Ler Vocal, de Mauricio Salles Vasconcelos, editado pela Kotter em dezembro último, significa o ingresso “na voz que me entrevista”. Tamanha é a interlocução criada com aquele que o lê, por meio de conversas imperceptíveis e indagações intermitentes.
Tendo-se em pauta as inúmeras dicções que se cruzam no livro onde estão reunidos 9 volumes de poesia entre 1980-2022, a leitura propicia o convívio com um diálogo interno, intenso, desenrolado de uma a outra linha.
Assim é que o contato com uma poética, tomada da perspectiva 2020-1980, como frisa o autor (em via decrescida no tempo) nos parêntesis que se abrem após o título, conduz a uma conversação de cada leitor consigo mesmo.
A partir da voltagem de interpelações interiores em face de imagens proliferantes e tonalidades verbais multirrítmicas, tudo ressoa a contar dos registros da história (história da poesia, também, ao longo de 40 anos). Através de captações das vozes que se indeterminam entre um eu polifacetado na escrita e aqueles muitos subjéteis (por parte de quem lê) despontados a cada virada de linha/página/livro proporcionada por Vocal.

A VOZ QUE ME ENTREVISTA/P A R T E UM
Primeiramente, o dado sonoro-musical (em coro ou em solo) surge desde o título na reunião de 40 anos de produção. Algo que fica enfatizado com a inclusão, em Vocal, do único livro inédito do volume, Cantarolado.
A dicção poética é a mesma do canto? É essencialmente à vocalidade produzida pela linguagem que você se refere?
Como fica, na sua concepção de escrita, o fator do canto?
O que vem da musicalidade – tantas vezes referida a cantores e compositores nacionais ao longo das 600 e poucas páginas do livro? Qual diferença se dá entre texto e voz, literatura e música?
Ou não haveria distinção entre cantar e escrever, por mais que seja frisado o sentido escritural no decorrer dos 9 livros contidos nessa reunião de poesia?
Por mais que eu frise a escrita, me fascina também sua expansão na mescla que a literatura faz nesse nosso agora. Vocal como título induz a um coro de vozes integrantes do espaço escritural, especialmente aquele configurado pela poesia, com sua autonomização de linhas e ritmos em face da trama e da antropomorfização trazida por meio de personagens (algo presente no campo da narrativa), com marcações espaciais, temporais, relativas a efeitos de realidade.
Sinto, ao escrever e depois ler (antes da publicação de algum texto, mesmo durante sua inclusão em livro, já no momento em que a edição passa a existir na rolagem das épocas totalmente fora de meu alcance), a presença de uma vocalidade coral se firmar. Essa, através da qual ocorre a indeterminação entre um eu (de linguagem, frise-se, embora decorrente de um corpo integralmente dado e de uma biografia, com seus relances existenciais não exclusivos a um único ser) e os subjéteis aí contidos, incluídos aqueles advindos dos leitores (implícitos, intermitentes, interpelantes) que despontam na escrita. Algo que não deixa de ser emissão, modulação de ritmos falados, musicados, compostos numa pauta outra, provenientes todos do uso de um idioma.
Sim, a musicalidade que se desprende da utilização idiomática é o que mais se destaca na arte entendida como literária, eminentemente verbal. Porém, indissociável da outra língua – aquela bilíngue, de que se ocupava em versos e ensaios o português Ruy Belo – refeita pelo poema.
Ao mesmo tempo, tenho interesse em mesclar meu trabalho com o que é ruído, outra música (não-literária), provinda ou não da esfera musical (do caos das falas despontadas de todos os lados, dos turbilhões discursivos, dos refrões vocalizados como patrimônio mental, memorial).
Ainda que eu faça referência a muitos artistas, cantores e compositores, sobretudo nacionais, fascina-me o rumor de tudo que é fonte. O avesso do que se lê como linguagem escrita. O avesso de quem escreve. Tudo capaz de ressoar múltiplo, anônimo. Entre a construção de poema a poema e a disseminação do que não é apenas afirmativo, mas posto em diálogo com quem não-se-sabe (o leitor por vir, a voz saída de um compósito construtivo, mas que também, bem depois, me entrevista, muito posteriormente ao livro concebido, editado, trafegado pelo tempo).
Sim, Mardu, há um canto, sim, aquele emitido pela escrita.
Trecho de “O cantor das multidões”
Aquele é um cantor
disse a voz por trás das caldeiras,
apurava-se um tacho
para alguém cansado da falha
daquele dia preciso
(…)
Mensagens baixam
pouco indicativas/em qual época?/
um cavaquinho tange mitologia pagã
segundo os foliões, caídos
antes da magia
/em qual épico?/
(VASCONCELOS, 2022: 549-551)
Entre muitos artistas de música referidos e recriados, em Vocal, há focos bem visíveis em Jorge Mautner, por exemplo, no citado “O cantor das multidões”, (um compositor e escritor que, aliás, apresenta seu primeiro livro, Lembrança Arranhada, com grande entusiasmo e certo tom profético ao depreender o vitalismo e a brasilidade contidos em sua produção, logo no início). Porém, vários elos com ritmos, gêneros e elementos da musicalidade se ressaltam a partir de diálogos constantes com o samba, a pós-bossa-nova de Jonhhy Alf (no poema “Letra”, onde se reinventa “Eu e a brisa”), como também o carnaval, o bolero, o iê-iê-iê e o rock revigorado nos anos 1980.
