Surtos Shoppings Sitiados – Depois do Sexy?

Mauricio Salles Vasconcelos

Desde a dissolução dos emos[1], concentrados em São Paulo (Brasil), na virada da Avenida Paulista com Rua Augusta (rumo ao Centro), não se via uma tão efetiva/afectual marca de pertença. Não há nome para definir tantas pessoas reunidas, reencontradas à volta de alguns, obsedantes, sinais. Quem sabe? Mais do que surto: uma surgência.

Uma talagada da bebida exibidamente barata ou cavalgada de coisas reunidas num só átimo sobre passantes que voltam a se sentar naquele lugar: um canto do mundo à beira da maior metrópole latino-americana. Esquina exageradamente ocupada (por nada, noema, no ver de um alado anúncio).

Muito tempo depois da desaparição dos emos, tudo o que se ouvia sob um toque desesperado de balada (de algo como que ouvido antes, porém insistente, maquinalmente assimilado). Ao ouvido singular, indevassável (I-pod, iterativo sistema, aparato apreensível somente do lado-de-fora).

A palavra “balada”, aliás, começou a se impor (para qualquer evento/”escapadela” noturna) num misto de música direta – embora nada facilmente etiquetável –, vinda de uma deliberada marcação eletrônica, cheia de efeitos, porém gritada por um emocional corte de voz (hábil em ser repetida, viciado cantarolar) sem direcionamento. Onde todo mundo pode entrar. Qualquer pessoa pode vir e se acercar do amontado último de grupo. A música se revela tão-somente um aglomerado, capturável exteriormente.

Em certo momento, é um shopping-center não tão novo que volta a agrupar ex-gregários. Inicialmente, parecia ali se arregimentar um polo de liberação gay no masculino. Os gajos podem, desde então, se beijar na boca à luz do Frei Caneca Store. Mãos dadas, compras juntas familiares. Vez ou outra um rasgo de pele de onça subia pela coxa até a alma superpintada dos travestimentos.

Muita arte passa a se desdobrar a partir dessa hora. Alguns reconhecíveis atores – Off-Broadway paulistana – compõem a frequência (todos vindos de montagens hipertextuais, multimidiáticas mesclagens entremeadas de depoimentos sobre a “vida íntima”). O point homo continua firme, suplementado por novas proliferações. Há uma linha vital, vibrante pelo baralhamento, até estranhar as posições estatísticas, demarcadamente identitárias, as divisas entre sexo, momento e modos de vida sob os mais desregrados arranjos. Entranha povoação de sexo para todos – depois do simplesmente sexy.

Para onde foram os emos?

Para onde foi a música? (Atualizando-se aqui a indagação de Alice/L.Carroll acerca da luz da vela e seu rastro após ser apagada).

Tudo se acopla – Não há divisória – após a disseminação gay – A cidade, o momento, o mundo tomados por homossexualismos.

Tudo continua, a contar do shopping, passando a ganhar uma trilha apontada para a esquina mais abaixo, na beira da Avenida principal da cidade de São Paulo. Justo por onde cruzaram e criaram pouso, um dia, os chamados emos, entre o dito pejorativo e a replicação de uma série de seres quase iguais.

Tudo parece ressituar um escrito-de-força como aquele de Paul B. Preciado (desentranhado do testo/texto/sexo de Beatriz Preciado) acerca da máxima de Deleuze, leitor de Proust: “A homossexualidade é a verdade do amor”.

Não à toa, o Manifesto Contrassexual (editado no Brasil com a presença da autora/autor no lançamento e em outros eventos) circula nas mãos de muita gente.  Como se lê diretamente das linhas de Preciado (transformado em Paul B) através da voz de muitos passantes pela megalópole-Brasil: transversalidade/transdisciplinaridade é coeva da experimentalidade-transgeneração dos sexos.

Em Testo Junkie, uma combinação, muito bem conduzida, de ensaio multidisciplinar e romance expõe o idílio de B. P. P com a autora francesa Virginie Despentes, consolidado numa relação mantida até o dia de hoje. Traz como pulsação básica o entendimento de que o desejo é homossexual em sua origem.

