MONTAR JOYCE: DESMONTAR

A recente encenação do monólogo clássico-moderno de Molly Bloom no fecho do portentoso Ulysses, de James Joyce, no centenário de sua publicação, deixa nitído que a escrita do autor irlandês cria outro contínuo que não é apenas da ordem do fluxo, da torrente verbal da consciência a se desatar numa tradução diretamente verbal quando ganha a cena. A montagem de Daniela Thomas e Bete Coelho (no papel-título) apresenta tal impasse entre o escrito e o visível, não obstante o esmero da cenografia e da concepção fílmica da teatralização, ao pôr em relevo – no primeiro plano viabilizado por um telão – as variações de Molly sobre a cama conjugal (contando para isso com a grande atriz numa renovação do dizer e de figurar personae cênicas depois de certas sedimentações do ato de interpretar, muitas vezes superrepresentando).

Molly Bloom – estreada em agosto de 2022 – corre o risco de levar ao palco o texto joyceano expondo-o tal como está escrito, sem que haja extração de sua semiótica mista, um composto de experimentos micrológicos de língua e linguagem, de referendo e distorção léxico-sintática, numa redução ao Significante. Quando tudo se passa, em Ulysses e também em Finnegans Wake, como sua tradução integral para o português, em 2022, deixa à mostra, por força de segmentos mínimos fônicos-sêmicos a partir dos quais outras significações despontam. Emergem novos entramados, aparições insuspeitadas de referências em refeitura de uma insurgente épica advinda de planos em pontilhamento microscópico, molecular. A narrativa é a linguagem em combustão simultânea às suas fissões e fusões constantes dum vasto repertório de línguas, escritos, culturas, repositórios cognitivos e estéticos.

Transpor Joyce para o teatro, em detrimento da afecção de sua cena múltipla de experimento verbal e sequencialidade narrativa, conduz muitas vezes à afetação do interpretar, como acontece com o ator responsável por dar imagem a Leopold Bloom através de uma tentativa de cópia fidedigna do próprio escritor em suas fotografias. A teatralidade representativa mostra seu limite na confrontação com a literatura joyceana. Quanto mais o texto dispor de sua opacidade, sua intraduzibilidade, enfim, mais pode ganhar força cênica. Pois não é com acoplagens diretas, verbalizações de artífice (advindas do ator adestrado a emitir a retórica de um escrito), que o teatro se renova, mas talvez pela capacidade de escandir, divergir do que está textualizado, encaminhando-se para um labirinto de possibilidades em que o stream solicita pausas, vazios, retraduções, cortes com o que parece fiel a uma grande autoria como a de Joyce. A despeito do empenho visceral de Bete Coelho, ganhando potência a cada instante em sua dilacerada Molly, a reverência à assinatura James Joyce o mantém emoldurado. O texto de seu romance secular fica lá numa outra ordem do tempo, culturalizado, distante de sua iminência poderosa no corpo de nosso presente, ou seja, em ato.

MSV

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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