PRINT PELE — Preparativos para uma habitação emergente

LUCAS MIYAZAKI

Tive uma ingênua vontade de perguntar à autora sobre quais foram os instantes de vida que fizeram a escrita de Print pele acontecer. Há um acúmulo de textos que registram todos os instantes de vida. “Cacos de memória” que perduram nas páginas onde o tempo se transmuta em narrativas da vida no presente. Registros diários que atestam o presente puro, marcado com data, local e hora.

Em outros instantes, a escrita faz-se lista de mercado e afazeres, ou um ensaio de poética sobre composição literária em prol da arte da escrita em cadernos. Há também palavras, linhas soltas ao longo do papel do livro. Uma escrita que deu mostras do movimento de “fluxos repousos”. Mas tais instantes de vida não se propõem a recuperar um momento do passado, um “tempo perdido”. Eles pairam em mistério, no atestado de que houve uma existência, uma caneta escrevendo no caderno, e mostram então o instante presente de um acontecimento que se anuncia ali.

Desde o início há a questão do lugar, que logo se transfigura para a da habitação. O livro todo, uma literatura do habitar. Estamos diante do terreno rural onde um corpo caminha. “— Percorro o terreno rural de 10.000 m² com a desenvoltura sonhada.” E apesar dos nomes, não se sabe ao certo que lugar é esse. E que corpo se apresenta? Nenhum corpo imediatamente reconhecível. É um corpo-existência que fala antes de ser personagem; executa 5 “experimentos” relacionais, como performances no terreno numa relação errante na qual as possibilidades de se habitar o baldio do mundo se ampliam enquanto potência gestual.

A descrição de ações experimentais sobre o espaço, portanto, não vai nos mostrando uma paisagem fotogênica; nada é contornado — “Este território aqui está fora”. O que nos interessa na travessia do espaço não é a sua função de uso, o seu valor nomeável, mas justamente o dado flutuante, instável, desenraizador e sempre em devir de habitá-lo. E aqui incide a poética da autora: “Cadernos são livros escritos à mão”. Literatura enquanto obra polifônica “que não está direcionada a alvo algum”, mas “em estado de recepção dinâmica à sua exterioridade factual de caderno, de aprendizado e evento processual.”

Nenhuma tradição perdida e ou natureza pura no primitivo do baldio que as escritas de Amélia articulam. Tudo é gestual, montagem à mão do habitat, mesmo quando estamos diante de um lugar reconhecido e diante de um texto com uma função específico a exemplo da “Carta aberta aos movimentos de luta pelo Parque Augusta” (cuja força ativista faz falta ao cenário político atual). Exige-se o que não é delimitado, a inoperância de um parque quando existia no seu arranjo delirante, baldio, constantemente construído por múltiplos vetores de seres diversos, antes de seu atual design funcional e higienizado.

O corpo e o lugar em seus estados deambulantes são convocados pela escrita que os atesta. Convocados a habitar — “Pós-drama, local de solitude”.

Então paira a vontade ingênua de resgatar esse instante que fez a escrita acontecer, como se ali encontrássemos a potência da casa anunciada, onde aguardamos emergir o Print pele, imagem que se nos apresenta o plano real das coisas. A xerox-mundo que revelaria o mistério da superfície.

E essa vontade de querer saber aponta para a vida por vir, à busca e a um empenho então modificado, que é uma vontade de viver resguardada na escrita com o caderno vivo. Literatura que se dá em um circuito relacional da escrita inventiva com o corpo em experimento no habitar — “O mundo que aguardam a cada passo não começou. Vocês parecem estar ali aprontando os preparativos para a sua emergência.”

Para uma escrita que movimente modos de se pensar, ambientar e reagir ao “pós-drama” do presente, recomendo a leitura de Print Pele (editora Córrego).

O livro está disponível na Livraria Clepsidra

Também, no dia 10 de Setembro de 2022, a autora estará presente no evento NARRAR É DISSEMINAR. Local: CASA DE LIÈGE – Rua Capote Valente, 305, São Paulo

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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