El látigo es un órgano del esfíncter
(Osvaldo Lamborghini)
A língua criada por Osvaldo Lamborghini não se equipara a nenhuma outra literatura ou crítica literária a ela associadas. Espécie de encarnação mutante da revolta e clandestinidade próprias da literatura latino-americana entre os anos 1960-80, pode-se dizer que sua obra desempenhou uma extravagante influência sobre a literatura dita marginal, subterrânea, propagada nos porões do boom latino-americano até a atualidade. Uma influência enigmática, espectral, pelo menos até 2003 quando os quatro volumes editados por César Aira começam a ser publicados (Novelas e cuentos I e II neste ano; Poemas 1969-1985, em 2004; e Tadeys,no ano seguinte).

Em El sexo que habla[1], Antonio Jiménez Morato observa que quando Roberto Bolaño proferiu sua fala na Fiesta de Literatura Amplificada Kosmópolis, em dezembro de 2002 no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, tomando a literatura de Lamborghini como uma das três correntes elementares para se compreender a literatura argentina depois de Borges, seria natural que a imagem apresentada do escritor – tornado (contra) mito maldito – gerasse o mal-estar que pode ter gerado.
Neste texto, intitulado “Derivas de la pesada”, Bolaño considera: “a duras penas posso lê-lo, não porque me pareça ruim, mas porque me dá medo, sobretudo o romance Tadeys, um romance insuportável que leio (duas ou três páginas, nem uma a mais) apenas quando me sinto valente”.
Dessa ambígua defesa (pânica) da literatura de Lamborghini, outras duas considerações de RB são expressivas:
“De poucos livros posso dizer que cheiram a sangue, vísceras abertas, licores corporais, atos sem perdão.”
“O problema é que Lamborghini se equivocou quanto à profissão. Melhor teria sido trabalhar como matador de aluguel, ou traficante, coveiro, ofícios menos complicados que o de tentar destruir a literatura. A literatura é uma máquina blindada. Não se preocupa com os escritores. Às vezes nem sequer se dá conta de que eles estão vivos.”

Faço essa introdução para falar de O menino proletário: 3 narrativas, livro recém-publicado pela editora Córrego. Com tradução de Mauricio Salles Vasconcelos e Pedro Magalia, o conjunto de narrativas de Osvaldo Lamborghini vem compor um projeto editorial voltado para ficções inéditas, não traduzidas, pouco lidas, mais antigas e ainda por obterem recepção. Trata-se do sexto título lançado pela Coleção Vírus, uma coleção cuja peça-matriz foi um livro jamais lido de um autor nunca comentado desde seu lançamento aqui no Brasil (2018): The Fluke, de Jacques Stern – traduzido O Asaro por Mauricio S. Vasconcelos –, livro-chave para a escrita cut-up de William Burroughs.

Feito um breve panorama da prosa lamborghiniana, O menino proletário: 3 narrativas fornece exemplos suficientes para que sejamos arrebatados pelo léxico cruel do autor: “O menino proletário”, publicado em 1973, “A causa justa”, de 1983, e “Ivan Cloaca (Romance intimista)”, um projeto inacabado. Além de posfácio escrito por Damián Tabarovski.
A crueldade talvez seja o coração da língua criada por Lamborghini. Um músculo a bombar sangue para as outras partes de seu corpo, mantendo, assim, as funções fisiológicas da língua em plena atividade. A saber: sexo, violência e política. Pois, para que uma língua seja engendrada, faz-se necessária a elaboração de um sistema capaz de combinar suas funções de modo a garantir sua vitalidade. Neste caso, como tais funções – sexo, violência, política – são elementos pré-existentes, e estão presentes de modo geral na vida humana, determinando inclusive suas conjunturas, pode-se dizer que uma língua é criada quando fornece nova realidade ou funcionalidade para essas qualidades. Basicamente, a língua de Lamborghini consiste nisso, em dar uma nova realidade para o sexo, a violência e a política. E isso acontece por meio de uma crueldade, digamos, sanguinária.

