MIRADA POP: DESCORTINO E ATIVAÇÃO DA MEMÓRIA NO ROMANZINE DE VALÊNCIO XAVIER

Minha mãe morrendo e o menino mentido, de Valêncio Xavier, edição de 2001 composta por três novelas gráficas – Minha mãe morrendo, Menino mentido – Topologia da cidade por ele habitada e Menino mentido –, nos apresenta um panorama historiográfico composto por técnicas de colagem aprimoradas pelo autor desde os anos 1970.

Neste livro em questão, centrado na constituição da infância e na morte da mãe, o uso destas técnicas é potencializado com as tecnologias de edição/transmissão de textos e as mutações da escrita biográfica, decorrentes da constante simulação de guerras entre mídias e narrativas no contexto dos anos 1990 e 2000.

Valêncio Xavier e William Burroughs
Montage Sunglass

Memórias desencadeadas de refinadas montagens de imagens e grafias dos anos 1930-40, ligadas ao evento nuclear – morte da mãe – que será diferido pelo autor ao longo de sua obra, vêm potencializar o uso que William Burroughs deu à colagem nos anos 1960: como uma arma na guerra do tempo.

Espécies de romanzines, estes três-livrinhos-em-um deslocam as convencionalidades estabelecidas até então sobre escrita romanesca. Quebram hábitos e narrativas. Permitem que novas associações topográficas e temporais – entre textos e imagens coletados do passado – liberem o presente. O desoneram das normatizações estatuídas por uma completa estrangulação da vida em seu processo de tornar-se mercadoria.

Suas formas e procedimentos contrariam as aporias descritas por Mark Fisher em Realismo capitalista, como a de uma existência totalmente financeirizada, sem saída. Insurgem contra o sentimento agonístico – descrito pelo filósofo Fanco “Bifo” Berardi (Depois do futuro) – de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Contrapondo ao horror reinante, em sua missão de asfixiar o tempo e sugar nossos corpos, uma intensificação máxima da ação criadora.

Se “a era das técnicas midiáticas é também a era das guerras técnicas”, como afirma Friedrich Kittler, a pesquisa arqueológica e a escrita de romances gráficos, assim como concebidas por V.X., implementam um verdadeiro combate ao projeto de empobrecimento, expropriação, destruição cultural e existencial típico da história republicana no Brasil. Uma verdadeira agonística entre a vida humana e o capitalismo moderno.

O modo como o autor entrelaça memórias e imagens advindas da cultura pop em sua escrita testemunhal/ficcional, em uma alta voltagem erótica e especulativa, vem assombrar o tempo de agora. Pois seus romances funcionam como um dínamo de potencialidades temporais, um acervo de informações circuladas pelos meios de comunicação – anúncios e publicidades de jornal, filmes de infância, desenhos animados, histórias em quadrinho, programas de TV, etc. Estocam e propagam, em proporções variadas, blocos de sensações, sentimentos e sonhos coletivos que foram de uma certa forma apagados por diferentes regimes autoritários num passado recente. Governos necrofílicos que se configuram em três momentos diferentes da história do país – coincidida, obviamente, com a história de uma mundialização técnica: a virada das décadas 1930-40, 1960-70 e 1990-00.

Já em O mez da gripe, de 1981, Valêncio Xavier havia decupado a história brasileira nos anos da gripe espanhola (1918-19). O livro descortina sedimentos de memórias justapostas por imagens cadavéricas, slogans publicitários, notícias assombradas pela moral religiosa, pseudocientífica; decretos e boletins de governos manipuladores; depoimentos de sobrevivente, crônicas do hospício, histórias de um contexto em crise sanitária culminada com o fim da Primeira Guerra Mundial. O livro demonstra gradualmente que as tragédias do século XX foram suplantadas e esquecidas por um louco desejo social de transformar a vida em filme, lembrando-nos que este foi o século em que o cinema triunfou.

Com Minha mãe morrendo e o menino mentido, V.X. reconstitui relevos de uma infância não mais concebida como história privada, mas em fluxos coletivos libidinais tomados dos meios de comunicação em massa. O próprio título do romance, publicado primeiramente em 1996, Minha mãe morrendo, foi retirado de uma série polêmica de desenhos do modernista Flávio de Carvalho – traços macabros, feitos a carvão pelo artista no leito de morte de sua mãe, em 1947.

O narrador, ao mesmo tempo em que torna-se multidão, não restringe-se mais apenas à tarefa de escrever um enredo, contar uma história. Para produzir memórias, incumbe-se de pesquisas, desenvolve técnicas de arquivamento de épocas, monta cenas que abrigam diversas camadas de realidades. Arranja uma coleção de antiguidades que ganham tons futuristas em seu modo de organizá-las e apresentá-las.

Além de atender a um novo tipo de analfabetismo emergente nas décadas de sua produção – tal como Bifo sinaliza em Geração pós-alfa que as gerações das décadas de 1970 em diante, ou gerações videoeletrônicas, testemunham o desenvolvimento de uma cognição pós-alfabética, no sentido de que elas aprendem mais palavras das máquinas que das mães -, este livro tem muito a contribuir para um ano como este. Se tudo tende a simplificações aplainadoras, discussões e disputas entre doxas ideológico-identitárias, ao burburinho ininterrupto dos discursos hegemônicos subordinados à lógica desvitalizada do mercado eleitoral, Minha mãe morrendo apresenta um vasto monstruário de perspectivas abertas como janelas para o tempo.