Vale destacar, por outro lado, sua incursão pelo universo de Patti Smith, poeta-musicista estudada por você (pela primeira vez, diga-se, no Brasil tal como se lê em seu livro Rimbaud da América e outras iluminações, numa época em que essa mulher rocker, poeta e escritora, ainda não havia obtido a enorme repercussão mundial que hoje tem).
Vem, afinal, da música a escrita da poesia? Fale um pouco dessa gênese de sua literatura, considerando-se a marca adquirida em um país altamente musical. Ainda mais quando se vê que tal espectro de criação se enlaça com a própria passagem do tempo para quem viveu como você várias décadas e agora celebra seus 40 anos de escrita poética.
Sem dúvida, a música foi fundante, a brasileira mesma, pois nascido no final da década de 1950, pude acompanhar pelo rádio (quando havia, por exemplo, uma JB, dedicada à divulgação do que melhor se produzia, com uma grande abertura de tendências, de estilos) ligado por minha mãe do início do dia até o fim da tarde, um verdadeiro panorama do que a MPB realizava. Tudo o que se deu da minha infância até a adolescência: da Bossa ao Fino da Bossa, do iê iê iê à Tropicália, da explosão nordestina aos novos rockers, ao Mangue Beat.
O que eu sei de letra/melodia é uma loucura. Tudo na cabeça, na ponta da língua. Já comecei até a dar shows de modo a difundir um repertório de canções esquecidas. Se eu tivesse aprendido a tocar algum instrumento, não tenho dúvida que seria um compositor, cantor, a carregar um extenso currículo de letras.
Então, tudo isso ficou ao fundo enquanto o garoto, quase filho único por um tempo (depois minha queridíssima irmã Bárbara veio a nascer e é hoje uma das minhas maiores amigas, uma atriz incrível), ficava a desenhar, inventando histórias, sons, imagens por cima de revistas que tinha lá em casa – juntamente com músicas – em profusão.
Escrever e cantar, como você bem disse. Escrever é cantar (um canto mudo, transverso, solitariamente executado, a palo seco, para dizer com João Cabral e, também, Belchior numa canção com esse título, gravada em seu primeiro lp).
Aos autores citados quero acrescentar os sons do baterista Gigante Brazil, homenageado na seção “Mortes (Pessoas)”, do livro Ar Livre (2017), incluído na íntegra em Vocal. Além de Patti Smith, fora do Brasil, há claramente referências a Syd Barrett, Jeff Buckley (além de outros pops, veja-se o poema “Os expedientes”), mas deve ser também lembrado Jim Morrison, um cantor-poeta muito refinado, capaz de fazer sinfonias como “Lizard King” (ele está invisível no que toca a referendos, mas foi estudado por mim no livro sobre Rimbaud e, do “Rei Lagarto”, tenho uma versão para o português que, em breve, espero cantá-la em público).



Certamente, Patti sempre retorna, desde o ensaio que fiz relacionando-a com a arte rimbaudiana. Em Desde os Anos 2000 (Minha Vida), sua criação reaparece para mim quando traço elos entre o sonho humano e o horror da História hoje, pois encontro nela uma pujança do ser-mulher num front em que a arte se mostra um espaço potenciador de política e senso de coletividade numa estatura planetária. Esse é o novo ativismo, indispensável a quem se põe a escrever nessa nossa hora. Está aí, então, um poder para todos que a música traz e não pode ser esquecido não só para o campo dos versos, das dicções por escrito, mas para destituir o terror, como incrivelmente se deu no Brasil com pouca, efetiva ação para demovê-lo no período 2018-2022.
A palo seco, disse há pouco. A poesia é esse tipo de Vocal – não ao acaso, o que mais me define na poesia é o repente. Filho de nordestinos, bem garoto fui introduzido aos impromptus das zabumbas e seus cantores. Daí veio tudo, penso, certamente junto com a poética quilométrica de Caetano e Dylan em algumas canções, criadores de palavras ritmadas de um modo impossível no limite da língua, da letra-de-música.
Certa vez, caí num repente inventado por mim mesmo: um amigo querido lá de casa em festejo veio nos visitar, eu peguei uma cadeira de fórmica (típicos 60’s) e a transformei numa sanfona a fazer melodia ao modo nordestino dos cantadores de feira, trazendo uma batida verbal aprendida com os grandes letristas da mais nova música popular. Já tinha sido tomado pela coisa aos 11 anos. Vejo aí um marco, do qual não me afastei, nem com tanta formação pela leitura, pela escritura. A poesia tem um vocal repentista imprescindível. É como se da letra a voz precisasse ser posta para fora. A voz da letra.
