ELOGIO DA TELENOVELA – UMA ATRIZ SOB INFLUÊNCIA

          

A telenovela ainda ocupa um lugar central no Brasil, chegando mesmo a superar os desempenhos de nosso cinema e nossa literatura, quando atinge o que toda arte narrativa tem hoje como desafio, especialmente num país multiforme e convulso como o nosso: difundir imediatamente o que se passa na concretude mais direta pela via da fabulação. Estão exatamente na captura do dia-a-dia noite adentro, em tempo real, presente, o interesse, a peculiaridade, o poder de foco que fazem radiar tal arte medial, altamente administrada, porosa a toda sorte de imposição e controle. Mesmo a telesserialização em formatos vários não retirou da Novela Brasil – recepcionada no mundo inteiro por seu acabamento e sua originalidade – a cotidianização de flagrantes trazidos tantas vezes com um verismo perturbador, um dado documental irrefutável, ainda que mesclados com os repertórios folhetinescos, em sua maioria descartáveis quando das vivências reais daqueles que lá se estampam em refiguração dos intrincamentos societais.

Ocupa, então, a telenovela o lugar esvaziado do narrador na modernidade – tão bem cartografado no clássico benjaminiano –, como a reacender de um modo patentemente técnico a recorrência da desauratização e outras auréolas nada despercebidas por Agamben quando formula em tempos capitais a comunidade que vem, inseparável da busca do lugar e da fórmula rimbaudianos. Ao compasso da revivificação do relato e do fogo primevo do contar histórias ao fim da noite. Da História no fim-da-história. À noite (rumo ao seu fim).

Reativa-se, então, a felicidade de Lula na governança de nosso Brasil após o abate miliciano-neofasci por 4 anos de contaminação somada àquela do vírus tão bem capitaneada e corrompida pelo estafado staff do Monstro do Bolsão do Bolso Mínimo. Já nesse janeiro, não à toa eclode nas telas diárias, depois de 19h 30 uma telenovela tomada de uma energia composicional, de pregnância sociocultural rara, que faz do gênero uma projeção inevitável de signos inquietantes, a envolver narratividade, vínculos comunitários, esplendor da arte de atuar em diálogo acirrado com o real.

Comparecem, então, em primeiro plano um rosto, um corpo, uma dicção únicas através de Carla Cristina Cardoso, a intérprete de Bruna, vendedora de quentinhas no Centro do Rio.

Certamente, há, em Vai na fé, escrita por Rosane Svartman, aquela que considero nossa maior atriz, Renata Sorrah, responsável por uma intensidade de pathos e poder de iconização (timbrado, aliás, através de memes por todo o mundo) inigualáveis na criação de Heleninha Roitman (em Vale Tudo, de 1988) e Nazaré Tedesco (em Senhora do destino, 2004). Não apenas na teledramaturgia, Sorrah é de um impacto único também no teatro, bastando-se somente citar sua irrepetível invocação do sublime, em alto grau de poeticidade, no extraordinário Grande e Pequeno, de Botho Strauss (1985). Para não se falar da antológica participação no cinema de Bressane, lá no início, com o estopim Matou a família e foi ao cinema (1968).

Sem dúvida, existem atrizes vigorosas, na citada novela das 19h (quase chegando às 20h), como Sheron Menezzes, competente e eletrizante fazendo a protagonista, e o talento crescente de Bella Campos, mas há em Carla Cristina Cardoso a imediaticidade do popular, da brasilidade, como que extraída com a potência integral da arte em sua força de influência. É nela que a telenovela em questão encontra sua mais plena ignição para ser um documento sobre o terror onipresente ao som de neoevangelho gospell e raps/reptos da negritude, mesmo sendo uma coadjuvante.

Alegria e inteireza de quem parece sair da rua, do real, para a tela. Trata-se de algo imperdível, imantador. Influência e inseminação de um novo realismo e de uma época em insurgência, mais do que ressurgência. Por obra, também, do que propicia esse espaço saturado, previsível, reciclado, porém capaz de tecer com destroços a fagulha do relato em época ultramidiática. Noite afora – A telenovela no Brasil. Entre um pool de notícias e verismos de toda espécie de reality, esplende A Telenovela Brasil.

MAURICIO SALLES VASCONCELOS

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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