Seu modo de convocar espectros os mais variados da história fornece ao romance uma complexa sequencialidade, pois são inúmeros os fios que se cruzam e disseminam instante a instante, plot a plot. A forte nostalgia de um futuro do passado que a leitura de suas páginas vem despertar no leitor, sem causa reconhecida, talvez forneça exemplos de que é possível enfrentar os infortúnios do presente contrapondo-lhes uma intensa presentificação da ação criadora. Algo minimamente conciliado com a abertura de novos territórios estéticos e existenciais, espaços alternativos de escrita e imaginação.

Começa-se por não aceitar o tempo como qualidade dada, mas algo passível de ser recombinado, reelaborado. Uma pequena e concentrada duração temporal expande em muitas siderações, inusuais ficções, por meio do livro. Objeto não-identificado, em formação, o livro é também o mapa – com grande variedade de canais subterrâneos – pelo qual transpomos, a cada época, as barragens do presente.

Tiago Cfer

Abaixo, algumas imagens de Minha mãe morrendo e o menino mentido:        

         

ARTES, POLÍTICAS (Épocas Subterrâneas)

         Este é um blog sobre histórias subterrâneas, a minha inclusive, cruzada com 2 filmes exponenciais, praticamente esquecidos (de certa forma, invisíveis, difíceis de exibição e acesso por download).

         Este é um blog que busca rever do apagamento certeiras ativações das artes até hoje impulsionadoras de um sentido vital. Na contracorrente do fácil calendário sucessivo das décadas sobre épocas (ao ponto de não se compreender a radical virada de um milênio para outro) –

         THE EDGE (Robert Kramer, 1967) e VIDA DE ARTISTA (Haroldo Marinho Barbosa, 1972).

A grande Tetê Medina, atriz de Vida de Artista e de peças como As moças e A China é Azul, presença marcante dos anos 1970

         O tempo passa e essas belas ficções centradas nas inquietudes políticas de mais de 50 anos se bifurcam no nosso presente.

         A militância encampada por várias frentes, em The Edge, traz uma radiografia do ativismo chegando ao cume de um projeto de extermínio do Presidente (o Comandante da Guerra do Vietnã). Tal como aqui teve vigência entre 2019-2023, o mandante de tantos crimes coletivos e privês.

         No longa nacional,  promove-se a posse da terra para formas novas de vida, balizadas por teses de Feuerbach e inserts de Oswald de Andrade.  Os planos da Terra vão se encaminhando num travelling, sem retorno, pelos descaminhos  da droga nos becos e nos sufocos existenciais desaguados nos túneis de um claustrofóbico Rio de Janeiro (antes de se tornar A Furna da Onça).

         Geografias e Genealogias ainda não encerradas. Trilhas que precisam ser conectadas com o mundo da informação, plugando o sedentarismo global internado/internalar e, ao mesmo tempo, incitando ações com a energia de virar o jogo político. Bem por trás e para lá das corporações, do fake informacional, da cultura opinativa montada em sistemas tautológicos de identidade e individualismo exibicionista.

         Não há como recuar da urgência em transformar canais, ramais de saberes à nossa volta em ações constantes para mutação de uma História não explicável pelos fluxos dos capitais autogeradores da produção de pobreza. Quando tudo está no LIMITE, na MARGEM (Kramer) e acentua a Vida Artista de cada ser vivo para esplender em plenitude. FILMES PARA SEREM (RE) VISTOS. EXISTÊNCIAS inseparáveis de um Trabalho Político Cotidiano.

Tite de Lemos, poeta contemporâneo fundamental, possuía bela voz sempre presente em locuções do cinema nacional. Em Vida de Artista, ele não só atua, mas deixa imprimir um off impactante, por meio de uma espécie de travelling vocal.

         Os 2 filmes ainda incitam a necessidade de eletrizar corpos e mentes. Através de um fio não rompido de busca e inteireza, para além da mecânica repetitiva do que está aí através do teatro das representações partidárias e das instituições identitárias. Eis o que eclode em THE EDGE e VIDA DE ARTISTA.

Robert Kramer, cineasta seminal em atividade dos anos 1960 a 1990, diretor do citado The Edge e dos extraordinários Ice e Milestones, entre incontáveis, importantes filmes.

Este é um blog centrado na captação de emergências criativas nas artes, nas áreas diversas de pensamento e política. Em diferentes, subterrâneas, entrecruzadas épocas, por aqui se disseminam. Só se for agora.

MSV

           

Tempo – Romance – Serialização

O texto de Tiago Cfer (veja-se postagem neste KOBO & TRANSISTOR) sobre Seriado, romance lançado em dezembro de 2021 pela Kotter, põe à mostra a rede de motivos que move a escrita literária, especialmente a narrativa, em tempos de serialização. Revela como o espaço romanesco hoje se renova, insuflado pelo poder de abarcamento pluritópico que as séries – em uma de suas fases áureas – imprimem e impactam no cotidiano de uma civilização techno.

