SEXO/SOMBRA: a erotização do mundo

 

 

                                                 Anderson Lucarezi

 

CLIQUE DA CLAQUETE: No turbulento 2019, a escrita-em-urgência de Mauricio Salles Vasconcelos realizou mais um afluxo proteico (Proteu / proteína) cuja preamar recebeu o nome Sexo/Sombra. O livro expressa aquilo que considera premente nos nossos dias: a expansão de uma sensibilidade que, indo além do mero elogio das miríades de perspectivas sexuais, aponta para uma erotização ampla do mundo, também no sentido simbólico; polinização de possibilidades para matizar o panorama, fraturar os discursos hegemônicos, muitas vezes esterilizantes.

Perante um contexto no qual o posicionamento oficial do país defende generalizações violentas – menina veste rosa e menino veste azul ou Deus acima de todos –, Mauricio responde com vigor vitalista e artístico, o que se evidencia em suas performances baseadas no livro e, principalmente, na forma de sua escritura, paratática, fraturada, não alinhada à lógica corrente e unívoca.

 

 

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Um dos procedimentos formais de ruptura com os discursos imperantes: a tessitura de uma sintaxe pautada menos pela subordinação do que pela coordenação e pela parataxe, recursos sintáticos, esses dois últimos, explorados por Mauricio desde seus primeiros livros.

Versos como “Subo o berço de trigo e mirra / A benzedeira pesquisa / não alcança meu rosto”, de Lembrança Arranhada, obra de 1980, ilustram o primeiro recurso sintático mencionado, isto é, a coordenação, a ordenação justaposta, em que, apesar da independência sintática, as orações estão semanticamente encadeadas. Já versos como “(…) máscara da palavra / Silenciada sob o som, peso-morto, pisca-pisca por Breu-Cruz: / 1000 Anos-Luz, Palavra-Peso, Imagem Avessa, Vida-Sem-Lavra”, de Ocidentes dum Sentimental, ou “Beijo das bocas – Adjacência – / Moral – Musical / Score – Do fim.”, de Sexo/Sombra, são experiências sintáticas mais radicais que tendem à parataxe, à não previsibilidade semântica.

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Myriam Ávila[1], estudiosa do assunto, defende: enquanto a coordenação corresponde – imageticamente – a um exército de soldados espaçados caminhando para um destino (semântico) comum, a parataxe poderia ser representada por pessoas compartilhando uma mesma rua, mas cada uma caminhando para um destino próprio. A leitura de Sexo/Sombra passa, como já mencionado, por casos de parataxe, inclusive por momentos em que ela se dá no nível macro, isto é, extrapolando o campo do poema e enveredando pelo campo do livro.

Alguns textos, ao mesmo tempo em que carregam algo de completo em si, não se entregam totalmente, adiando sua apreensão pelo leitor, jogando a suposta chave de leitura para o contínuo. Nesse sentido, um poema abre uma linha que só volta a ser fisgada em outro escrito, fazendo com que o livro pulse, à maneira de Gertrude Stein, como algo relacional em que os sentidos dos textos não estão neles próprios, isoladamente, mas na relação entre eles, isto é, nos fluxos e contrafluxos da escrita.

Iniciações – a parte – inicial – do livro, pauta-se – por esse – ritmo – ao mesmo – tempo – corrente e – contracorrente; poemas quase-crípticos cuja leitura sequenciada ilumina aquilo que aparece antes. Amostra disso é o último texto da seção, “Mira”, que dispara – “Desígnio do sexo // A ser testado mesmo depois / De todo fim / Como se fosse // Uma primeira vez” – versos que desanuviam a opacidade inicial do título da série, sugerindo todo sexo como uma iniciação, não no sentido virginal, mas no de uma busca da intensidade característica da vez primeira. Iluminam-se, a partir desse, trechos anteriores de poemas do grupo, como “assim agora // até o fim // repete-se ‘Até o fim’” ou “Chama-se sexo (senha a ser / Reincidida)”.

Paralela a esse anseio pela repetição, pela reincidência do sexo como forma de reviver um prazer original, a constatação de que não se é mais o mesmo após qualquer tipo de experiência, inclusive corpórea. Evidências: “(…) corpo que age    sob/sobre / O meu último eu”, “(…) logo mais / Ex” e “Da impossibilidade de qualquer repetição (…) // De uma repetição impossível / Qualquer”. Contrastam, então, esses obscurecimentos impressos no passado, ex-seres tornados outras coisas, com a luminosidade da chama sexual; claro-escuro que matiza o tema a que o livro se propõe, revelando que nem tudo é prazer. No entanto, se depois do sexo, a sombra, Iniciações dobra a aposta na erotização após / contra a treva, propõe um outro sexo, ainda que se almeje aquela mesma intensidade original. Botão de flor entre os escombros. Nascituros em meio à pandemia. Vida que segue. Novas possibilidades.

