QUATRO-OLHOS ENFRENTAM 1000 DO DR. MABUSE

Mauricio Salles Vasconcelos

Quero escrever este texto sobre Quatro-Olhos, romance de Renato Pompeu (edição original de 1976 – São Paulo: Alfa-Omega), com o que tenho na cabeça – nos olhos da leitura –, apartando-me de qualquer recorrência ao livro (sem citações, checagens, revivências do que está lá editado) no rolar do que exponho agora. Porque me encontro ainda impactado depois de quase 50 anos com uma narrativa das mais impressivas vindas à luz da letra não só no nosso país.

Depois de tanto tempo. Quatro-Olhos crescem quanto mais Pompeu vai se apagando da memória dos que o celebraram em seu livro de estreia. Incrivelmente, os mais inventivos autores, artistas nacionais, sofrem tal deletação. Passam por um revoltante apagamento quanto mais são validados como doxa comunicativa o pocket bioescrito, acrescido de pratos-feitos literários, do romanção imperial de resgate do já conhecido com rota previsível, consumido ao sabor facilmente palatável dos nichos temáticos enfileirados pela lei do mercado e do aplainamento intelectual. Enquanto sobe pelo ar um abominável toque de “sofrência” e retrocesso estético com o falso som do sertão, totalmente industrializado pelos arrivistas agrogirls and boys do Negócio Discográfico. Barragem de horizontes, vírus reativado, recombinado no ar poluído do País Paisagem.

De forma provocante e surpreendente, o romance de R Pompeu só faz crescer, numa controversa lógica da passagem das épocas. Interessante é ver nessa narrativa de 1976 um flagrante ainda pulsante. Reaviva-se, no contato com o livro (para mim, só de memória mais e mais instigada) o nó formado depois da Ditadura Militar com uma composição frágil de democracia. Essa ainda tramitada após os chamados anos-de-chumbo sem investigação dos crimes oficiais e das devastações de toda ordem sofridas pela cidadania, pela democracia, hoje curiosamente sob ameaça por um déspota revestido de miliciano, mantenedor de um Escritório do Crime como único projeto de governança, mais cruento e boçalizado do que o pior dos militares.

Intriga em Quatro-Olhos o modo como o pano-de-fundo político-social dos 1970 brasileiros se apresenta conjuntamente com a imersão no universo da loucura e na metatextualidade, então, trabalhada às voltas com um livro desaparecido, perdido. De tal dispersão, desespero para um narrador em ação rememorativa do escrito em pedaços, pouco a pouco dissolvido, o romance de Pompeu parte. Gradativamente, se instala um quadro de internações, impasses, disposto em duas seções: Dentro e Fora. Mais: De volta, a terceira parte.

Literatura e Loucura – Romance e Terror vão criando elos. O maior deles hoje se expõe quando Quatro-Olhos (volta à lembrança, no meu caso) é lido no presente tempo (estou fazendo sua leitura, também, de memória, porque repassei, revi suas páginas ao longo de décadas, mesmo não querendo agora citá-lo, em recorrência ao que ali está inscrito, sustentando-me apenas do que vem pela engrenagem mnemônica consubstancializada pela metamorfose que em mim operou quando de uma experiência com o livro em Oficina de Escrita que coordenei há coisa de 5 anos).

4-Olhos enfrentam 1000 do Dr. Mabuse –

O filme de Fritz Lang, realizado em 1960, desenha um quadro terrificante de engenharia social, máquina política subterrânea, criminal, desencadeado pelas dominações de um poder central, tal como acabou por se escancarar nos anos do Bolsão do Bolso Mínimo. Ainda mais o que se aguçou no contexto da Pandemia do Corona Vírus, com todas as implicações bioquímicas aliadas à tecnociência, adicionadas pela truculência da manipulação financeira dos recursos destinados à debelação da doença.

O que Lang deflagra, em Dr. Mabuse, o Jogador (1922) e O testamento do Dr. Mabuse (1933), se intensifica em 1960 na retomada do personagem com o título Os Mil Olhos referentes a ele. Esse que dá imagem à materialização do controle e da corrupção refratada na multiplicação do óptico em onipresença. Aos milhares de dispositivos e ações regressivas-repressivas, não obstante o aparato ultratécnico de sua dominação. Contudo, no filme de 1933 – o segundo, tendo Mabuse como protagonista (entre ausência e breves personificações) – apresenta uma maquinaria capaz de permitir sua continuidade no correr do século XX (até atingir o auge dos Mil Olhos na década de 1960), envolvendo jogo, logro, organização criminal por meio do desvelamento de uma rede tão prolífera quanto interligada em diferentes domínios.

O que Renato Pompeu promove, de maneira mais cotidianizada, sem se ater aos labirintos da criminalidade política, Lang oferece na esteira de thrillers expressionistas. A instalação de um estado clínico, detonador de corpos e mentes, ganha um senso de sonda eletrificante no cinema. Já, no romance de 1976, o pregnante do projeto está em captar na vida diária o baralhamento – tal como se percebe nas 3 partes mencionadas (Dentro/Fora/De volta) – entre subjetivação e aparelho econômico de uma conjuntura altamente corporativada, militarizada no andamento variável da máquina-de-guerra (da forma como hoje se instauram as frentes milicianas do Não-Presidente, infiltradas no Governo Federal).

Intriga, em Pompeu, uma prematura radiografia feita a partir da perda do livro (eixo da abertura do romance), da errância inerente ao escrever, à arte num contexto avassalador, que vai engolfando o estado de perquirição do Quatro-Olhos, face em duplicação não dualista do Narrador. Num tom sempre mantido de minoração do foco, pondo em destaque a minudência de um protagonista frágil, a oscilar entre planos de dissolvências, asilamentos, reaparições, a impactante narrativa do autor paulista (“desaparecido”, à maneira de seu personagem, apesar de no momento de sua morte atuar na imprensa regularmente) tem força de antecipação e raro escrutínio na captação de um background terrorífico imiscuído na cotidianidade.

Curiosamente, quando se vê a voragem estampada pelos Mil Olhos do Dr. Mabuse ao propagar o terror como norma em setores/formas de vida os mais variados, por obra de um caos direcionado a fluir como modo dominante de existir Estado, Política, Socialidade, é um livro esquecido como Quatro-Olhos que vem à mente de quem o leu (eu, no caso, às voltas com a argúcia e o refinamento de seu estilo único). Por tudo de inaugural ali inscrito, no contexto ditatorial de 1970, numa sincronia perturbadora com uma errância fundamental da literatura já em choque com zonas de perpetração do controle, do consumo, de valoração da Economia como matriz de ser/viver. Algo que repercute em nosso presente, fora do padrão de romance e noção de realidade cultivados por brasileiros. Não à toa, o livro de Renato Pompeu foi para um campo de sombra, mas é bem aí é que reluz, retorna, quando se pensa no que foi e ainda está sendo a história de um país, toda uma extensa época inseparavelmente ligada a testemunhos e documentos não oficializados.

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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