Ao dispor da relação entre segmento e seguimento, o livro-seriado reelabora a teia multiforme de temas e tramas de uma época balizada pelo sentido neomilenar desde a eclosão do 11 de Setembro de 2001. Deixa assinalados a face de terror e o abalo dos propósitos tecnoglobais anunciados para uma era de transportes universais pelas webspheres guiados por fluxos amplificados de culturas e mutações sociais. Onde/quando a truculência econômica impera e homogeneiza os horizontes dos mundos.

O romance redesenha o universo da serialidade, situando o Brasil em voltagem mundializada. Erotiza, espacializa, refaz geografias da globalidade, dialogando a um só tempo com a mescla entre telenovela e seriado muito presente na atualidade, reinventando plots de Lost, Twilight Zone e Twin Peaks 2017.

Compreendida como arte da invenção de formas, arquitetura propositiva de enlaces renovadores entre espaço-tempo-personagem (um legado intensificado no século XX, ainda em vigor), a escrita do romance expõe sua força presentificadora ao recombinar referências as mais diferentes, envolvendo experiências, conceitos e contextos dessa nossa agônica hora.

SERIADO, romance de Mauricio Salles Vasconcelos. Editora Kotter.

FUROR LAMBOR VORAGEM VINAGRE

OSVALDO LAMBORGHINI, recém traduzido e editado em português – O Menino Proletário – 3 Narrativas (São Paulo, Ed. Córrego) -, é uma avalanche de invenção narrativa e instigação sexual. Não comportado a uma categoria simplesmente “orientada”, toca a androginia básica de todo ser. Invade corpos e logísticas comportamentais.

Só vejo similitude com tal audácia criativa em um filme nacional de Gustavo Vinagre – NOVA DUBAI – Onde as divisas entre as personae sociais e o desejo explodem para lá do registro homossex tomado de partida. Trata-se de um cinema, assim como a literatura do argentino exponencial – Lamborghini -, compreendido como descoberta e disseminação. Muda a instância do humano, ressitua os lugares da arte e do que há de estanque na conformação corporativa das autorias e das causas justas pessoais. Isso é Vivo, vira o jogo das adequações culturalistas insuportáveis da época do Bolsão do Bolso Mínimo. Nota – Há também tal disposição mobilizante de sexos em profusão na poética do português essencial José Emílio-Nelson. Tudo vibra no ar, nos corpos, sob a égide da mortantade organizada (Bolsete/Putin Europa Pocket). Viva a contraface do Vírus!

MSV

O menino proletário: 3 Narrativas, de Osvaldo Lamborghini. Trad. Mauricio Salles Vasconcelos e Pedro Magalia. São Paulo: Editora Córrego (Coleção Vírus), 2022

ROMANCE SERIAL/SIDERAL

Seriado, de Mauricio Salles Vasconcelos, apresenta um panorama de enfoques e procedimentos para a escrita do romance no presente milênio. Com a utilização de técnicas de transmissão em rede, vincula trama narrativa ao fluxo de imagens-de-mundo difundidas no universo da produção serial. O autor cartografa as dimensões existenciais de uma época marcada por eclosões de conflitos, crises globais e estilhaçamento de perspectivas coletivas desde o 11 de Setembro de 2001.

O projeto parte de uma narrativa em torno de um núcleo composto por mãe e filho na constituição de um romance familiar, parafraseando-se aqui a conceituação de Freud, não mais em termos tradicionais, mas numa outra vertente, passível de se definir como romance familiar sideral.

Mirna Amorim, “mãe que acabou sozinha em sua própria moradia”, desloca-se entre um espaço de confinamento no Brasil – apartamento onde vive instalada diante de uma televisão enquanto acompanha a telenovela Grande Shopping Veredas – e caminhadas urbanas movidas por sexo irrefreável. Jornalista idosa, desde um desentendimento há seis anos com o filho, Ismael A. B., ela não mais manteve contato com o rapaz, que vive e trabalha em Nova York como ator em séries.

A narrativa se localiza entre dois polos (Nova York e Rio de Janeiro) de uma América assolada com as reverberações do atentado às Torres Gêmeas. Do encontro de Mirna com Ismael num teatro em Nova York em dezembro de 2001 – momento em que o filho apresenta uma peça teatral sobre sua própria vida, Ator Principal, desencadeia-se uma sucessão de eventos narrativos marcados por dinâmicas e impasses comuns à vida globalizada: dissolução dos laços coletivos, dissensos no pacto eminentemente econômico a envolver diferentes territórios e culturas do planeta, acirrados com conflitos de toda ordem e a crise crescente do projeto transnacionalizado do capital.

Ganham a cena multidões de corpos e espectros de humanidade em fuga televisionada sem saída. As conflagrações desencadeadas com o 11 de Setembro surtem um clima de suspense infinito entre o que ocorre e o que é noticiado. Como bem apreendeu Baudrillard, “a não-guerra inaugura a inquietante familiaridade do terror”.

Em contraposição, não mais correspondendo a uma concepção padronizada de socialidade, emerge em Seriado uma sintonia planetária nômade, atravessada por fluxos migratórios, descentralizações, num andamento multitudinal incalculável, tendo o construto de pertencimento favorecido pela tecnologia como propulsor de contatos à longa distância.