Essas funções, sem dúvida, aparecem imbricadas e são, na maioria das vezes, indiscerníveis. Um ato político está carregado de sexualidade e violência, assim como o sexo também é político e violento. Como podemos apreender de Gombrowicz, erotismo e pornografia geralmente são mais problemáticos em situações nas quais o sexo não se explicita. A violência tende a ser mais danosa quando menos se suspeita, pois os motivos das ações e pulsões humanas, em todas as suas esferas e direções, implicam desejo recalcado. Fantasia de repetir uma experiência ao infinito interditada. Portanto, se o que confere reconhecimento para essas ações é a eficácia com que reprimirem sua sexualidade, encobrindo-a de quanto mais artifícios e trejeitos culturais melhor, a marca da literatura de Lamb consiste em se opor aos ritos de reconhecimento sociais, atacando com golpes precisos e diretos a variedade de suas dissimulações. Ele não negocia com os simulacros da vida. Desce porrada, frase após frase.
Assim ocorre em “O menino proletário”, onde o advento da sexualidade coincide com uma violência impiedosa. Trata-se de uma história escolar, na qual três meninos escorraçam o garoto Stroppani, chamado por eles “Estropiado!”, até a morte. No entanto, a ação que Gustavo, Esteban e o narrador desenvolvem sistematicamente ao longo de dez pequenas páginas de uma narrativa que expõe, com a agressividade de uma longa sequência de golpes, imagens da multifacetada perversidade infanto-juvenil, deflagra-se em uma construção de linguagem capaz de revelar a violência em sua forma mais revolta: coberta dos próprios excrementos e resíduos. Mais que crua e nua, a violência nas narrativas de Lamborghini consiste em vestir o relato de suas vísceras brutalmente desentranhadas pela escrita. Faz capa parangolé com os próprios órgãos da narrativa, extraídos, agredidos e customizados na plasticidade de uma prosa furiosa.

“Porque a vingança chama o gozo e o gozo a vingança mas não em qualquer vagina e é preferível que em nenhuma. Com meu lenço de cambraia na mão Gustavo limpou sua ponta agressiva e assim o devolveu a mim vermelho sangue e marrom. Minha língua o limpou num segundo, até devolver ao pano a face augusta, o retrato com um colar de pérolas no pescoço, oh. Com um colar no pescoço. Justo aí.”
Ao ritmo de uma fúria crescente, lancinante, o leitor atravessa a narrativa mais longa deste livro, “A causa justa”. Partindo da história terminal de Luis Antonio Sullo, linopitista erudito muito conhecido pela famigerada frase, “nunca fazia a leitura, porém seus sublinhados eram perfeitos”, pelas “Idiotices Sullo” – “sublinhar muito, ler pouco, como se entender fosse um suicídio” –, a narrativa passa para a história de Dão, personagem Bundão ou Cuzão. Entre o grotesco e o burlesco, sua trajetória coincidirá com a de psicopatas ridicularizados e humilhados ao longo da vida. Losers, palhaços matadores, kuringas.
A história aparentemente banal de Dão e seus colegas de trabalho, funcionários de uma empresa multinacional, instala o leitor em uma trama impremeditada que se adensa, a cada passo, de suspense e tensão. Os antigos choques e cismas entre Ocidente e Oriente resultam nessa narrativa em Acidente Geográfico: o comportamento-chiste como algo típico da “Grande Planície das Piadas”, Buenos Aires.
De uma piada besta a narrativa ganha um destino jocoso e irascível. O humor lamborghiniano provoca muitas gargalhadas no leitor. Mas são gargalhadas nervosas, de incômodo.

Um japonês, após jogo rotineiro de futebol entre funcionários da empresa “Egometrix”, entra em cena no vestiário para fazer justiça à “palavra cumprida”, à “causa justa”, contra a “palavra quebrada”, a personalidade-piada do portenho comum. Sua obstinação e obediência milenares destroçam a fragilidade moral do homem ocidental. Não sobra nada. A política, levada ao extremo em “A causa justa”, culmina com a completa destruição das morais europeias e asiáticas, em um jogo sadomasoquista entre idiotas que pretendem dominar o tempo da vida. Complicado demais, é o enunciado replicado ao longo da narrativa.