Trecho de Desde os Anos 2000 (Minha Vida)
Uma linha passada para outra, sem que morra a incitação do conhecimento. Por tudo que morre. E não dá pra trás (por detrás). Estava outro rosto onde desrecitei Cecília, o espelho da cantiga de Sueli Costa (primeiro lp juventude mpb, canção involuntária toda manhã). A Universidade nos retira a música. Eis o mote, transformado num repente, para ver a feira multicultural onde venho aportar num segundo (…) “Ai que vontade de comer goiaba, vontade da mulesta de comer uma goiaba”. (A fome se revolve em fruto,“goiaba”, triângulo zabumba zoeira de uma família mendicante dublê dançarina dos sucessos típicos a cada dobra Mapa-Brasil, a música ao vivo se faz anti-metáfora esfaimada percutida em cada combo regional-expositivo de las culturas del mondo em entrelace, faiança de faquires). Um andarilho do modelo-capital de emoções globais é aquilo a que viso (invés de ser o que viro).
(VASCONCELOS, 2022: 83)
O repente tem se dado, também, a partir de outras matrizes musicais. Por exemplo, Avant Gardener, de Courtney Barnett, me impressionou muitíssimo quando foi lançado. Essa garota australiana, em 2015, trouxe uma verve não ouvida há muito tempo, um modo de compor e poetar fora da moldura rapper. Cheguei a fazer o show Disco Dublê, em 2018, tendo como base meu romance homônimo, para abrir novas dicções a partir daquele veio testemunhal e melódico (desenrolado por Barnett) num andamento hipnotizante de proposições.

Também criei diálogos com outras fontes do pop como as do Felt e de Marc Bolan. No Brasil, uma vertente sempre presente é a de Dorival Caymmi. De Coqueiro de Itapoã criei, em Disco Dublê, uma versão lenta, meditativa, fazendo escansão de motivos e imagens da legendária canção baiana.
Estou embalado para realizar apresentações que chamo de Repto-Poesia, dedicando-me a repentes melódicos, delirantemente imagético-plásticos. Busco unir depoimentos sobre o presente numa frontalidade bem testemunhal, algo já desenrolado no território da escrita, só que unindo ao universo da música, de modo acelerado ou não (para além de um único gênero), tocado por fortes impromptus, instantaneamente imaginados e emitidos.
Depois de ter realizado com o compositor erudito Marcus Siqueira Livro Telefone Rua – Ópera Estenofônica (disco acessível no livro de mesmo nome, editado em 2022), que teve por base The Telephone Book, de Avital Ronell, tenho interesse agora de revisitar a celulartelefonia. Um eixo composicional e poético se dará a contar de “Pelo telefone”, de Donga, primeiro samba gravado no Brasil. Essa estreia discográfica do canto nacional, tendo o samba como núcleo, é intrigante e fará parte desse projeto de Poesia-Repto.
Também de modo explícito, lê-se, numa das seções de seu livro Caderneta-Maquete (2016), um forte conjunto nessa vertente vocalizante, sonora, intitulado “Musical”.
Não só em homenagem à sonoridade inerente ao poético, como também ao gênero cinematográfico que une música à narrativa fílmica, esses poemas criam uma associação instigante com a esfera da política.
Importante, lembrar que Caderneta-Maquete tem um interesse em situar as lutas pelo Passe Livre em 2013, apreendendo simultaneamente o ambientalismo, o urbanismo com ênfase no espaço cotidiano do pedestre (há, inclusive, aí todo um movimento, em São Paulo, contraposto ao projeto de cidade em vigor), conduzindo tudo para uma pauta crescente de questões.
Trecho de Caderneta-Maquete
Mais do que filme, após todas as sessões
Morrer na história tem o tanto o talo
Desperto nos corpos que vêm
Ao andamento automático
Não-mecânico, androceu em pátio-
De-obra, todas as coisas são bastidores
Câmaras: inacabadas cenas
Engatilham o que despontou muito antes
E desde já não pode passar dos surgimentos súbitos
Pólens – pedaços hiperpossuídas vozes
Em lugar do sujeito-individuo – Abas pestanejantes
Maquinal marionete continua espetáculo do dia entre
Os
Dias – Dançam sobre pisos picados
Azulejos contra olhos e relances solares puro desvio
“Estou sozinho na cidade” (apenas um quarto
Guarda-me, sou um)” O Existencial êxodo
Ruma para o estar-justo de modo a não hospedar o decurso
De um discurso degradê em Busca Fundamento Perdido
(O tempo de que falou o pai de A a Z/Zizek uma garota
Vem me vender confete de carnaval ido há eras e convite
Para passeata retrô resistente
Quando o menor sinal dá festa
À construção cidade e o cio de si torna
Sopro/Sentido o que é de agora)
Não nunca mais – Após pai pedra-base ex politik
Não a realidade tal como dita não:
Estamos em “tempo real”
(Vocal, 2022: 397)