O tempo real da vida multisseriada se apresenta em um conglomerado de povos e espaços em confronto, assim como figura o bairro nova-iorquino da última série em que Ismael atuou: Game – Forum –Zero. “Golfo” é o nome de uma espécie de zona extraterritorial dentro da metrópole; ou “Globo – Glomus (Aglomeração rebaixada a uma sobrevivência mantida por refugos, recolhas de real adulterado, subvalorado)”.

A contar das constelações de sentido que vibram nos territórios os mais culturalmente diversificados no contexto da mundialização, o romance enquanto proposta serial/sideral ganha a consistência de uma multiplicidade de signos projetados entre as distâncias e as temporalidades, entre céus e terras. Trilha a vertente de uma cosmopoiesis – que vem também a ser uma cosmopolítica.

Um cruzamento de prismas se intensifica em várias esferas de conhecimento e subjetividade através de configurações expandidas de estar-no-mundo hoje. A narrativa em trânsito sinaliza processos de individuação das personagens que ganham corpo em um amplo horizonte de espaços heterogêneos, superpovoados. “No lugar de uma receptora de mensagens de áudio e espectadora de imagens (ao fim da existência), a dinâmica serial explicita o novo campo de produção alcançado pelo formato fração/fragmento”, assim expõe um personagem do livro, analista do boom dos seriados na atualidade.

De um enredo nuclear, S. Vasconcelos implementa uma história multimodal e serializada: as vidas de mãe e filho, emaranhadas a sistemas de informação, impelidas pela história virótica de povos em guerra e dispersão sobre a terra. Isso se dá sob a marcação do tempo do desastre, matriz grau zero que se extremiza na sequência dos anos desde o início do milênio. Assim, cada fragmento de Seriado, cada plot concentra um intrincado jogo de antagonismos e enlaces – a figura da mãe, por exemplo, irá se deflagrar em uma personagem que aos poucos constitui a ideia de uma anti-matriz –, de modo que o desdobramento da trama ganha uma força eletrizante característica dos thrillers tão comuns ao universo serial.

A implicação de duas personagens absorvidas pelo mundo das séries – a mãe, enquanto assídua espectadora, e o filho, um atuante nessa vertente – acaba por fornecer elementos para que uma história doméstica exponha-se em consonância com a serialização, hoje onipresente na vida cotidiana, de uma cultura digitalizada e regida por fluxos audiovisuais. Interferentes em diferentes esferas, inclusive no campo da narrativa literária. “O dado familiar capaz de converter em laboratório subsequente noite após noite (formato-episódio) a radiação de um fluxograma – / De um lado, escorre a comunicação corrente-universal sob forma de deliberada fantasia, tendo na outra ponta a fiação brutal do Coletivo Cotidiano Ao Vivo.”

Assim, Seriado demonstra que a escrita de romance é capaz de recriar trilhas para o audiovisual e diversos modos de arte, inclusive a literatura, quando levada a um dimensionamento tecnonarracional em sintonia com a grande disseminação de streamings. A contar de sua proposição como romance serial, também sideral por força de seus pontos conexos em expansão, o livro de Mauricio Salles Vasconcelos restitui à existência humana uma familiaridade inédita. Algo que se experimenta no corpo a corpo com o mundo em sua variedade de dispositivos tecnológicos e disposições comportamentais ocorridas em tempo real, na vertigem de um incessante fluxo de relações e renovações narrativas.

Tiago Cfer é pesquisador e escritor. Prepara a edição de seu ensaio Desabrigo-Mundo – Narrativa Século XXI e do romance Gradiente Spectrum.
        

Seriado, de Mauricio Salles Vasconcelos
 Editora Kotter, 2021

SEXO/SOMBRA: a erotização do mundo

 

 

                                                 Anderson Lucarezi

 

CLIQUE DA CLAQUETE: No turbulento 2019, a escrita-em-urgência de Mauricio Salles Vasconcelos realizou mais um afluxo proteico (Proteu / proteína) cuja preamar recebeu o nome Sexo/Sombra. O livro expressa aquilo que considera premente nos nossos dias: a expansão de uma sensibilidade que, indo além do mero elogio das miríades de perspectivas sexuais, aponta para uma erotização ampla do mundo, também no sentido simbólico; polinização de possibilidades para matizar o panorama, fraturar os discursos hegemônicos, muitas vezes esterilizantes.

Perante um contexto no qual o posicionamento oficial do país defende generalizações violentas – menina veste rosa e menino veste azul ou Deus acima de todos –, Mauricio responde com vigor vitalista e artístico, o que se evidencia em suas performances baseadas no livro e, principalmente, na forma de sua escritura, paratática, fraturada, não alinhada à lógica corrente e unívoca.

 

 

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Um dos procedimentos formais de ruptura com os discursos imperantes: a tessitura de uma sintaxe pautada menos pela subordinação do que pela coordenação e pela parataxe, recursos sintáticos, esses dois últimos, explorados por Mauricio desde seus primeiros livros.

