LÁGRIMAS NO MASCULINO

A imponente versão para o masculino de AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT – clássico contemporâneo de Fassbinder refeito por Ozon nesse 2022 – revela a importância e a força de certas recriações. Sem querer propor nenhum paralelo entre Peter e Petra (inevitavelmente entre Ozon e Fassbinder), nem pôr em debate a indiscutível singularidade do diretor alemão, tendo em PETRA VON KANT um acabamento fílmico impactante, em sua luxúria expressionista reforçada pela pregnância da esquálida Margit Carstensen no papel-título, impressiona o remake de Ozon a ponto de ser apreendido como um trabalho original. Ele já havia filmado Gotas d’água em pedras escaldantes, uma outra peça de Fassbinder não vertida antes para o cinema, realizando talvez seu trabalho mais interessante antes de PETER VON KANT.

Parte da crítica de cinema já se manifestou, numa comparação desfavorável ao cineasta francês, esquecendo-se que não só de estilo, técnica, autoria em termos puramente cinematográficos vive a potência inventiva da arte. Ainda mais quando revisita uma obra passível de se assimilar como ópera inigualável conduzida por The Platters, numa ambiência à Les bonnes, de Genet, com grande senso ritualístico na composição de uma esmerada teatralidade. Estremece, eletriza no filme de 2022, o senso de história, sexualidade, cultura – de história cultural, enfim – a permear uma retomada impossível de se ler apenas na clave do cinema. Grande problema na crítica do audiovisual está em se valer apenas de uma abordagem específica, desprovida de um campo extenso de signos onde são vertidas as lágrimas masculinas de Petra Von Kant quase 50 anos depois.

Onde/quando Fassbinder

Entre Douglas Sirk e Bertolt Brecht, tinha como busca – definidora, aliás, de toda sua filmografia – o foco melodramático à altura da crítica do mundo capitalista, muitas vezes sem alcançar a deriva afectual de Petra por conta da secura própria do Organon Teatral brechtiano, Peter Von Kant, concebido por um diretor sem o lastro estilístico e conceitual de RWF, acaba por contagiar as sexualidades do presente, indo a um ponto de internalização da vida capital. Justo ali onde a liberdade dos afetos na atualidade cruza com um crescente propósito administrativo da vida como projeto, como processo corporativado, alinhado aos valores simbólicos regidos por uma existência inseparável da Economia.

Há agora, bem aqui em tempos de streaming cinema, um chamado direto, destituído talvez da elegância conceptiva impressa pelo inimitável corte sirk-brechtiano de Fassbinder nos anos 1970. Peter Von Kant é um filmmaker. Traz semelhanças no corpo e no rosto com o diretor do Von Kant original. Não escapa à homenagem quanto mais ressitua o projeto Petra/Peter num patamar de livre refeitura, mesmo seguindo a trilha dramatúrgica/roteirística de base. A beleza (sim, nada a temer com a palavra quando produzida em contexto extremado de vigor e violência) da realização de Ozon está em imergir no universo fassbinderiano quanto mais o desloca para os pontos agudos da passagem das épocas. Precisamente, está aí o mistério desvelado da “ópera seca” (tomando aqui licença para contextualizar o termo de Gerald Thomas para a cena alemã, de onde nosso teatrólogo absorveu tal concepção). No desgarramento do traço autoral, na incorporação das mudanças de sexo, cultura, história, cinema, PETRA VON KANT se reacende e apresenta seus intrincamentos imprescindíveis à luz de corpos do presente numa amplitude baralhadora de gêneros, recycles de bens e símbolos. Ao ponto mais agudo da amorosidade que trafega para a pura imagem quando mais instalada na corporalidade integral de cada ser inevitavelmente só. (Daí, a beleza do solo irrompido do já feito como se as lágrimas do feminino atingissem seu mais lancinante, abrangente sentido, quando um homem corpulento, dotado de poder e influência, por inteiro chora). M S V

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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