A VOZ QUE ME ENTREVISTA/PARTE 2

  DIÁLOGOS EM TORNO DE VOCAL, de Mauricio Salles Vasconcelos

Em continuidade à conversa iniciada com Mauricio Salles Vasconcelos em torno da reunião de sua poética em Vocal – Editora Kotter, 2022-2023 –, considero importante retomar os elos que se formam entre testemunho e celebração criadora, entre música e flagrante histórico.

Especialmente, a partir de Caderneta-Maquete, fica evidenciada o que penso ser uma conjugação de um traço de documentalidade com um princípio de experimentação.

Retomando o núcleo de musicalidade revelado no título de seus poemas reunidos, gostaria que comentasse um verso em que se revela – a contar de uma referência ao cinema de Jacques Demy – o dado de uma “Visão Musical de Mundo”

Importante, você tocar no aspecto “celebratório” a envolver a um só tempo vida e ativismo, atitude política e criação de formas no sentido mais ampliado. Pois, assim, a seção “Musical” dentro de Caderneta-Maquete descerra os limites impostos à ação empenhada contra o “estado de coisas”, em especial quando tenho em mira neste livro as lutas do Passe Livre, em 2013, desdobrando daí uma postura de combate em espaço aberto, numa dimensão pedestre, terrena, gestada no corpo a corpo do dia a dia, no plano mais direto da chamada “vida material” (como o faz Marguerite Duras, aliás, uma autora tomada pelas lutas históricas de seu tempo).

Estar na rua, em convocação da estatura integral de cada indivíduo lançado às conflagrações de toda ordem, compreendidas pelo que se entende como político, suscita em meu trabalho um andamento ético e, também, épico em certa medida, numa gradação renovada. O cine-musical de Demy, em paralelo que faço com Luiz Rosemberg Filho, cineasta brasileiro essencial (diretor de A$$untina das Amerikas e Jardim de Espumas), aguça uma cotidianidade do modo de impulsionar corpos numa grande abertura de gestos, posturas e vozes, que se encaminham para um enlace total da existência. Algo que acaba por contemplar o celebratório e o político num só compasso.

                       Trecho de “Musical”

Jacques  Demy  quis  imprimir  uma  “Visão Musical  

De Mundo” em seu filme (onde não se fala) – Abrem-

Se guarda-chuvas entre o amor esquecido no tempo e a Canção tomada de assalto sobre qualquer Rastro/pensamento – Em idade adulta, um Cineclube

No Centro Cidade inaugura  Ciclo Arte  longe de todo   Palácio: Infância Sessão –

Nada se passa além de uma história-de-amor interrompida, O inusitado é que a música toma a frente de

Qualquer lógica dinâmica ou entretida com a vida a

Seguir – Do mesmo modo depois de 20 anos de idade Estreia um surpreendente A$$untina das Amerikas (Anti-Musical, de Luiz Rosemberg Filho) –   As falas se tornam Mais que melodia a conduzir os diálogos –  alcançam  em

Igual medida o movimento dos corpos, que não param  Dançam ou melhor: tremor 

               (Vasconcelos, 2022: 392)

Minha visão musical de mundo, apreendida no cinema musical em suas variantes mais inventivas – depois de Hollywood e até hoje em repercussão nos projetos dos portugueses Pedro Pinho, João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes, entre outros e em outras filmografias atuais –, não se aparta de uma noção inteira do ato político, que deve conter as emergências todas da existência, as mais imaginárias, impossíveis mesmo, integralmente materializadas na forma de combater e criar condições plenas de comunidade e comunhão indiscriminada com todos os vivos, os mais diferentes. O Musical na vida e no plano do poema percute tais pulsações.

O JARDIM DAS ESPUMAS (1970)

Imprescindível, tocar aqui em Rimbaud, quando em Illuminations, projeta tal caráter congraçador surgido das multidões urbanas modernas, a partir da irrupção da Comuna de Paris, tão significativa na sua experiência de vida/obra.