Versos como “Subo o berço de trigo e mirra / A benzedeira pesquisa / não alcança meu rosto”, de Lembrança Arranhada, obra de 1980, ilustram o primeiro recurso sintático mencionado, isto é, a coordenação, a ordenação justaposta, em que, apesar da independência sintática, as orações estão semanticamente encadeadas. Já versos como “(…) máscara da palavra / Silenciada sob o som, peso-morto, pisca-pisca por Breu-Cruz: / 1000 Anos-Luz, Palavra-Peso, Imagem Avessa, Vida-Sem-Lavra”, de Ocidentes dum Sentimental, ou “Beijo das bocas – Adjacência – / Moral – Musical / Score – Do fim.”, de Sexo/Sombra, são experiências sintáticas mais radicais que tendem à parataxe, à não previsibilidade semântica.

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Myriam Ávila[1], estudiosa do assunto, defende: enquanto a coordenação corresponde – imageticamente – a um exército de soldados espaçados caminhando para um destino (semântico) comum, a parataxe poderia ser representada por pessoas compartilhando uma mesma rua, mas cada uma caminhando para um destino próprio. A leitura de Sexo/Sombra passa, como já mencionado, por casos de parataxe, inclusive por momentos em que ela se dá no nível macro, isto é, extrapolando o campo do poema e enveredando pelo campo do livro.

Alguns textos, ao mesmo tempo em que carregam algo de completo em si, não se entregam totalmente, adiando sua apreensão pelo leitor, jogando a suposta chave de leitura para o contínuo. Nesse sentido, um poema abre uma linha que só volta a ser fisgada em outro escrito, fazendo com que o livro pulse, à maneira de Gertrude Stein, como algo relacional em que os sentidos dos textos não estão neles próprios, isoladamente, mas na relação entre eles, isto é, nos fluxos e contrafluxos da escrita.

Iniciações – a parte – inicial – do livro, pauta-se – por esse – ritmo – ao mesmo – tempo – corrente e – contracorrente; poemas quase-crípticos cuja leitura sequenciada ilumina aquilo que aparece antes. Amostra disso é o último texto da seção, “Mira”, que dispara – “Desígnio do sexo // A ser testado mesmo depois / De todo fim / Como se fosse // Uma primeira vez” – versos que desanuviam a opacidade inicial do título da série, sugerindo todo sexo como uma iniciação, não no sentido virginal, mas no de uma busca da intensidade característica da vez primeira. Iluminam-se, a partir desse, trechos anteriores de poemas do grupo, como “assim agora // até o fim // repete-se ‘Até o fim’” ou “Chama-se sexo (senha a ser / Reincidida)”.

Paralela a esse anseio pela repetição, pela reincidência do sexo como forma de reviver um prazer original, a constatação de que não se é mais o mesmo após qualquer tipo de experiência, inclusive corpórea. Evidências: “(…) corpo que age    sob/sobre / O meu último eu”, “(…) logo mais / Ex” e “Da impossibilidade de qualquer repetição (…) // De uma repetição impossível / Qualquer”. Contrastam, então, esses obscurecimentos impressos no passado, ex-seres tornados outras coisas, com a luminosidade da chama sexual; claro-escuro que matiza o tema a que o livro se propõe, revelando que nem tudo é prazer. No entanto, se depois do sexo, a sombra, Iniciações dobra a aposta na erotização após / contra a treva, propõe um outro sexo, ainda que se almeje aquela mesma intensidade original. Botão de flor entre os escombros. Nascituros em meio à pandemia. Vida que segue. Novas possibilidades.

 

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Na segunda parte do livro, Libreto (três corpos), surgida a partir do corpo a corpo com Hilda Hilst, Tite de Lemos e Eduarda Dionísio, o caráter paratático da escritura se acentua. “Vivo o rolamento de todas as coisas”, linha de um dos poemas da seção, é a frase-encapsulamento da lógica-estética não hierarquizante proposta pelo livro. Ao longo dos escritos dessa e da parte final do livro, Beijos Públicos, o que se passa nas páginas é precisamente isso: rolagem – justaposição – sequenciamento; ritmo cinemático que reverbera (mas refratando inventivamente) referências do campo da não linearidade, da abertura a lógicas outras; um arco que vai de Rimbaud e Mallarmé até Charles Bernstein e Lyn Hejinian, passando pelas experiências, por exemplo, de Pablo Picassso, Getrude Stein, Décio Pignatari, Sergei Eisenstein, Mário Peixoto, Jean-Luc Godard, Júlio Bressane.

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A poética de Mauricio concretiza, então, toda uma rede de relações por meio do contato e do contraste de palavras e intertextos. Para isso, engendra uma forma-conceito que supera o “falar sobre”, muito comum na poesia contemporânea, e exerce uma ética composicional que, contrária à pretensão da univocidade, almeja a expansão erotizada do mundo, principalmente a partir do infinitesimal da parataxe, gameta-escritural.

Considerando que a sintaxe paratática, por assemelhar-se à lógica do pensamento oriental (evidenciado, por exemplo, pelos ideogramas chineses), indica uma relativização da lógica analítico-discursiva típica do Ocidente, pode-se dizer que seu uso é bastante coerente com a proposta de abertura à alteridade e de questionamento de discursos hegemônicos que os livros de Maurício propõem.

Essa contemplação da alteridade inclui, também, a descentralização, o deslocamento dos pontos de vista dos sujeitos. O primeiro poema de Sexo/Sombra já lida com tal questão ao enunciar “Viver sempre / Dar / O mais íntimo / O que não me pertence”, pois o não pertencimento daquilo que nos é mais íntimo caracteriza, em boa medida, um jogo de perspectivas que reconhece a realidade relacional da vida, ideia reforçada pelo poema seguinte, que diz “Verter o diário    corpo dual / ao mais vivo vírus / (o não-estar-em-um / nem durante    nem depois dois)”.