“Ivan Cloaca (romance intimista)” exacerba a experiência sexual. Em uma terra fictícia, “Necó-Chea”, lugar marcado pela fúria do oceano Atlântico e tempestades, o amante de Ivan Cloaca o observa na cama enquanto dorme. “Quando esse filho da puta vai me deixar “esbanjar” a ponto de liberar a grana toda pra me realizar como mulher hi-hi e “me sentir eu mesma”… Ele não tá nem aí, três caralhos que sejam, se é cu ou é buceta ou sabe lá o que: por alguma razão, desde criança o chamam de Ivan Cloaca… Foi o que essa puta sarnenta contou para me prevenir, a viúva Amalia Monié Vermontoff-Sanz. Ela ficou louca com seu olhar parado nas ondas do mar enquanto vez ou outra ele acomodava por baixo da sunga a mão direita, quando não uma espiada rasante em suas tetas, sempre sério, ao mesmo tempo deixava que roçasse em seus bíceps na aula de natação. Pobre mulher doente de merda. O marido morreu de nojo. Foi abandonada pelos filhos. O degenerado viveu com ela um ano inteiro, tirou-lhe as duas casas em Rosário e o apartamento de Marbella. Em troca de… tremer as bochechas nessa foda de velha… fez com que ela assinasse cheques sem fundo…”
Como diz Damián Tabarovski no posfácio de O menino proletário: “a frase é para Lamborghini o campo de batalha onde se desenvolve uma guerra contra o senso comum, contra a sintaxe cristalizada, contra a versão oficial da língua”. Não se trata mais daquela “dissociação das causas e conjugação dos efeitos” que Deleuze relaciona em Lógica do sentido à “proliferação infinita das entidades verbais”, ao paradoxo. Não. O jogo aqui não é mais aquele de uma frase que puxa outra frase ao infinito. Trata-se de construção de uma sequencialidade frasal implicada em derrubar a frase anterior e assim por diante. De escrita em sua ação sexual máxima. De consciência do escritor de que sua atividade consiste em recriar permanentemente viúvas sucessoras. Do ato de escrever em sua contundência impactante, punch. Nocautear a própria sombra logo que ela insinua se levantar na próxima frase. Escrita como registro de seus próprios rastros e restos apagados. Presentificação ativa. O agora vivido em sua máxima potência, escrevendo/atacando os parasitas que nele pretendem se acoplar como antecedentes necessários.

Embora a literatura de Lamborghini seja incomparável, me sinto tentado a afirmar que a prosa de Samuel Rawet, desde Contos do imigrante, de 1956, até Que os mortos enterrem seus mortos, de 1981, passando pelos ensaios da década de 70 como Homossexualismo: sexualidade e valor e “Devaneios de um solitário aprendiz da ironia”, encampa uma política literária que se aproxima à do autor de O menino proletário. Dificilmente se encontra no Brasil – talvez João Gilberto Noll, Sérgio Sant’Anna – autor com tamanha fúria e carga erótica como Samuel Rawet – embora, volto a dizer, Lamborghini seja inequiparável, irretratável. Sua literatura também alcança aquela dimensão política da frase que Damián Tabarovski relaciona, em Fantasma de la vanguardia, à “narração que suspeita da narração. Não uma narração que não pode narrar, mas que narra essa impossibilidade, esse mal-entendido, esse paradoxo, esse fantasma”.

Tiago Cfer
[1] Publicado na ocasião da exposição Teatro proletario de câmara – mostra sobre a produção grafoplástica de Lamborghini durante sua estada em Barcelona (1982-1985) –, este livro contém ensaios de César Aira, Antonio Jiménez Morato, Alan Pauls, Beatriz (hoje Paul) Preciado e Valentín Roma.
