ELECTRO SELF – RUAS E GRAFITES

 

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A proposição e a presença do Corpo Elétrico, em Walt Whitman (tal como radia Song of Myself/Canção de Mim Mesmo), viabilizam uma nascente focagem no ato de notar, no senso de notação, ao compasso de uma escrita eletrificada com nossa era regida por high technology e mediações em todas as órbitas cotidianas. Notação em vez de anotação. Um surgente veio produzido sob o influxo de respostas imediatas, engrenagem sensório-maquinal, próprio de criaturas cercadas por fiações não apenas tecnificadas, uma vez que o corpo sempre diz do pulsional, instigado como nunca por instâncias de instante/imanente época em um irreversível chamado. É um corpo q está sendo tocado, neste livro-poema-página (a leitura impactante de Ana C. César à volta de WW permanece).ana

Ao contrário do culto às selfies, em correspondência com os selves incidentes em projetos de escrita concebidos como uma hiperrepetida “autoficção”, quando não biorrelato ou, nos termos mais instigantes lançados por Foucault, uma escrita de si emerge, ao andamento de um cuidado de si, de um trabalho do corpo (em equivalência, certamente, com bodies of work, propulsionados por Kathy Acker). Algo mais próximo de uma vertente documental. Ou seja, para fora do sujeito, a dimensão em primeira pessoa se torna campo de virtualizações. Mostra-se como ativação/ativismo de uma sonda afinada com o que rola no mondo machina e todos os offs (line/alineas/alinhamentos identitários).

O que se escreve está tomado por fora. Vê-se numa ambiência em mutação. Ninguém se encontra sozinho, ancorado no princípio cada vez mais segregador e institucionalizado de um lugar (ponto fixo/prato-feito) de fala. Evidentemente, há que se construir para si um corpo (sem órgãos, ao modo deleuzo-guattariano desdobrado do Cruel Teatro Artaud ou o visionário polo de desregramentos, antevisto pela Carta-Rimbaud). Uma individuação se ergue contra todos os aninhamentos/anichamentos em tendências já corporativadas.      k a

Vem daí a eletrificação do corpo – desejoso de muitos, raiado/gozoso a ponto de inexistir uma única orientação para sexo, deixando de haver demarcação nesse sentido. Troca-troca da Infância, já enunciava Roberto Piva. Sim, porque a fala é uma enunciação coletiva, sempre em gradação disparada por muitos focos ardentes de um a outro. Bem fora da pavimentação de industrialização-urbanismo-democracia modernos, Whitman podia clamar A Canção de Si Por Si. Para além de si. Justo quando despontam ruas (na dimensão multitudinal irrecusável, intermitente, assim como lidamos com “milhões de amigos” nos recantos do postcard-livro de faces). Ruas e grafites. Somos lidos pelos que passam à altura da tecnificação dos mundos. Tudo o que pulsa no meu “pequeno eu” (lido/lindo poema de Ginsberg em consonância com o “eu menor” pensado por Laymert Garcia dos Santos, em “A experiência da agonia”, no contrapolo ao Grande Eu da Cultura).

Sim, o eu da cultura-selfie (nas postagens e nos projetos de livros) pode se tornar um hegemônico gordo repositório de reiterações anti-desejantes. O gozo da descoberta de si se paralisa, caso a escrita não saia da soberania de um sujeito autoposto. Por enquanto, eu assino meu nome como Teti Conrado. Encontro-me em diálogo com quem vier. Porque este texto é uma postagem. Encontra-se dentro de um álbum (tão volante quanto volitivo). Assim como se trata de uma página de livro. À gradação do grafite lido agora. Exatamente, na rua onde todos nós moramos.

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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