Outra forma de abordagem da alteridade se dá por meio da indefinição enunciativa de certos poemas. Em alguns momentos, os escritos do livro nublam a cara da voz emissora, isto é, não fica claro quem está enunciando aquelas palavras. O uso de verbos no infinitivo (como exemplificam os poemas citados no parágrafo anterior) é um dos recursos de despersonalização explorados pelo autor. Em outros casos, no entanto, há explicitação do pronome “eu”, mas isso não é suficiente para saber se quem está falando é a voz da experiência-testemunho pessoal do autor, se é um outro ser de linguagem ou, ainda, se o que ocorre é uma alternância de perspectivas. O uso, em alguns poemas, do itálico e de rubricas entre parênteses também contribui para esse enevoamento da voz emissora.

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Ao emaranhar os pontos de vista por meio de uma sintaxe aberta e eletrizada, o livro, dentro do tema geral a que se propõe, acaba por esboçar um horizonte no qual torna-se viável conceber ideias tais como a da feminização do homem, da masculinização da mulher, da homossexualização do heterossexual e da heterossexualização do homossexual, isto é, questões não assimiladas por nenhum dos espectros políticos de maior ressonância no panorama atual. Numa visada contemporânea singular, a obra de Mauricio repudia tanto o conservadorismo que não conserva quanto os falsos discursos progressistas, buscando, em vez da segmentação identitária, um sincretismo de entendimento, de empatia, mas nada pusilânime, visto que, capaz de assumir os olhos da fera, solta o rugido da onça – iauaretê – e afasta a noite, a sombra.

 

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Sexo/Sombra, de Mauricio Salles Vasconcelos. Lisboa: Traveller, 2019.

                    Anderson Lucarezi (São Paulo, 1987) é escritor, professor e tradutor. Publicou Réquiem (Ed. Patuá, 2012), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011, e Constelário (Ed. Patuá, 2016). Como tradutor, dedica-se a trazer para o português as obras de poetas norte-americanos como Hart Crane, Jerome Rothenberg, John Gould Fletcher, entre outros. Faz, atualmente, mestrado em Letras Estrangeiras e Tradução na Universidade de São Paulo.

 

Nota/Referência Bibliográfica

[1] ÁVILA, Myriam. Dupla consciência e parataxe como conceitos críticos. Remate de Males, 28(2), 2010, p. 189-196. disponível em:  https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8636300

 

 

 

DISCO DUBLÊ – ROMANCE DE TRANSFORMAÇÃO

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 ROMANCE DE TRANSFORMAÇÃO

DISCO DUBLÊ. Mauricio Salles Vasconcelos.

Editora Kotter:  238 ps. R$ 45,00.

 

Considerável para a arte de narrar é o modo como um autor coloca signos e figuras em movimento, a maneira como ele introduz personagens em um determinado espaço-tempo sem reincidir em suas funcionalidades, mas acionando o sentido jamais imóvel das coisas. Uma narrativa se faz enquanto diz algo feito um contradito.

Em Disco Dublê, romance lançado no segundo semestre de 2018 pela Kotter Editorial, Mauricio Salles Vasconcelos toma o universo do DJ – instrumentista entre maquinismos e multidões – como lugar de recepção de toda uma historiografia exorbitante, satelizada, extraterritorial, tal como vem emergindo desde a segunda metade do século XX uma marca não epocal em decurso e prolongamento no presente milênio.

“DJs são produtos sintetizados. Não chegam a ser mais do que: revérbero de desaparições e ressurgimentos” (p. 223).

Centrada nos anos de aprendizado e criação de Dario Amarante Vaz, DJ Vazante, a narrativa opera através da imagem do duplo/dublê, do DJ. Apesar da vida do narrador-personagem se estender por todo o romance, da juventude até os 60 anos, observa-se aí um dado curioso: sua percepção não determina a trama, vai sendo fiada e propagada por diferentes modos de relatar e arquivar provenientes de outros três narradores suplementares – Marcianita, “irmã de criação” e depositária de arquivos musicais e notas de Dario; Laureana (DJ Lollipop), única mulher com quem se relacionou e que marcaria seu percurso de DJ para sempre; Delta (Delano), menino skatista que passa por sua vida uma única vez.

SKAEssa manobra homodiegética ocorre num processo narrativo que distribui a história em samples diferidos dessas três matrizes (duas mulheres e uma criança/adolescente), o que proporciona um ritmo de música em loop ao romance. Algo capaz de combinar o cinema de Jean-Luc Godard à literatura do espanhol Agustín Fernandez Mallo numa cena/ambiência de música eletrônica.

