A arte dos e-mails não respondidos
Teti Conrado
Projeta-se sobre mim o artigo de Jonathan Frazer sobre o uso e a conversação dos celulares, tranposto com muitos adendos para a universália on-line. O que mais pauta, pontua, estar em sintonia com inumeráveis muitos diz respeito a contato/corte no interior de uma charada referente a e-mails não respondidos.
Frazer aponta para a entronização da “vidinha”, o texto íntimo replicante pelo apelo mais primário (leia-se “Amor sem pudor”) – coisas do coração, listas de compras e obviedades sob o autocomando fático (retome-se Jakobson). “Eu estou no aparelho móvel”, eis o que gritam os cels por cima de qualquer urgência e despontamento real de um chamado mobilizador. Antes de tudo, dobra-se o lugar-comum e não o comum/comunal possível de perpassar as tecnologias de som-imagem-palavra.
“Eu estou na outra ponta de um contato tão extenso quanto intimizado”. Nada importa que seja dito na esfera das correspondências virtuais. De novo, se repõe a encruzilhada autorreplicadora do dispositivo técnico. Acima da interveniência particular de quem se lança à conversa, ao colóquio, a qualquer espécie de apelo.
A dimensão orbitante, onisciente, de uma sintonia presente, sempre em aberto, conta com o apagamento, a ruptura do outro dialogante. A máquina passa a se comunicar sozinha sobre as emergências. É um fator-comunicação levado à sua própria falácia (com alguém ao acaso, “você mesmo” pelo meio).
Vive-se arte da incompletude quanto mais as distâncias se contraem dentro de um circuito aparente de pessoalidade. Trata-se de completar antes de tudo o vácuo formado posto à beira de um interpelante capaz de atribuir sua ausência por conta dos limites comunicantes disponibilizados.
Pode ser caso de excesso de mensagens, algum erro não comunicado, mas o humano está em causa nesse pico oferecido pela ordenação de mensagens imediatas e pelo não-dito implícito que conduz a uma arte, combinada com meditação, autoaprendizado, relativa à impossibilidade da presença. Ao tempo da mais alta tecnologia, há um contorno impreenchível, relacionado ao trabalho de ser vivo atuante para fora da pendência instrumental, da carência fomentada pelos amados objetos falantes, dotados de transparente visualização e aferição de dados (“tudo o que é seu, sou seu, amor impossível”).
Existe algo impossível de ser recoberto quando se emite o limite-humano acima da fábula maquinal ao fundo – abismo do fora – momento suspenso: não-estar à altura da hora que passa (essa direcionada, no intervalo de crescentes alheios ao nosso dispor/dispositivo, apenas “para mim”).
