ACONTECE (TÂNIA FAILLACE)

MAURICIO SALLES VASCONCELOS

Muito atuante dos anos 1960 aos 80, a ficcionista gaúcha ressurge (agora que se encontra praticamente esquecida) em momentos assim, diante de seres assim como aqueles vindos do cinema de Mike Leigh. No contexto britânico dessa mesma época em que Tânia Faillace escrevia e publicava regularmente, um conjunto de títulos impactantes merece ser revisto – A começar de Look Back in Anger, peça de John Osborne filmada na virada para os sixties por Tony Richardson , diretor vinculado ao free cinema, responsável pela versão cinematográfica de outro texto teatral poderoso, divisor de águas, o emblemático A Taste of Honey, de Shelagh Delaney. Sem se falar dos impressivos Privilege (Peter Watkins), Sunday Bloody Sunday (Schlesinger), O Lucky Man! (Lindsay Anderson), Family Life (Ken Loach), Jubilee (Derek Jarman), Distant Voices, Still Lives (Terence Davies), entre muitos e precisos/preciosos no toque único de toda uma cinematografia.

De repente, uma revisão do tocante Bleak Moments (1971) revira a ordem do tempo e os quadrantes do olhar. Vem forte a novelística de Faillace à luz de criaturas travadas para o contato amoroso, imersas no caudal cotidiano de coisas e pessoas outras desvirtuadas de seus singulares itinerários.

Na mesma batida de Leigh/Tânia, ressoa um conto lido por mim pela primeira vez numa revista independente (nome apagado da memória), editada no Rio Grande, que divulgava nos 70 o boom percutido pela literatura brasileira nos idos da Ditadura. A narrativa de Caio Fernando Abreu se chama “Aconteceu na Praça XV”. Não à toa, se centra em um reencontro súbito em meio à azáfama dum fim de expediente.

Ali se move uma fiação entre narrador – leitor – multidão à luz dos escritos de sua conterrânea Tânia Faillace. Porque a escrita sabe-se nutrida de um povoamento de signos vivos, tão desconcertantes em seu poder de desvelamento quanto colhidos em campos vários, nas esferas mais alheias à ideia de unidade, à noção de autoria, exclusivas a um só domínio. Caio F veicula tal premissa, no embalo de um personagem – como se fosse a sobreposição de um relato dela – de Tânia Faillace.

Não apenas a bela escritora de livros como O 35º Ano de Inês e Mário/Vera, de contos como “Estudantezinha”, precisa ser (re) lida – no mesmo compasso em que os primeiros Mike Leigh e outros essenciais do British Film (especialmente aqueles despontados entre 1960-1980) merecem ser reprojetados em lugares públicos e privês (muitos deles inéditos no Brasil). Penso que algo como a literatura nas ruas e nos recônditos, à altura daqueles que não falam de suas mais ardentes descobertas, no limite da barbaridade da vida diária, resumida a sobrevivência, deveria estar em primeiro plano. Porque se mostra como um dos raros espaços de convivência e conversão do humano ao mais anônimo que cada um exprime. Tal como a sensível sonda de Caio sempre opera, ainda que traga referências datadas e marcações estilísticas muito marcadas. Até por isso mesmo a força interventiva da arte, a despeito do tom epocal, ganha vibrante relevo em um momento tão terrível quanto o nosso, timbrado por distorções das linhas-de-frente do que mantém a vida em plenitude e pujança. Na contracorrente da baixaria e da segmentação temático-mercadológica (nada a ver com artistas em seu multiplicar de perquirições, sob o influxo de uma imprescindível inventividade).

Sim, o anonimato da escrita num rush de fim de dia move a permanência desse universo conhecido como literatura. Não ao acaso, Acontece (Tânia Faillace) para lá da quadratura de décadas atrás. Até incidir nesse instante disperso pela rede de imagens, palavras, sentidos, dos olhos que leem e circulam pelas épocas entre páginas impressas e teletecnomidiáticas –

Exatamente porque se detêm no mais fugidio (uma produção e uma trajetória como a de Tânia Jamardo Faillace), com um senso misto de desaparição/ressurgimento capaz de revelar todos/tudo aquilo que passa.

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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