Como estudioso do autor francês, você apreende linhas propositivas da modernidade, reforçadas, inclusive, com sua recriação de “O sentimento dum ocidental” (1880), de Cesário Verde, em seu livro Ocidentes (1998). Sendo este o criador do primeiro poema moderno em língua portuguesa (num diálogo acirrado e muito claro com os postulados inovadores de Baudelaire), como fica para sua produção o vínculo que se estabelece com o atual milênio?

Interessa a você criar uma via intercomunicante com poéticas seminais dos últimos séculos? Já que consta, também, de sua produção poética a refeitura de alguns dos motivos fundadores da obra de Lyn Hejinian, que escreveu, em dois momentos do fim do século XX, My Life e My Life in the Nineties.

Esses processos se dão de um modo não tão planejado, mas sem dúvida é do meu interesse pensar legados modernos imprescindíveis para a criação de poesia, tendo em pauta a vida presente em suas modulações de linguagem, história (história cultural inclusa), realidade em suas múltiplas facetas cotidianamente dadas.

Tenho mesmo esse movimento no ato de conceber e escrever poemas. Não posso deixar de testemunhar sobre meu momento, que se ramifica para além de um eu e de uma monolítica compreensão de eventos formadores de uma época, de uma compreensão do real. A escrita tem a ver sempre com descoberta. Há algo que vibra na minha existência e em minhas formulações de texto/linguagem, mas apenas quando o ato tem início a vibração se faz mais plena, disseminando-se em construção de poesia. Aí é que tudo irrompe num andamento nada calculado, revelando um feixe multiplicador de sentido e sintonia com o tempo em que vivo.

O LIVRO DE CESÁRIO VERDE

É bem da formulação baudelaireana que vem algo muito presente: não se cria poesia sem o solo de uma tradição, de um repertório. Embora tal embasamento não se vivifica quando é suprimido o pacto com o momentâneo, o mais efêmero.

No fundo, minha concepção de poesia advém desse vetor sempre em recombinação. Não adianta sustentar um trabalho de escrita tão somente pelo referendo a um legado, pois perde-se aquilo que faz a historicidade, em veios múltiplos, a ser captada pelo poeta. Tudo o que pode conduzir ao culturalismo, ao passadismo no pior sentido. Do mesmo modo que apenas a assimilação do instantâneo como fio condutor não possibilita o alcance mais amplo do que uma determinada época radia, na sua fiação mais abrangente. Quando intervém em outras formações históricas, indispensáveis ao traçado das linhas intercambiantes, intempestivas, do tempo (definidoras não só de um fazer-arte, mas da vidalinguagem, como bem formulava o essencial Mário Faustino).

                     Trecho de Ocidentes

Crônicas navais são menores que qualquer gibi

Ao mar, salvo pelas mãos de um guri, zero em português.

Ele surfa o mapa-múndi movediço, tonelada de aço até Japeri

À sintonia 1000 da Odisseia nativa-nascimorta: Encruzilhada de                        

                                                                                                   [Erês.

E o fim da tarde inspira sob a tinta do sol roxo

Um quadro-de-fundo ao gosto de decoradores e convalescentes

Contraparte de cor ao sangue vertido, excomungado aos muxoxos

Silhuetas vampiras abreviam a tarde: Todos estão cientes.

Os querubins do lar – queridos bibelôs – empestam a Atmosfera!

Nenhum lugar é privado: Vida doada aos gritos, palavra previsível

A Vida Humana agora resumida em fascículos – “Vá ao Sebo

                                                                                         [das Eras,

Tudo lido e barato, milagre aos Iniciados em qualquer nível”.