 

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Na segunda parte do livro, Libreto (três corpos), surgida a partir do corpo a corpo com Hilda Hilst, Tite de Lemos e Eduarda Dionísio, o caráter paratático da escritura se acentua. “Vivo o rolamento de todas as coisas”, linha de um dos poemas da seção, é a frase-encapsulamento da lógica-estética não hierarquizante proposta pelo livro. Ao longo dos escritos dessa e da parte final do livro, Beijos Públicos, o que se passa nas páginas é precisamente isso: rolagem – justaposição – sequenciamento; ritmo cinemático que reverbera (mas refratando inventivamente) referências do campo da não linearidade, da abertura a lógicas outras; um arco que vai de Rimbaud e Mallarmé até Charles Bernstein e Lyn Hejinian, passando pelas experiências, por exemplo, de Pablo Picassso, Getrude Stein, Décio Pignatari, Sergei Eisenstein, Mário Peixoto, Jean-Luc Godard, Júlio Bressane.

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A poética de Mauricio concretiza, então, toda uma rede de relações por meio do contato e do contraste de palavras e intertextos. Para isso, engendra uma forma-conceito que supera o “falar sobre”, muito comum na poesia contemporânea, e exerce uma ética composicional que, contrária à pretensão da univocidade, almeja a expansão erotizada do mundo, principalmente a partir do infinitesimal da parataxe, gameta-escritural.

Considerando que a sintaxe paratática, por assemelhar-se à lógica do pensamento oriental (evidenciado, por exemplo, pelos ideogramas chineses), indica uma relativização da lógica analítico-discursiva típica do Ocidente, pode-se dizer que seu uso é bastante coerente com a proposta de abertura à alteridade e de questionamento de discursos hegemônicos que os livros de Maurício propõem.

Essa contemplação da alteridade inclui, também, a descentralização, o deslocamento dos pontos de vista dos sujeitos. O primeiro poema de Sexo/Sombra já lida com tal questão ao enunciar “Viver sempre / Dar / O mais íntimo / O que não me pertence”, pois o não pertencimento daquilo que nos é mais íntimo caracteriza, em boa medida, um jogo de perspectivas que reconhece a realidade relacional da vida, ideia reforçada pelo poema seguinte, que diz “Verter o diário    corpo dual / ao mais vivo vírus / (o não-estar-em-um / nem durante    nem depois dois)”.

Outra forma de abordagem da alteridade se dá por meio da indefinição enunciativa de certos poemas. Em alguns momentos, os escritos do livro nublam a cara da voz emissora, isto é, não fica claro quem está enunciando aquelas palavras. O uso de verbos no infinitivo (como exemplificam os poemas citados no parágrafo anterior) é um dos recursos de despersonalização explorados pelo autor. Em outros casos, no entanto, há explicitação do pronome “eu”, mas isso não é suficiente para saber se quem está falando é a voz da experiência-testemunho pessoal do autor, se é um outro ser de linguagem ou, ainda, se o que ocorre é uma alternância de perspectivas. O uso, em alguns poemas, do itálico e de rubricas entre parênteses também contribui para esse enevoamento da voz emissora.

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Ao emaranhar os pontos de vista por meio de uma sintaxe aberta e eletrizada, o livro, dentro do tema geral a que se propõe, acaba por esboçar um horizonte no qual torna-se viável conceber ideias tais como a da feminização do homem, da masculinização da mulher, da homossexualização do heterossexual e da heterossexualização do homossexual, isto é, questões não assimiladas por nenhum dos espectros políticos de maior ressonância no panorama atual. Numa visada contemporânea singular, a obra de Mauricio repudia tanto o conservadorismo que não conserva quanto os falsos discursos progressistas, buscando, em vez da segmentação identitária, um sincretismo de entendimento, de empatia, mas nada pusilânime, visto que, capaz de assumir os olhos da fera, solta o rugido da onça – iauaretê – e afasta a noite, a sombra.

 

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Sexo/Sombra, de Mauricio Salles Vasconcelos. Lisboa: Traveller, 2019.

                    Anderson Lucarezi (São Paulo, 1987) é escritor, professor e tradutor. Publicou Réquiem (Ed. Patuá, 2012), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011, e Constelário (Ed. Patuá, 2016). Como tradutor, dedica-se a trazer para o português as obras de poetas norte-americanos como Hart Crane, Jerome Rothenberg, John Gould Fletcher, entre outros. Faz, atualmente, mestrado em Letras Estrangeiras e Tradução na Universidade de São Paulo.

 

Nota/Referência Bibliográfica

[1] ÁVILA, Myriam. Dupla consciência e parataxe como conceitos críticos. Remate de Males, 28(2), 2010, p. 189-196. disponível em:  https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8636300

 

 

 

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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