ROMANCE, SEMINÁRIO – ROTAS SEMINAIS

O palíndromo de Osman Lins em Avalovara é nosso guia. Fomenta pensar o romance como gênero literário produtor de teoria e de escrita com toda hibridez experimental da contemporaneidade. Especialmente, quando está em pauta o Seminário ROMANCE A CAMINHO – Mutações de um gênero literário no presente – 18 a 21 de julho de 2022 – de 16 às 19 horas. Um evento realizado pelos Laboratórios de Criação – Escrita de Literatura e Teoria (Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa), transmitido pelo canal USPFFLCH Youtube. Uma vez que são norteadas as proposições sobre a narrativa num andamento indissociavelmente conduzido pela investigação de teorias e pelo foco no que há de novo, no que é só de agora.

ROTA

ATOR

(Assim cada praticante de escrita se mostra como atuante de uma cena em que a linguagem na sua sucessão lança questões – charadas internas – chamados intimamente ligados àquel@s em criação, mas também insuflada pelo compasso de uma descoberta puramente exterior, out of joint and sight

Tal como o palíndromo operado por Osman em seu romance de 1973 aponta)

O LAVRADOR DILIGENTE CONHECE A ROTA DO ARADO

(Numa tradução do enunciado possível de ser lido do início-fim-início

SATOR AREPU TENET OPERA ROTAS)

Operar rotas no gesto de cada ato de escrita – Incidências entre quem produz, por exemplo, uma narrativa extensa e o material a despontar em sua formulação textual nascente sempre.

Planos se entramam a contar da pulsão daquel@ em trabalho e do universo lingual de um dado gênero literário – com sua história em aberto desdobramento e memória percutida ao acaso de uma configuração renovada do escrever –

Instante e legado. Impulso e traçado

O Arado se revela enquanto campo/plano/palco material de produção literária – Faz com que o lavrador passe a conhecer o que se dá entre suas mãos e o solo, apenas quando se põe em prática.

Irrompe umn jogo anagramático, associativo, combinatório, palindrômico, em tal fazer de sequências/sentenças à volta de inumeráveis multiplicadores motivos – psicossociais, éticos, advindos da espacialidade e dos lampejos de muitos tempos incididos a cada segundo de criação. De um romance,

Cujo entramado (passível de tanto temor para quem pensa numa arquitetura previa e calculadamente elaborada) advém não de formulações consecutivo-causais – De um traçado, sim, de reciprocidades produtoras de planos que passam a ser as dimensões do entendido, até então, como plot, enovelamento, trama –

ROMANCE A CAMINHO

Cada autor surgente (por mais que tenha produzido, caso não queira se sedimentar na ideia de obra, de personalista assinatura, no imobilismo culturalizante do já feito) se põe em trabalho da dinâmica propulsora entre  corpos que escrevem e as linguagens deflagradas por cada ato em sucessão –

A questão não está dada. Surge como palíndromo. Faz mover a sonda, sequência a sequência configurada no próximo momento de vidalinguagem – romança de uma história de corpos, de corpos na história. Entre o transcurso humano e a fábula intempestiva de um irrepetível instante disposto pelo dínamo composto por personae/temporalidades/espaços –

   Vem daí, num extremado exemplo, um projeto como o de Kathy Acker. A vitalização do romance hoje passa por tudo que não é modelar, eminentemente caótico, erotizado ao grau máximo. Sem que seja negada a mediação de mundos e formas de vida. Uma espécie de voragem pelo que timbra a corporalidade única de quem faz literatura passa a imprimir a rota, a lavra, o livro renovador. Depois de tantos caminhos e entramados romanescos.

Kathy Acker se apresenta como uma bela matriz de que a absorção empenhada na história da literatura não se aparta do dado apropriador. Algo próximo de uma excrição – para se utilizar uma noção operante no filósofo e analista da escrita como Jean-Luc Nancy. A dispersão informacional, a sobreposição de dados, as vertentes mais inesperadas de saber, querer e poder são inerentes ao gesto de escrever (numa dimensão radicada por genealogistas da arte e do pensamento, como Nietzsche e Foucault, atualmente trabalhados pela portuguesa Silvina Rodrigues Lopes e pela norte-americana Avital Ronell).

A fábula de uma vida – não aplainada por modelações do tipo autoficção/bioescrita – requer o que excede a lógica cumulativa do novelo romanesco. Ao avesso do que na atualidade pratica uma literatura retrógrada, imperial, movida por boas causas e ínfimas mutações de subjetivação e linguagem.

A existência do romance – depois de tantas mortes antecipadas e efetivadas, novamente proferidas – se dispõe como o que está a caminho. Por força de sua abrangência e convocação máxima ao não-saber nunca se amolda às leis da cultura, das identidades institucionalizadas, enfim, ao sistema-mundo dos fóruns corporativos, dos prêmios sedimentadores do mesmo tipo de escrita e escritor.

Ainda é a promessa de felicidade, na contraefetuação da História e da própria ideia de romance como progressão lógica sustentada pela fantasia da mera autoria. Tudo o que fomenta o romance

A CAMINHO

Mauricio Salles Vasconcelos

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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