Tudo o que não disse depois que a entrevista acaba.
Volto ao arquivo, encaminhado pela repórter, fazendo checagem com o texto final da revista on-line: para verificar o desejo de réplica (sempre tardia).
– O que significam Bandos de Blogs Móveis em seu romance Postar (Popstar)? Indicam método de trabalho?
Ah, a resposta vem horas depois. Num repente, muitos anos rolaram e a articulação definitiva surge na sequência do que não é mais pergunta, porém um embate contínuo (deixa de haver o rosto da jornalista Corinna Telêmaco à minha frente, boca suspensa à espera do que tenho a dizer).
Na real, minha produção tem um vínculo forte com a peça O Sintoma – Por uma vida sexual irrefreável (encenada em 2018, no Quinto dos Infernos, SP). No momento da abertura, sempre referendado ao longo do espetáculo muito breve, o ator Cosmo Cassiel ao reviver Leopold Bloom (Ulysses, de James Joyce) através da leitura feita por Lacan, em seu texto “O sintoma”, deixa exposto o inviável bate-pronto à questão, o confronto de toda uma vida resumido em pergunta-enquete-esquete da voz de alguém. Mesmo uma autora é um alguém em sondagem interminada. “O texto da resposta a uma obsedante entrevista/interface está pronto, só se dando no entanto em outro momento, outro espaço. Bem quando a questão acoplada à criatura que a lança, ela/questão não mais são recorríveis”.
O debate agora é só comigo. Blocos-Móbiles. Tudo surge do meu contato frequente com a pessoa e a escrita de MSV (Mauricio Salles Vasconcelos). Sendo sua amiga ao longo de décadas (muitos meses a mais devem ser considerados na formação de uma outra época, o que leva à outra contagem de seres e seleções de tempo), fui notando uma convergência incrível de interesses, motivos em troca acelerada, ao ponto de me pôr a escrever. Muitas vezes tocada por um lastro de parágrafo, outras pelo movimento de sua livre leitura (Mauricio gosta de ler para mim o que acaba de ser inscrito); tarde da noite emendada em outra tarde. A digitação de tudo em pauta entre nós foi meu primeiro relance. Bem depois passei a responder a algo extraído de mim numa originalidade nunca antes percebida. Curiosamente, uma primeira emissão singular (por escrito) tem noção de que o diálogo com aquele homem, ainda amigo, fica à distância. Embora seja meu primeiro leitor (ainda que não leia efetivamente o que escrevo; tantas vezes se impõe o silêncio).
Na peça escrita por ele – a citada O Sintoma –, desentranhada de Joyce/Lacan, perceptível se mostra o fato de que chega-se a um estado em que o escrito passa a nos ver. Ganha um corpo autônomo espraiado em coisas outras (ditas, vistas ou irrompidas num repentino quadro destituído de cifragem). Aí é que existem os Blocos Móveis – tudo o que dizemos nos circuitos de blogs e mensagens-boxes pretensamente encriptadas para amigos distantes ou próximos ao abrigo da Rede –
– Esse complemento (transcrito agora “à guisa de parágrafo”) se revela imprescindível, Corinna Telêmaco. E você não está aqui. Eu mesma já me tornei outra pessoa. A resposta à questão-entrevista certamente surgirá em outro molde, nova matriz. Acontece que não é uma resposta, nem diz mais respeito a mim.