Os textos do Manifesto de Paul B. soam como canto dessa hora que passa e extravasa no rumo dos segundos de todos. Relatam o conto do estado sempre nascente dos sexos a partir da passagem pelo ponto em que o devir (a dinâmica temporal do humano) se apreende como a própria imagem da sexualidade. Trata-se de uma cópula-matriz feita “por trás”, a fecundar uma polissemia de estados que alude à “enrabada”, ao “arrombamento” como concepção.

Deleuze/Proust/Preciado propiciam um veio de interligações no qual o Ânus Solar de Bataille se traduz enquanto Ânus Molecular tomado como princípio.

Fornecem, em tríade, um elo combinatório de forças em face de um fluxo de signos incididos sobre os corpos e uma cidade. São Paulo é captada, aqui, como polo hipermotorizado, saturado, de um excesso demográfico e caos ambiental, por uma desmesura de humanos a pé e em automóveis a um ponto (in)desejável de convivência.

Curioso é perceber que uma certa história da sexualidade desenhada entre esquina de Avenida Paulista e Shopping sitiado/situado (como palco de encontros e experiências) volta a repercutir com um clamor de erotização mais declarada. Ao modo de um despercebido manifesto (depois da chamada Era dos Manifestos, modernamente configurada e analisada por um crítico como Arthur G. Danto), muito próximo àquele lançado pelo rastro dos emos.

Desde os “emocionais hardcore” reenvoltos pela indumentária em negro e o aparato da música.

É como se o lastro do homossexualismo visível, manifestado por todos os lados (a afirmar uma condição presente e um princípio, bem frisado por Paul B), sempre em vias de uma mais ampla legitimação, ganhasse um inesperado vigor disseminante para além de uma pontuação segmentada. Após um momento de ação legalizadora, sustentada pelo crivo tantas vezes institucionalizador de um modo de ser e sexualizar, propaga-se para lá do espaço fechado do Shopping-Sítio-Situ (compreensível como surto de performances homossexuais em um âmbito demarcado).

Passa a transitar nesse momento de um modo mais interferente (inerente a toda sexualidade), de volta àquela esquina urbana em que se anunciou (através da súbita passagem dos emos) uma espécie de marco da vida da cidade. Repotencializa-se esse lugar à beira/esquina (mais do que à margem). Pedra-base, que é, da concentração e apresentação das pessoas que fazem existir um locus, em um instante/átimo do tempo, no decurso de um fluxo vivo de signos irrepetíveis (ou melhor, repetíveis pela variação de seus componentes, a contar de elementos sempre constantes e outros em correlação, nutridos por uma contingência).

Contingência – Microssegundo de uma época, crivada pelo recrudescimento do terror fundamentalista. Em outro extremo, despontam as macro-operações ultramodernas da economia transnacionalizada, gestada por toda sorte de tráfico empresarial, envolvendo Estado e segmentos criminais corporativados (na criação de um outro, fundamento em emergência, não sustentado pelas ideologias milenares). Em todas as quadraturas planetárias, vige o signo englobante/planificador de um consenso econômico quanto aos modos de serem concebidas governança, gestão de corpos e bens em demarcados territórios (blocos geopolíticos).

No mesmo giro simultâneo da História (em sua finitude, reengenhada depois do fim da história) entendida como heterogênese de forças e planos de ser/saber/poder, uma relação seminal entre canto e conto repensa as formas de convivência e ocupação dos espaços pelo veio de um impossível, alterno, romance do tempo. Um outro “emocional”, como que criando uma propagação dos emos em homos (até então, atravessados por um empenho legalizador acerca de um dado libidinal de origem), deriva agora em sexualidade dos humanos a contar de tal compreensão –

Contrassenso do sexo possuído por detrás, pelo corpo integral, visto para fora de si (id/índice-silhueta móvel, em extensão). O que se passa em detrimento de uma apreensão frontal, da ordem monovalente advinda de uma projeção da ratio (num desdobramento das teses de David Wills, em Dorsality). O cérebro é a paródia do equador.

   O coito é a paródia do crime (Bataille, 1985: 12)

    Outro toque: pela dorsalidade, como marca conceptiva, propulsora de uma heterogenia incontornável. Entre esquina, shopping e os novos caminhantes das ruas de uma metrópole ao sul do continente americano hegemônico ante um desígnio planetário do (des) concerto das nações, entendido por suas marcas terrenas, finitas, porém pedestres. Entre solo e muitos, diferenciados, corpos em relação até o paroxismo de uma involuntária, porém potencial, megaconcentração urbana.

