CALOR CLARICE

    Tudo faz coincidir com o pior momento da história (não faço crônica, nem deixo de sair de um coma, intraduzível mal-estar referente a Crise/Palavra-Insígnia da segregação operante a se perder de conta): calor, domingo em desvalia (quando os dias úteis acabam), inexistência de elo comum. (Até pouco antes, eu tentei separar solidão e solitude, para benefício do ente abandonado por si mesmo, tornado força agora então).

   Revela-se falsa a luz eterna/internáutica. Quando um sol abarca, abrasa em seu toque incompleto o senso de abrigo. Ninguém se encontra à distância, porque ultramediado; põe-se inevitavelmente à mostra, cubo-apt sempre exterior a um palmo arquitetônico de olho íntimo e conjunto/conglomerado pós-humanista. Extrapolo. Algo incapaz de ser visto de um único dentro/centro. Mesmo o tal aludido sol igual à vida não reserva trégua, incabível em si, clarice (o nome-autoria de língua portuguesa mais lido em radiação-tela).

    Calor Clarice conduzido entre não-respiração e o fôlego meditativo. Através do que vem da rua/Incrivelmente, do plano em que o olhar desolado quer pousar para encontro de um solo negativo e propagador do incontrolável desespero quanto há mais gente de um modo bem intrigante gente vinda de tudo que é parte. Não é Parada. Nada para. Sem-Razão (à vista/ausência de festa/comunidade). A estação vira num repente, expulsa a possibilidade de harmonia, de um ponto a outro tudo empedra (ninguém escapa ao casulo contrassolar, metafísico ventilador).

   Superpopuloso clima – braços cruzados por sobre a janela – um vidro (aro quebradiço). Estou sempre pronta para a guerra (minúscula, involuntária, incessante).

   Vem da rua – o mal (o que não deve ser dito, toda palavra se transforma enquanto há senso, quero dizer corpo) – Vem da menor falha movida pela estratosfera, um único corpo tombado sobre a hiperpovoação –

   De onde se radia de um modo igual quando mira-se o céu aguçado por desastre ecumênico, ecosófico –

   Onda cálida catalisadora do que abstrai e abasta o em-volta (sufoco para cada palavra emitida por humano em saturação de calor, seu extremo). A intervenção cirúrgica de quem escreve em trespasse para ser lida em volta de todos, Clarice tal qual o calor/as datas batem/as motivações se tocam, estão na crista

   Domingo Maldito) – Assim, ela definiu, com base no filme polissêmico do sexo à deriva rodado por John Schlesinger – a ronda entre ap e botequim (living forrado de imagens diagonais modernas não impede a busca de Comprimido Melhoral, Coca-Cola, Cigarro Minister, no estabelecimento ao pé do prédio) – O calor fusionado com o dia abstruso ao grau máximo da História em seguimento e toque regressivo, numa só tacada, se torna a meditação crucial de gente/giro da hora (gente significa exatamente giro da hora, friso, depois passo a me entender e esquecer) –

   Circuito direcionado, nos menores atos, ao postante receptor tão vivo quanto distante/Assim, a subsistência como quem se apresenta nos grids-diagramas de uma postagem/Vidro-janela visto ao longe, reconhecivelmente há ao fim de tudo um habitante da solidão-cidade em certa época: rasgo do entrevisto horizonte lá no mais alto edifício, rachadura sol no auge refrata

   O calor vem de mim.

                                           M A R I   S O A R E S   V A R E L O

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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