que sujeitos observam e refletem o mundo na medida em que engendram um jogo proposicional, o romance contemporâneo tem seu início ao se dissociar dessa tradição. Visível se mostra o corte com uma trama autorreferente cujo enredo consiste na disputa interminável pela representação universal.

O que se passa entre a egologia moderna e a dispersão contemporânea? Entre uma trama bem amarrada, em sua pretensa onisciência, e uma trama sem amarração, contingencialmente amnésica? Que espaço é esse, entreaberto por aquele que escreve e através do qual não cessa de ser revelada uma experiência exorbitante, desatada de todo pacto prévio mantenedor de uma ordem de leitura e escrita reconhecíveis?

No terceiro romance de Mauricio Salles Vasconcelos, Meu Rádio (Coletivo animal) (São Paulo: Lumme, 2016), a narrativa incursiona pelo espaço da música: “Depois que a música termina, continuamos a perceber o que  passamos a chamar de alegria tribal trazida pela banda” (p. 11). A escrita desprende-se de uma ontologia da visualidade e passa para o plano ondulatório da sonoridade, operando, nos termos de Derrida, uma manobra textual que demonstra certa transformação do logos (a racionalidade) em loxôs (a obliquidade), do entendimento em escuta.

A vida dos personagens é apresentada em três capítulos num trânsito contíguo à recepção e retransmissão em rede, através de iPods e aparelhos celulares, do som da banda Animal Collective. No primeiro, “Sha La La”, Ciço, ao lado da companheira com quem vive em São Paulo, Bembe, desenvolve uma tese sobre a música dos mundos: Compactos – Música e Caminhada. Num assombro repercussivo (tudo está acontecendo bem agora) de Salve-se quem puder (a vida), J-Luc Godard, o personagem munido de lápis anota tudo o que vai passando: “… rumor de guerras/mundos concomitantes em um só instante-conflito-contato (…) Como se fosse o princípio de um outro tempo” (p. 47).

Em “Mato Alto” (2º capítulo), Rami, um garoto que cresce isolado no quarto de uma casa dividida com o pai (Sacramento) numa periferia de Cuiabá, encontra-se na voragem de uma vida em transição. Apelidado Mestre da Música pelos moradores do bairro, desde a gaita, instrumento tocado na solidão da infância, até a música eletrônica que hoje lhe dá o prestígio de jovem crítico, o rapaz vem se lançando para fora dali. Ele e Mariô, garota que “está na dele” pelo toque da gaita, confluem num projeto de banda que ressoa de uma canção do Animal Collective, “My girls”: “Eu só quero uma casa”. Em meio à rota de tráfico neste subúrbio do centro-oeste brasileiro, as biografias de Rami e Mariô se cruzam sob o signo da música.

No terceiro capítulo, “Festival”, a relação amorosa entre Íris e Gaela se desmancha durante o Festival da Música do Mundo. Vindas da Área de Comunicação, elas realizam uma “cobertura” da performance de Animal Collective. Enquanto Íris atua na TV, Gaela faz transmissões e registros online num aparelho celular para seu blog em construção, Flama (não é Fama). Numa celebração musical em tom de iminência, tudo, ao ar livre de Meu rádio, sugere uma mutação em curso (do espaço-tempo territorial, do próprio livro): “A nação (um conglomerado de ouvintes, apreendidos antes na distância) vai sendo entendida como pista” (p. 127).

NOVA CAPA MEU RÁDIO

O teórico Jean Bessière, em seu livro O romance contemporâneo ou a problematicidade do mundo, diz que o romance de agora tem uma função de mediação, e que sua evidência consiste em apresentar a transitividade social enquanto figura sua própria transição, doando-se como objeto de mediação. Neste nó representacional (jogo de percepções temporais e emergências biográficas) é que o romance tocaria a contemporaneidade.

Em Meu rádio (Coletivo animal), MSV incorpora à escrita romanesca uma humanidade entre máquinas, em caminhada embalada pela “música do mundo” –  do walkman ao iPod. Justo num momento em que a radiofonia parece estar fora de cena, e a transmissão da música se transforma com os dispositivos móveis que armazenam dados download, o autor confere um novo efeito radiofônico à narrativa. Põe-se a captar música (vinda de tecnologias sonoras) e guerra (de corpos, tráficos, do poder econômico em todos os setores e formas de vida) numa profusão de mundos, no sentido de que essas máquinas difusoras de imagem e som instalam um tempo de suspeição, o sempre urgente agora, canal tanto para o terror quanto para uma transformação inédita da realidade.

A leitura deste romance pode ainda ressaltar que o animal ali emergente tem a ver com o ciborgue de Donna J. Haraway, uma vez que “ser homem ou mulher não existe mais em música” (em sintonia com as proposições de Deleuze e Guattari, em Mil Platôs).

_daniel richter _ die idealisten

O que pulsa em Meu rádio – feito uma nota atrativa, um intervalo dissonante – chama atenção para o arrebatamento e a deriva da escuta. Um escrever/filosofar de corpo perdido, tal como enuncia Derrida em Margens da Filosofia. Ação da escrita e do pensamento que consiste numa alteridade qualitativa, num devir-música. Ou a sinalização de uma gênese extraterritorial do romance (esfera alien) de agora, entre maquinismos e multidões do planeta, capaz de apontar para um coletivo humano e não-humano em descoberta, em expansão:

                               Alien – é o modo de recepcionar espaço/tempo/terra

Órbita que a própria música faz gravitar em sua emissão

Incompleta, infinita” (p. 151)

    Tiago Cfer é doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Traduziu o ensaio Literatura de esquerda, do escritor argentino Damián Tabarovsky (lançado em maio deste ano pela Editora Relicário).

Imagem: Die Idealist (2002), pintura do artista alemão Daniel Richter.

 

 

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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