POR QUE VIDA DE ARTISTA É TÃO PRESENTE (?)

             Toda vida, toda forma de criação – como também de trabalho em qualquer esfera de atuação – requer politização. Não a partir de um sistema de pensamento, na simples adoção de uma ideologia ou causa identitária (justa que seja, jamais encerrada, nem demarcada em si). Subjetividade e socialidade se atualizam pela multiplicação de focos.

         Quando assistismos a Vida de artista (1972), filme realizado por Haroldo Marinho Barbosa, uma época de ativismos transformadores, ressonantes até agora, oferece possibilidades de desdobramentos, não de um modo causalista, nada linear.

Imprescindível se mostra estender a focagem variada de mutações entre existência e atuação coletiva com um sentido de tudo abranger para não permanecer tudo como está (principalmente agora, sob o taco do indefensável não-governo BolsoNada). Vida de artista quer dizer vida ativista. Por força dos menores motivos espraiados cotidianamente.

Potência vital – Arte e Autonomia multiplicam seus elos com senso de plurais partilhas para muitos cada vez mais diferentes. Arte e artista se reconfiguram depois da anunciada morte de certa arte e do fim de uma teleológica História. Vem mais forte com as gerações que surgem o desejo de arte nos fins de épocas vazados até agora. Não mais em alusão ao artífice-demiurgo, sujeito do conhecimento. Justamente, porque na arte o não-saber é produtivo, desfazendo centramentos previsíveis e andamentos garantidamente endereçáveis.

Tudo não se dá naturalmente. Exige intervenções politizadoras para amplitude e liberdade dos movimentos desencadeados nas mais diminutas e infindáveis coisas/causas que nos competem – da mera vizinhança, no lugar que for, à sintonia com o  planetarismo. Entre dispositivos technos e eventos em tempo real. Da lista do supermarket aos entramados afetivos-sexuais; do lazer indispensável aos vivos sem que se suprima a mentação amplificada de programas de vida (ao modo deleuzo-guattariano ainda em pauta-platô irrefutável).

Um corte como aquele vindo dos 60-70 não implica a simples incorporação de posturas, inviabilizadas que seriam estas num contexto totalmente diferenciado, merecedor de sintonias com o que se passou em mais de um motivo, não podendo ser expandido da mesma forma. O que permanece, de modo nada análogo (a contar dessas épocas decisivas, há 60 anos), mas contendo o múltiplo constitutivo de cada ser e de instâncias sempre presentificadas, deve ser refigurado à luz do jogo nunca cessado entre o permanente e o provisório –

Na linha de um tempo comunicante com muitos outros vetores e setores do que move existência e política cotidiana.

         Interessantemente, nas formas de arte mais mobilizantes rola um rol de questões/quesitos que transbordam. Revelam-se extensivos a momentos posteriores, como o de agora, em que os fios cruzados dos tempos e dos temas elaboram uma renovadora, embora não datada apenas de hoje, forma de ativar o presente politicamente. Nos termos de uma outra refiguração do que pode constituir ativismo, pelo múltiplo, pelo menor dos chamamentos existenciais, grupais. Para além das sedimentações identitárias, minoritárias, tornadas palavras-de-ordem (ainda que tais bases sejam indiscutíveis, mas tendem à sedimentação institucionalizada, ao sedentarismo das posições). Pois se tornaram imobilizadas em termos de ações mais decisivas. Destituíram-se do traço proliferante e heterogêneo que a arte e a política como arte amplificadamente dão.

         Urge um senso de grupamento, de pertença, assinalado a partir do que não se comporta como discurso único, atrelado a um exclusivo, específico eu; por outro lado, nada pendente de um desenho programático de comunidade, de sociabilidade.

         Ou melhor, tudo (sempre movente, não totalizador sinal) que a Vida de Artista como insígnia apresenta para fora dos padrões do artístico e do vivido. Vida como arte (dos pensadores gregos a Michel Foucault, das premissas difundidas pelos tempos, culminados num título, num filme exponencial como Vida de artista)

         Precisamente, ganha potência o que a arte aponta pelo fator de indeterminação e abertura tomadas nos trabalhos mais impressivos. Uma vez que hoje desponta nos horizontes da mundialidade tecnoeconomicista, o humano em causa (Valores de controle e consumo nada transformarão/uma virada radical nesse sentido se impõe mais e mais) –

Quando as bases do projeto globalizante refazem o totalitarismo até a regressão do revival czarista neolib encampado por Putin sobre vestígios do império comunista sem chance de conduzir a um producente poder mundial. A não ser através de vertentes dilatadas pela rede de implicações reais das novas lutas (no contrapolo das plugagens webmaquinais e do poder de opinião aí veiculado, acoplado a sistemas de pensamento em vigor, muitos deles engatados em princípios retroativos, descolados das mutações da História na contemporaneidade neomilenar) –

Em especial, quando no Brasil tem vigor uma baixa da arte – reduzido à baixaria mercadológica (mesmo a pretensa Alta Cultura é destituída de pesquisa, de trabalho sobre si e empenho conceitual atualizador, não-sistêmico), com suas gincanas e premiações para o arrivismo moldado ao sabor de discursos unidimensionais. Da Literatura à TV em todos os seus formatos e fluxos, reciclam-se, sem senso de historicidade, adequações temáticas, falsos gestos liberadores salvaguardados em nichos identificáveis (tudo menos politização em processo e variedade efetiva) –

         O humano é a grande causa, a contar do entendimento de que se encontra em causa – Porque está insulado em segmentações disciplinares e nominativas de uma representatividade abstratizante. De um lado a outro dos ativismos, constituídos como partidarismos insolúveis, reprodutores de um mesmo, monovalente discursar, em seus estratos específicos de atuação.

         A globalidade blindada pela realeconomiapolitik se depara com a matrix estética – nome antes temido, suscitando um anteparo à estetização do político que acabou, final e infelizmente, por definir e imobilizar os atuais discursantes – de uma concepção alterna de politização. É o que propõe Guattari e alguns da atualidade como Pál Pelbart, Manola Antonioli, o camaronês Mbembe e o português Sousa Dias, entre poucos outros, disseminam num entrelaçamento de intervenção e investigação, de amplificação das pautas para a ação política. Em sintonia com a abertura de focos/formas propiciada pelo desenho da vida como arte, princípio plural fundante, embasado na perquirição e invenção da vida em sua multiplicidade.

Desde a gênese de cada ser vivo incapaz de se ver rebaixado pelos comandos unilaterais de despotismo e por promessa segregadora de felicidade, se não for através das partilhas com muitos outros. Bem além de um único eu ou de um dialético parasitário socius desprovido de uma transitiva troca heterogênea, heterodoxa, híbrida por natureza.

Por obra de tantas motivações e derivações, um filme invisível como Vida de Artista não deixa de gerar diálogo, na outra ponta do tempo, se tornando cada vez maior, intensamente presente, com o rolar mecanicista dos streamings e as segmentações entre vida e arte hoje.

MSV

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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