                                            (Ibid.: 429-430)

Ficam nítidas as recriações de autorias e projetos de livros de diferentes poetas ao longo de Vocal. Acrescento, entre os já citados (Rimbaud, Cesário Verde, Lyn Hejinian), a série “Libreto (Cinco Vozes e Corpos)”, integrante de Sexo/Sombra (onde se reinventam os escritos de Hilda Hilst, João Vário, Kathy Acker, Eduarda Dionísio e Tite de Lemos). Mas há também, em seus poemas, não apenas “hommages” a outros artistas (cineastas, músicos, aquela/e/s do universo visual). Um intuito de reconfiguração das artes e de diferentes linguagens atendem seu proposito criativo, não é?

VOCAL pode ser lido, inclusive, como uma incursão multimidiática neomilenar (TV em toda sua variedade de programação, streamings de fatos e ficções, diferentes páginas infonáuticas), com senso sempre presente de remontagem de vários universos de signos. Tal traço é fundamental ou fortuito?

Como são recepcionados os procedimentos da chamada contemporaneidade, por exemplo, essa tendência de paródia, de apropriação, em seu projeto?

Sem dúvida, há esse dado que me vincula a uma época. Por outro lado, não pretendo apenas desmontar/remontar autorias na direção da “hommage”, como você bem diz, nem simplesmente sustentar meu trabalho por meio de um diálogo, vamos dizer, “interartístico”.

Inevitavelmente, estou ligado a tudo isso – ao trânsito entre arte e existência, choques cotidianos e entourage cultural de diferentes épocas. É o que respiro.

No entanto, tudo o que há de referencial, me parece ser norteado por uma via vitalista. Não me interessa simplesmente fundamentar, referendar, pois um trabalho de arte não se sustenta por si só em tal medida. Por exemplo, na série “Mortes (Pessoas)”, pertencente ao livro Ar Livre, o que é de meu interesse na captação de artistas, pensadores, figuras da cultura, se relaciona aos modos de morrer, numa súmula que busco fazer entre seus trabalhos, toda uma vida/arte e o desenho da finitude traçado em suas trajetórias.

               Um poema de “Mortes (Pessoas)”, seção de Ar Livre

         BOLAÑOS Y BOLAÑO

A noite significa o desenrolar de seu fim –  de um até o próximo um –

O tempo durado de uma leitura –  Stunt Daily Men (a TV projeta apenas

Um lume de som sobre cada pessoa e essa não passa de uma tela,

É “sobre mim” que se desencadeia a ficção/deriva de fatos e absurdos

Programados tais quais tramas alheias       entretecidos trailers

) Se fico aí a mirar o aparelho ou o aparato de um livro

Destituído de letra posso me transformar no que eu não quero, justo

Naquilo que mais penso)  Bolãnos y Bolaño (a moral e seu paso doble

Decurso devolvido ao vazio

Onde “posso” recair mirado na farsa do último eu

“Ele” pronuncia plano mortal em travessia

Pela corriqueira patusquela em vila e vivência) Miniatura

De uma casa-de-fundos

Impossível escapar da parede-e-meia/uma canção se desenfreia

Soprada à toa pela vizinha cada vez mais para dentro:

Cabeça-de-porco, lugar em que recontam uma piada, paródia-polícia

Feito uma sina em contágio, só porque se narra    voz alta, talvez um Amuleto

A tilintar no quarto forrado de carne, poltronas viradas para o quadro

Em movimento: tela sobre tela de uma tevê aberta, reincidente,

Denuncia a ausência de um autor, o disparate da palavra final

Bolaño y Bolaños (no abismo desses cômodos onde quer

Que qualquer um esteja) Com um livro pela frente (suplemento supletivo)

Ou a voz intermitente por trás a orar pela novela noves fora

Infiltrações pelos subúrbios infindos – a bruxa mora ao lado a bisca

Dá em 71 endereços borrados enquanto o churrasco é exposto

Em fileira no palito, pela ponta (carne cortada, irremovível)

Dos lugares e tempos

Dados como mortos, fuzilaria sobre sol na placa Programa Comunidade

Tornada pista-de-alvo, parqueamento de terrenos prontamente ocupados:

