LIVRO TELEFONE RUA

Assim se intitula a Ópera Estenofônica, musicada por Marcus Siqueira e concebida por mim, Mauricio Salles Vasconcelos, trazendo poemas, proferições, vocalises, cantos, extraídos de The Telephone Book. O livro filosófico de Avital Ronell, um verdadeiro clássico da contemporaneidade, incursiona por uma linha de análise muito afinada com o universo teórico de Friedrich Kittler, semionalista das mídias, dos objetos técnicos. Acrescenta uma via propositiva legada por Derrida, especialmente em estudos como Ulysse gramophone, centrado em Joyce,e Glass, uma verdadeira instalação de decupagem exegética e montagem hipertextual em torno de Jean Genet. Avital aborda literatura, tecnologia, ciência e Humanidades num vórtice multidisciplinar raro, realizando uma espécie de psicanalização da cultura, embasada num repertório diversificado, sempre surpreendente.

Composta em 2017, com as participações especiais de Amélia Loureiro e Natália Barros, que cantam, modulam variações de Sprechgesang, a Ópera do Livro do Telefone acaba de ser publicada em livro. Traz todo material de leitura à volta da obra de Avital Ronell, como também os poemas integrantes do projeto, mais: uma leitura feita por mim acerca do design tecnoanalítico da produção da pensadora norte-americana e um texto inédito em português da filósofa (extraído de Finitude’s Score – Essays for the End of the Millennium).

Segue um extrato do referido ensaio de Ronell, componente das concepções da Ópera criada entre sonoridade e digitação/estenografia escritural. Através de QR Code, contido no livro, será possível o acesso à música de Livro Telefone Rua, que se encontra à venda através do site da Editora Lumme https://lummeeditor.com/catalogo/livro-telefone-rua/

      CENTRAL TELEFÔNICA DEAMBULANTE (Extrato)

                                          Avital Ronell

Talvez eu devesse ter falado com mais clareza. O telefone, enquanto linguagem, comprometido com transferência e tradução, deve ser conectado em algum lugar entre a ciência, a poesia e o pensamento. Na medida em que pertence, em seu registro mais simples, à ordem do mecânico e do técnico, já está do lado da morte. No entanto, o telefone não pode ser simplesmente considerado uma “máquina” no sentido clássico, pois às vezes também é “vivo”. Ou pelo menos a “vida” às vezes se junta a ele e tem a sua parte. As vozes que pulsam dentro de sua estranha localidade surgem periodicamente, indicando uma presença viva, mas sempre moduladas em algo como um tempo de ausência. O telefone flerta com a oposição vida/morte por meio de um estratagema através do qual separa receptor e transmissor, ou faz a conexão infinita que atravessa a orla da finitude. Nietzsche, como Kafka, Duras, você e eu, uma vez ao menos pensamos em um telefone para o além, uma espécie de escalada transcendental.

Certos textos operam de acordo com uma lógica telefônica; algumas pessoas estão coladas no telefone. Propensas a uma assimilação biônica, mostram disposição para incorporar o chip telefônico e, assim, abrir um horizonte ante o qual se mensura o futuro das partes do próprio corpo. Aposto que vamos ficar com a orelha por enquanto, e sua extensão rumo ao umbilical tecnológico.

  Como a transferência, o telefone e outras tecnologias nos são dados como efígie e relação com a ausência. No fundo, afirmam uma não-presença originária e a alteridade do eu para consigo mesmo. O Outro te liga como se chamasse para a existência. Se toda referência a si ocorre por meio de tal desvio através de um Outro, o eu, para ser ele mesmo, é primeiro atravessado, depositado no Outro e reapropriado para si mesmo por alguma impureza fundamental. O telefone ensina que o Eu foi atingido pelo Outro. Se o eu despertar, será novamente golpeado; chame de violência, perda de propriedade ou da presença de si, mas entenda que na verdade é a perda do que nunca aconteceu, de uma presença-de-si que nunca foi dada, mas apenas sonhada, sempre dividida, reincidente, incapaz de aparecer em si, por si mesma, exceto em seu próprio desaparecimento. ……………………………………………………………………………………………………………………………..

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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