O que aparentemente forneceria uma estrutura cronológica do personagem, passado (irmã), presente (mulher) e futuro (menino), a formar a unidade de um relato, apresenta-se então numa estrutura dissipativa articulada a outros repertórios – música eletrônica como eixo instrumental/conceptivo de uma bateria de forças e fontes de leitura do nosso tempo em convergência com as travessias geográficas da história de agora. Disco Dublê se aproxima à noção de transicionalidade, desenvolvida pelo teórico Jean Bessière em Romance contemporâneo ou a problematicidade do mundo, na proposição de um romance-música. Nele, DJ Vazante se vê, em pontos extremos do tempo e planos desnorteadores da identidade, confrontado com essas figuras (Marcianita, DJ Lollipop e Delano) que formam, assim, as personae reveladoras de uma história-de-vida. O protagonista não se limita à música e à posição noturna de operante-artista musical à distância, mas consigna um efeito de radiância ao romance que, ao invés de flagrar e se delimitar a uma vida, espraia em modulações de bio-relatos. Faz assim vibrar desaparecimento e morte num para sempre da matéria escrita (“um corpo morto não pára de atuar sobre o lugar onde bem acabou”, p. 196).

A pergunta para onde vai a música, alusiva talvez à questão blanchotiana por excelência (para onde vai a literatura?), funciona como indagação propulsora, dínamo do ato escritural em Disco Dublê.

Quais as maiores músicas da década, do século que está para acabar e já começa, de novo, como milênio? Eu pergunto na hora: Para onde é que vai a música depois que ela passa?” (p. 26).

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Com a figura de DJ Vazante, sombra errante (encoberta por capuz, óculos escuros e fones de ouvido) a deambular por diversas metrópoles do planeta, surge uma narrativa concebida como escrita de caminhada. A livre leitura feita por Mauricio S. Vasconcelos de Os devaneios de um caminhante solitário, de Rousseau, transformando rêverie em rave, aponta para uma mutação histórico-discursiva já notada por Derrida no início dos anos 1970: passagem do logos (razão) ao loxôs (obliquidade), da apropriação do mundo pelo entendimento à sua expropriação pela escuta. Justamente aí onde a temporalidade progressiva do romance de formação escande um romance de vida já formada, no irrompimento da velhice, capaz contudo de repensar formação sob a batida da transformação de uma época tecno, inevitavelmente atuante nos atos e no corpo do DJ.

“E, assim, o tempo se acresce como na sequência de um sentido sem­pre suplementar – querendo-se ou não através da continuidade (vitó­ria do capitalismo? voluta impensada, insondável, do próprio tempo a se dispor para além do que eu digo e vivo? e então passo a fazer soar como música de fim e de festa?)” (p. 78).

Realizando uma arqueologia da cultura audiovisual, entre máquinas e mídias, por universos como o do iPod, música eletrônica, cultura DJ, cinema, TV, serialização streaming, os livros de MSV – Stereo (2002), Ela não fuma mais maconha (2011), Moça em blazer xadrez (2013), Telenovela (2014), Meu Rádio (Coletivo Animal) (2016), Bráulio Pedroso (Novela da Noite) (2018) – compreendem o que examino e sinalizo como escritas do século XXI. Narrativas não mais encaminhadas a uma época histórica, mas implicadas numa liberação mesmo da história, na profusão de formas de vida/escrita, eras e Eros entrelaçados a um só tempo trans: Er@s.

Em Disco Dublê, a música no tempo atua amalgamando diversas manifestações artísticas e formas de pensamento eclodidas no século XX numa revivificação do ato de narrar. No livro são entrevistas proposições/situações em formulação de modos de vida disrompidos do tempo passado, capazes então de reinventar a convivência nas cidades planetárias marcadas pela explosão atômica, decomponíveis em performances urbanísticas movidas por fluxos libidinais, dispositivos pulsionais, conexões, trocas de energia, em uma passagem mais complexa do que se entende como duração de um dia e sua mutação num próximo dia. A cada página do romance, abrem-se os veios de uma nova/antiga vida deixando entrever a possibilidade abissal de uma outra profundidade de tempo, submetida a uma espécie de escavação arqueológica sob o andamento dos bits musicais.

Como se lê nas notas do skatista Delta (Delano), que recepciona os trajetos da existência do Dj Vazante, a história não pára de se transformar no(s) próximo(s) romance(s) em insurgimento no universo infinito da fabulação:

“Como se o dia passasse na sua contraface – contraefeito – da cons­telação maquinal onde me insiro e se inseminam as menores sensações de estar vivo (numa “época”, num certo lugar). E eu não pudesse perder mais o rastro externo – exorbitado, aéreo ou terreno (o que for, tudo num mesmo tempo) – quando/onde mais me sinalizo” (p. 122).

Tiago Cfer

 

 

 

 

 

 

 

 

@mauriciosallesvasconcelos

futebol           Em seu livro, Postar, Fabular, um intenso intercâmbio com meu Postar (Popstar) se enuncia. O autor de Disco Dublê (Kotter, Curitiba: 2018) aponta no livro citado o modo como o romance assinado por mim faz vir à tona as linhas cruzadas com o real e as ondas informacionais que se condensam, de uma certa/orbitante forma à maquínica web, mas estão viralizadas em vitrais/ramais por toda sorte de convivência, comporta/portal. De tal maneira que a bifurcação entre uma dita plugagem tecnoctrônica e um dito real (acachapante por força do período miliciano-militar vivido pelo Brasil desse agora) tenta por vezes se homogeneizar. Mas acontece, em contrapolos rebeldes a qualquer ética adestrada, um baralhamento salvador por ordem de um jogo nunca fechado na competição hegemônica do perde-ganha.

