
Em texto recentemente publicado neste blog, Mauricio Salles Vasconcelos opera um belo corte sobre o filme Vida de Artista, de Haroldo Marinho Barbosa.
Baseado em romance de Oswald de Andrade, Marco zero: a revolução melancólica, o filme transpõe a cartografia romanesca oswaldiana sobre a “revolução de 1932” para o contexto de um Brasil pós-68.

(Nota: Haroldo Marinho editou e organizou um livro em contraposição à censura de La chinoise por ditadores militares, no início de 1968, aqui no Brasil. Intitulado Jean-Luc Godard, o livro – que se antecipa ao lançamento do filme, retido e liberado apenas no final de março de 1968 – inaugura a Coleção Arte do Espetáculo da editora Record, tornando-se uma forte referência sobre as aspirações – de matriz e cariz godardianas – de artistas ligados ao Cinema Novo.)
Hoje, quase 60 anos depois, nos vemos enredados em um contexto de asfixia global no qual impera a ditadura da Comunicação do Horror. Entre imagens e sons de todas as ordens e realidades, transmitidos e replicados em fluxo incessante de informações que penetram e definem nossas rotinas, o que vige são discursos e investimentos imobilizadores, procedentes de marcas e vestígios da violência os mais arcaicos. Tendências e pulsões massivas de sexualidade reprimida transformam a cultura em um mercado de misérias, aplainada por modelos de gestão neonecroliberal radicados na precarização e empobrecimento acelerados da vida coletiva – sempre em benefício de velhos interesses oligárquicos nada humanitários, mesmo que seus apelos publicitários façam parecer o contrário.

O novo definitivamente não está no mais atual. Precisa ser construído por inteligências sensíveis à infinidade de acontecimentos históricos que potencialmente contribuem para uma desopressão do presente. Pois o passado reduzido e fixado em seus aspectos traumáticos não satisfaz o desejo. Ao contrário, limita-o a repetições e compulsões as mais rasteiras.
São tantos os atos e acontecimentos da história que permanecem mais inovadores do que o que se faz hoje, em termos de arte e cultura, sob a chancela – tornada mainstream – do “contemporâneo”… Talvez a questão esteja mais em “como” ativá-los no combate da vida diária. Algo que o presente texto de MSV, sob os signos do horror e da revolução, nos mostra e faz em seu modo de reescrever e transmutar VIDA DE ARTISTA em VIDA ATIVISTA.



Tiago Cfer