Entra mais um na sala televisiva, uma espécie de escrita continental

Flagrada por rostos mudos, ventríloquos em portuñol

Tradução simultânea/história corrida, histriônica hermenêutica

Sem conclusão nem pater familias

Um sabor de fim se acentua, por qualquer motivo    tramita

O passado potente o bastante para voltar a

Residir aqui: pelo tão puro mero atrito

De corpo parede pessoa e

Limite do que ainda pulsa subsistente

Dilatado até a invisível morada com seu cômico señor fabulista

A secretar um substituto ou

Subtítulo – Nada acima

Dessa criatura cada

Vez mais passível de desaparecer

Ou

Demorar em igual distância

Sem nenhum outro dito

A mais

Equivalente.

Apenas a piada adicional,

Adjacente (impossível revolver Bolaños

Y tão ao seco e no singular)

Sempre à mão, ideal, dada em dobro

Para a sempre referida, em bocas plurais,

–   Avoada, ali adiante proliferante

(uma só)  – 

Vida

         *  O cultuado escritor chileno Roberto Bolaño e o cômico Roberto Gómez Bolaños (intérprete do protagonista da série mexicana Chaves) criam, em extremo, uma correspondência entre literatura e tv no contexto latino-americano. Ambos são celebrados respectivamente, pela divulgação crescente de uma obra narrativa, tocada pela aura do culto (cada vez mais intensificada após o falecimento do autor) e pelo programa televisivo não mais transmitido, sempre homenageado em diferentes eventos (inclusive no Brasil) e reprises. A coincidência dos nomes e prenomes forma uma face dupla pelo contraste do humor popular tomado em relação à gravidade paródica de livros como 2666 e Una novelita lumpen. Um há muito falecido, e morto, o outro, bem depois.

                                (Ibid.: 224-226)

ROBERTO BOLAÑOS (“Chaves”)

LYN HEJINIAN (Projetos MY LIFE)

Em relação a Hejinian, não me interessava apenas glosar seu estilo e sua moldura gráfico-espacial no modo de formalizar seus Livros da Vida. A incrível poeta norte-americana me possibilitou um start – já tendo eu traduzido My Life – para questões e proposições de linguagem-questão (aludo aqui ao ensaios dela em The Language of Inquiry) no contexto de 20 anos desde 2000.

Mesmo no campo teórico, tão importante para minha escrita, sem diferenciá-lo do empenho inventivo requerido na criação de poesia, não me atenho apenas a replicar pensadores, estudiosos, artistas em análise.

Em História(s) da Literatura, sob o signo de Godard em suas Histoire(s) du Cinéma, é meu intuito reconstelar o referencial do cineasta, trazendo outras autorias, diferentes literaturas, provindas do seu modo de fazer e historiografar cinema. Curiosamente, penso que sou godardiano no modo de seguir alguns de seus postulados e, também, na vertente que o diretor abre para a reinvenção de linguagens (entre as quais as do cinema, da literatura e da história). Mas acabo imprimindo – é o que acabo vendo, pensando a respeito – meu próprio modo de cortar, produzir linguagem, explicitamente desentranhado de uma específica esfera de escritos, estilos, artes.

A literatura revela ser, aliás, um espaço hiperdimensionado de autorias, assinaturas, enveredadas num labirinto de indagações/interpelações franqueado à experiência de cada autor. A maneira de trafegar esse universo ancestral, no entanto nunca findo, dado à mercê do devir, é que acaba por marcar o perfil dos itinerários, um a um.

Nesse ponto, escrever soa cada vez mais a meu ver como um traçado iniciático. Certamente, disposto a contar de existências, incursões pregressas (tal como se dá também na vida, recomposta de toda uma antecedência dos humanos já vividos).

O mais interessante de toda essa história está quando, a despeito de tudo que veio antes e não para de surgir, me ponho, com entusiasmo e entrega à momentaneidade, a “cantar”.

Sem saber a letra de cor.

A VOZ QUE ME ENTREVISTA

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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