   – Merda, aqui não há uma explosão metafísica, sem uma outra, psicopatológica! (Rawet, 2004: 251)

Saturação e Aliança (São Paulo) – O sexo pelas mãos, de mão em mão (depois da tão vaga, voejante nominação “sexy” para o que aflui e atrai de modo genérico). O amor pelo coletivo passa pela liberação gay, que já atravessa a rua como a gênese da liberação de todos os sexos. Porque todos querem todos, indiscriminadamente (eis o embate dos vivos, entre a angst da mortalidade e celebração corpórea do indeterminado finito).

Os afetos ocorrem em um contexto traçado por gestos singulares a partir de padrões e suas variantes, incessantemente dispostos em encadeamento de contágios mútuos, proliferantes. “…emaranhado humano, ocorrendo por toda a parte e sempre sem fim” (Baldwin, 1967: 63).

Desde os primeiros beijos gays dados publicamente (sob o tag “emo”) até contar com a instalação, no âmbito-shopping, de um circuito de trocas e circulação de bens simbólicos, revela-se uma concomitante mutação nos corpos heterossexuais. Esquina/Shopping/Megalópole: um laboratório testado em backstage, tornado imanente abertura ao qualquer um do múltiplo visitado em cada corpo/narrativa sexo adentro. Quando se atravessa as amplas avenidas de uma certa cidade.

As diversificadas formas eróticas em convívio indireto, simultâneo, refeitas a partir da matriz modular proposta por Preciado, leitora do Proust deleuziano, agora esplendem no coração-capital.

(Soa outra badalada, balada da hora).

Filosofia em tráfego, vida pedestre plena, multitudinal, melodia no ar-do-tempo. Os sexos se intercambiam (segundo O Anti-Édipo, em culminação com “Da filosofia como arte (…) de dar o cu”, por Paulo Beatriz Preciado). São atos de partida e enlace sobre a velocidade moral dos seres em transposição de um a um, por arrombamento, por um original jato violado de

Esperma, rio, esgoto, blenorragia ou vaga de palavras que não se deixam codificar, libido demasiado fluida e demasiado viscosa: uma violência à sintaxe (…) o não-senso erigido em fluxo, plurivocidade que volta a adentrar todas as relações.

            (Deleuze e Guattari, 2010: 179-180)

[1] EMOS –  Num primeiro instante, passíveis de serem definidos como “emotional hardcore”, vibram pelo que excede, melodiza e externiza. Seres gerados por canções “pegajosas”, curiosamente hipereletrificadas, são elas/eles postos a caminhar numa série aparentemente desmotivada (por conta de uma imediata ausência de ideologia), porém reincidente. Ostentam rostos pintados sobre corpos paramentados de preto sobre o preto geral das vestimentas (em diálogo desbordado com a cidade cinza – SãoPauleira – do universo conhecido e cantarolável deste planeta).

corrente emo                                                                   M   S   V

Referências Bibliográficas:

BALDWIN, James. Giovanni. Trad. Affonso Blacheyre. Rio de Janeiro: Civilização Brasil, 1967.

BATAILLE, Georges. O Ânus Solar. Trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena, 1985.

CARROLL, Lewis. Obras escolhidas. Trad. Margarida Vale do Gato et al. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.

DANTO, Arthur G. Após o fim da arte – A arte contemporânea e os limites da História. Trad. Saulo Krieger. São Paulo: EDUSP, 2006.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. Trad. Luiz B.Orlandi. São Paulo: 34, 2010.

HALLEY, Janet e PARKER, Andrew (org). After Sex? On Writing Since Queer Theory. The South Atlantic Quarterly. n. 106:3. Verão 2007. Durham, Carolina do Norte, Duke University Press.

PRECIADO, Beatriz. Testo Junkie. Sex, Drugs, and Biopolitics in the Pharmacopornographic Era. Trad. Bruce Benderson. Nova York: The Feminist Press, 2013.

___________. Manifesto Contrassexual. Práticas subversivas de identidade sexual. Trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1, 2014.

RAWET, Samuel. Contos e novelas reunidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

WILLS, David. Dorsality. Thinking Back Through Technology and Politics. Minneapolis e Londres: University of Minnesota Press, 2008.

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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