
O texto de Tiago Cfer (veja-se postagem neste KOBO & TRANSISTOR) sobre Seriado, romance lançado em dezembro de 2021 pela Kotter, põe à mostra a rede de motivos que move a escrita literária, especialmente a narrativa, em tempos de serialização. Revela como o espaço romanesco hoje se renova, insuflado pelo poder de abarcamento pluritópico que as séries – em uma de suas fases áureas – imprimem e impactam no cotidiano de uma civilização techno.
Ao dispor da relação entre segmento e seguimento, o livro-seriado reelabora a teia multiforme de temas e tramas de uma época balizada pelo sentido neomilenar desde a eclosão do 11 de Setembro de 2001. Deixa assinalados a face de terror e o abalo dos propósitos tecnoglobais anunciados para uma era de transportes universais pelas webspheres guiados por fluxos amplificados de culturas e mutações sociais. Onde/quando a truculência econômica impera e homogeneiza os horizontes dos mundos.
O romance redesenha o universo da serialidade, situando o Brasil em voltagem mundializada. Erotiza, espacializa, refaz geografias da globalidade, dialogando a um só tempo com a mescla entre telenovela e seriado muito presente na atualidade, reinventando plots de Lost, Twilight Zone e Twin Peaks 2017.
Compreendida como arte da invenção de formas, arquitetura propositiva de enlaces renovadores entre espaço-tempo-personagem (um legado intensificado no século XX, ainda em vigor), a escrita do romance expõe sua força presentificadora ao recombinar referências as mais diferentes, envolvendo experiências, conceitos e contextos dessa nossa agônica hora.
SERIADO, romance de Mauricio Salles Vasconcelos. Editora Kotter.
