POP – POESIA COMO MULHER LETRUX

Mauricio Salles Vasconcelos

Há muito tempo – talvez desde FULLGÁS (1984), de Marina, ou desde o primeiro dos Strokes, certamente a contar das faixas-ímãs de Rômulo Froes com Nuno Ramos no seu CD duplo impactante – não ouço nada tão robusto nos portais do pop (anti-diluição do recicle infindo de agora). Mais ainda: poesia através das notas de uma mulher (Leticia Novaes, chamada de Letrux escreve cadernos, publica livros, num zigue-zague que a música tonifica e dissemina).

Sim, LETRUX COMO MULHER GIRAFA, em 2023 (uma garota identificada por pretensos crueis coleguinhas da infância como Girafa dá seu giro extrahumanoide). Muda o modo de fazer música, ouvir disco. Poeta rara (como ainda Patti Smith e a australiana Courtney Barret) num Brasil da monovalência funcional e do insert corporativo guiado pela homogeneização midiática (das gincanas televisuais infinita aos nichos do literário empobrecidamente editorial-universitário-mercadológico).

Escrita (mulher, música atualizada em corpo de signos não estritamente discográficos) sobre os timbres da produção sonora. Juntamente com a voz coleante, algo trêmula, de Letrux – O chamado é ouvir esse disco nas plataformas, tornados platôs de uma nova época à altura dos sons que apontam para fora do confinamento urdido por vírus e pela criminalidade no lugar do político (Fake Governo cai gradativamente por Terra em suas órbitas feminizadas).

Letrux, Brasil de Novo, com música e letra potentes, num compósito que não vive de rostos e rastreios de tendências. A Girafa vira mulher das melhores em nosso terreno baldio, território de capitalizações indiscriminadas. De novo. A vida não passa de uma Aranha (assim está numa das faixas do disco volante/volátil/volitivo). Disco Animal para guardar o “seu” do “ser”, que não se lacra num sujeito egoico, estocador do mesmo.

Esfera de partículas cantantes. Repeat. Repeat.

Letrux na veia dos veios de um país blindado por comércio imperativo e autoficção tautológica. Arte feminiza, animaliza, anima. Desfaz nó cego do lugar comum feito norma (nossa prisão antropomórfica liberada por timbres viciados pelo natural fluxo de streamings ao alcance do mau gosto militarizado pela falsa sigla MPB, feito um partido poroso a todos os usos contramusicais, agrocomerciais, axés chapados nada axiais).

A vida volta a dançar. Outra volta em nome do prazer de escuta dum disco recém-lançado. Isso ainda existe e expande o dado de existir. Desde sempre, no Ar para o próximo assovio, batida mnemônica (algo incomum no tempo das reproduções tão somente técnicas de fazer discos e serializá-los na solidão dos sites/chats/sitiados espaços internalares).

Repeat. Repeat. De novo, o mais novo: música-letra-dança. Em sintonia com a interlocutora-iniciadora de Letrux, Marina Lima, calibrada por composições ao lado do irmão poeta e filósofo Antonio Cícero, em faixas sonoras tão instantâneas quanto imorredouras.

Uma canção – “Abelha” esplende, exorbita (faixa-imantação) – só emite o tempo de sua transmutação em som repercutido nos vários corpos humanos, os mais aleatórios. É o que acaba de passar para melhor rememorar-se em voz alheia. Até se lançar no ar dos tempos, quer dizer: presente disperso retornante. “Dentro do seu ouvido uma abelha disse um segredo,/mas segredo mesmo,/senão é falar pro vento”.

Repita. Ressitue. De novo, a poesia como letra-de-música.

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Autor: Kobo&Transistor

em sintonia com as artes e os diferentes campos de criação e conhecimento. sob o signo da História/História Cultural, da Política e da Filosofia em vertentes transdisciplinares. vivo é o interesse em mapear produções de variadas épocas para um diálogo com o presente, não pautado pelas valorações dispostas por imprensa/mercado/universidade. em tempo real, um ramal, um canal movido pela paixão de pensar, propor, celebrar o vigor e o vitalismo de uma época tão problemática quanto instigadora. a contrapelo do horror neonecroliberal infundido no Brasil e no Planeta. na linha-do-tempo, rede todo-dia. KOBO & TRANSISTOR

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