MUJERES – FEMINIZAÇÃO TOTAL

Bem além da fatalidade subjacente à menção a mulheres em espanhol, sob um rastro de tango e da ambiguidade própria de um film noir, o feminino desponta cada vez mais como amplidão de existência e experiência.

         Em vez de um reciclado feminismo – tantas vezes datado e paralisadamente retroativo em sua redundância monológica –, a feminização do mundo é que vem ganhando a cena, o senso da história agora. Presentifica-se a tese desenrolada por Lacan, em desdobramentos argutos feitos por Avital Ronell e refigurada pelo psicanalista Ernesto Sinatra como inerente às adicções de consumo, tecnologia e ao fim-da-família: o mundo feminizado sob as ordens de um universo de valores tomado por um sempre mais do desejo – um aditivo contextualizado no espaço tecnocapital de hoje. O que vai contrariar a interdição da dominante patriarcal em face do irrompimento erótico, gozoso, apontando para outro paradigma. Não obstante, a presença remanescente do masculino como voz soberana, aos estertores de tal prevalência, acaba por se escancarar flagrantemente (como se vê no Brasil boçalizado pela blindagem necrofílica de um ameaçado “Chefe de Estado” diante das novas eclosões de sexualidade).

         Precisamente em tal conjuntura, um filme recente como Nous, de Alice Diop, cineasta francesa de ascendência africana, deixa vivas tais viradas de concepção sobre o ser mulher, tendo a negritude como coordenada de vida e arte. 

O identitário irrompe como um coletivo – a contar do título desse magnífico Nous. Não se abstém de tal paradoxo para mover uma atuação não adestrada por pautas limitadoras, incapazes de mobilizar a política na atualidade para além da compartimentação de falas e ideários, num concerto bem composto com a atual governança pelas delimitações ativistas.

         A cineasta, marcadamente apresentada no feminino, intervém pela recolha tão intimista quanto envolvida por sublevações de outras raças e culturas. Seu documentário heterodoxo tem como crivo o baralhamento de perspectivas, passando de um ponto-de-vista a outro (ao ponto de indeterminar a noção centralizadora de “ponto-de-vista”). Alterna falantes, interlocutores de uma realidade territorial (o espaço francês) vibrante por seus extracampos, offs, superposições enunciativas.

         Total, potente, o feminino – assim como a negritude é ponto crucial do devir humano em suas mutações societais e econômicas – pontua Nous com uma força de mescla rara de ver. Mostra-se como produção imprescindível para retirar países como o Brasil de sua visão imperial de mundo em detrimento do levante feminizante, negro em sua hibridez e disseminação essenciais. Algo liberto dos grilhões do passado, de um colonialismo nada producente ainda operado por “pensadores da nacionalidade”, incapazes de enfrentar a complexidade sóciopolítica do presente, adversa à dialética do senhor-escravo, muito mais movida pelos pêndulos paradoxais do desejo e do poder. Tudo o que incita à autonomia dos modelos patriarcais e senhoriais de sempre. O coletivo é um excesso que franqueia acesso a todos os vivos num outro momento da história, feito de urgência e intercambiantes diálogos entre as mais heterogêneas frentes de luta/formas de vida.

MSV

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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