Não apenas é rígida – como, recentemente, se pronunciou a cineasta Bette Gordon na entrevista “Les contradictions du désir”, a respeito do atual feminismo –, sem ligar-se às suas contradições no rolar das épocas, como também a realidade minoritária tornou-se o mainstream nesses últimos anos. Deixa de atuar em suas expansões e correlações capazes de virar decisivamente as opressões e violações sofridas, intervindo no jogo político-econômico, no jugo monoliticamente desfiado ad nauseam. Pois só apresenta uma via de atuação. Comprometida essa com a Macrológica dominante em busca de inserção – representividade – empoderamento – protagonismo, todo um circuito nominativo e institucionalizado já posto, já pronto, tão centralizador quanto segmentador.
Assim, Bette Gordon, figura importante do feminismo fílmico em avant desde os anos 1980, expõe – veja-se página digital do Cahiers du cinema https://www.cahiersducinema.com/actualites/les-contradictions-du-desir-entretien-avec-bette-gordon/ – nessa nossa hora os limites de uma frente como a que se move por motivos-mulheres e tod@s suas nomenclaturas de gêner@s –

Nessa recente entrevista, a diretora do estonteante Variety (1983), roteirizado pela não-menos estontante Kathy Acker (uma das seminais referências de escrita e postura femininas há mais de 40 anos), considera hoje, como artista/atuante pioneira do feminino na vida e na arte, o dado de não se lidar com a multiplicação de posturas para fora de um imobilismo advindo de princípios estanques. Em desdobramento ao depoimento de Bette G., observável se mostra uma pauta preformada, sem o concurso de referenciais históricos e teóricos ampliados.
Importante é assinalar que, a partir de um conjunto heteroclítico de fatores atuais (por obra mesmo das mutações e conquistas das lutas minoritárias há décadas) o despontar da feminização para além da simples adoção de uma causa feminista, assim como a disseminação da negritude não pode se abster de sua realidade essencial como força de todo-humano, do mesmo modo os vetores cosmogônicos de culturas ancestrais (em todas as latitudes e povoações fundantes da atual humanidade), mobilizam a fomentação de um corpus integral e integrado composto pela diversificação de atuantes/agentes. Tudo o que está barrado pela realeconomics da mundialização, replicada até o desgaste ambiental, vivencial, da própria noção de riqueza mais do que nunca produtora de pobreza em escala planetária. O que se processa simultaneamente às segmentações do campo intelectual em nichos temáticos, disciplinares, desprovidos de interrelações produtoras de enfoques críticos atuantes, efetivamente transformadores por obra da abrangência, de uma propagada implicação mútua.
Limitador se revela o mais que previsto encampamento do posto de caça-machismo-homofobia-racismo sob a lógica da denúncia, da tomada de posição e poder pelo que há de judicativo, processual, policial. Fundamental, certamente, se mostra a garantia legal de direitos, mas a politização não para por aí. Sob risco de se tornar o único foco do ativismo, a promover uma escavação das origens e de vestígios opressores a todo custo, numa condenação circular sem fim. Em detrimento de estratégias abarcadoras, interferentes, por obra das pujanças negras sexuais culturais, decisivas, cada vez mais difundidas, muito além dos discursos da carência, para todos os humanos.

A erotização, disseminadora de uma política inscrita na corporalidade, extensiva a todos os modos diferenciais de atuar no presente, compõe o trajeto da já citada Kathy Acker (1947-1997). A escrita-tatuagem marca seu percurso nas artes, na performance, no ativismo. Não mais delimita os repertórios contidos no ato de dar corpo à sua sexualidade e à diversidade de posicionamentos que transitam entre literatura – política- feminilidade – história (s) da cultura. Tais dimensionamentos se entrelaçam e conduzem o ofício de escrever a um senso transdisciplinarizado de pesquisa inseparável de sua potência de intervenção no presente.
Toda razão tem Marylin Manners ao ler seus livros na direção de uma erótica imprescindível para o feminino existir como espraiamento indeterminante dos sexos. Através de um nítido corte com uma agenda de procedimentos demarcados, intransitivos. Muito ao contrário, a exuberância de referências as mais diferentes e sofisticadas, entramando povos e culturas em contraste e correspondência insuspeitada, grafismos de variadas formas de arte e inscrições na própria pele, acaba por dar visão e materialidade a um identitarismo não mais atrelado à especificidade de uma questão encerrada num âmbito culturalizado de estudo e partidarismo. Da forma como o Brasil do Bolsão do Bolso Mínimo se vê enclausurado sem que haja uma ação efetiva das frentes de luta numa conjunção amplificada de propostas, com potencial para demover o Horror do Horror (ainda com chance de subsistir após o fim do mandato do monstro da Covid-19 no País por obra de um fisiologismo crônico prestes a se rearticular em novos contextos de governança).
Intriga o dado de que a dimensão identitária parece se efetivar tão somente ao se tornar a cultura oficial, aplainadora de confrontos e fusões as mais misturadas e contagiantes, atenuadora do vetor mais incisivo da política agora. Uma vez que seus atos e discursos não saem dos mesmos pontos (reiteradas premissas e destinações), num loop vertiginoso de evidências capturadas pela lógica macroeconômica do tecnocapital em vigor ao situá-las em segmentos de representividade e direito de voz/imagem sob a sedimentação terminológica de demandas meramente insertivas nos espaços dos poderes hegemônicos. Especialmente, quando se visibilizam e homogeneízam as noções de subjetividade, corpo e ativismo no momento em que ocupam de modo redundante, autorreplicativo, um lugar central de fala.
MSV