Está, aliás, na proliferação de imagens desdobradas de cartas, cartões-postais de uma remissiva realidade, sempre em busca e incessada continuidade, nosso modo de viver a fábula do mundo (como se fosse, era uma vez a moral de uma postagem).

Tudo o que insemina o espaço de um romance. São outros alinhamentos e espaçamentos aqueles contidos na página-in fabula.

Indispensáveis se mostram os chamados vindos off-line (do que se lê diretamente num entrecho-romance ao mesmo tempo percutido por uma consulta à tela-info). Situa-se em tal intermitência intervalante, o que pode se chamar de escrita. Até porque nunca se viveu antes sob um número transfinito de códigos em correspondência sempre vicária com as incontáveis criaturas interpostas ao Placar Realidade. Migrações enormes desnorteiam a conferência distrital das nacionalidades. Na autoaferição da sexy-identidade, já somos muitos copuláveis pontos de atração e imantada forma de desejar disseminada naquele encontro repousante de um eu com seu pretenso soberano vazio.

Lembro-me, num repente, da épica proposta por Hermann Broch. Através de um pesponto (exo-relato) simultaneamente advindo de Virgilio, assim como do século bélico passado e da atmosfera assoprada/assoviada por um canto anônimo popular aderido a  um jovem passante: rito-ritornelo como motivo da vida de todos; até o fim se enfrenta um escoamento/endereçamento perdido de visto e vista (súmula incapaz acerca de um sujeito). Assim é o q me parece a escrita em enveredamento no corpo de títulos sob a senha MSV. Meu modo de manter em colóquio com o maior interlocutor do que produzo com o nome-literatura é traduzí-lo: Movimento-Ser-Virtual.

Nossos livros nunca param de se entrelaçar. Há máquinas entre nós. Em extracampo de fomentações fabulares colhidas no continuum histórico-real inseparável do que somos distraidamente como pessoas, envolvidas com instantâneas questões (linhas de uma autoria firmada em capas de livros).

Quanto mais assino teti conrado (em outra ponta de real extremo-espaçotempo) Eu Mauricio Salles Vasconcelos.

ROMANCES – RODAPÉS – REMETENTES

Mauricio Salles Vasconcelos

“Procurem mostrar uma outra lógica que não é a da palavra (…) O mais importante são as coisas que as pessoas não sabem que vivem”

Esqueci-me do alguém da citação. Vem, contudo, do período crítico (mais do q clínico). As alamedas de Sanatorinhos se ramificam em casas baixas prestas a ser demolidas no Bairro Pinheiros, Capital de Glória na América Latina em Alta Retração do Revolvimento dos Seres. Evite usar a palavra Revolução de modo a escutar as mutantes linhas que sigo. Bifurco a área contaminada, sem deixar de contar sua existência, de mira no romance-de-vida feito só agora. Não dá para contar com adiamento, nem a meta num montante de visibilidade, aparições no mercado e número de gozos obtidos.

À maneira de rodapés consultados em compulsão, vejo as nervuras de que sou feito (evito declinações Gender e Gregarismos). Inervação-Paradoxo, estou no interior de um romance e logo corto a sequência onde pareço me entregar

Rodapé reincidente        “O Velho Psicanalista são seus

(Mais do que analisandos/visitantes)

São seus corredores e falhas nos tapetes tão floridos quanto poeirentos, cortinas tocam suas abas de ponta a ponta por força do obsedante vento. Ele está em causa, ladeado por seu mestre ancestral (retrato invisível posto contra as costas das visitas). Vai se tornando sala aquela lugar-exclusivo-expediente/ponto onde se rememora do modo mais solitário (o homem, o ouvinte).

Enquanto histórias se superpõem ante seus próprios olhos neutralizadores de qualquer risco de abismo e fantasia de fim”

Darei exatamente o título do romance a caminho: O Psicanalista (Fantasia de Fim)

Assim fico liberada para dizer de segundo a segundo meu próximo sexo. O que contém um segredo (não o “segredinho sujo” expropriado até à expulsão, por Mr. D. H. Lawrence)

Acontece que um livro, depois de editado, não libera ninguém. A partir daí é q começam a jorrar os dados nada duais. Fazem trípicle sequência sobre o sexteto ladeado de um mero jogo-de-azar. O Asaro. Tudo que fala azara alguém. Isto é o livro e o sequente acontecimento a envolver uma autoria. Principalmente no esquadrinhado escopo da Cultura-Romance. “Há que se obter uma ética da sedução”. Para lá das urdiduras de Mme de La Fayette e do tramado de dor/história nos picos do desespero em M. Duras ou Maura L. Cançado.

Cada vez acredito no que se configura no papel. Não sou o centro dos lançamentos. O suporte branco caderno tela-abscissa recria minha pretensa história-de-vida. Vamos dizer, Teti Conrado.  – Aceite o lado/dado –  Vamos dizê-la.

ELECTRO SELF – RUAS E GRAFITES

 

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A proposição e a presença do Corpo Elétrico, em Walt Whitman (tal como radia Song of Myself/Canção de Mim Mesmo), viabilizam uma nascente focagem no ato de notar, no senso de notação, ao compasso de uma escrita eletrificada com nossa era regida por high technology e mediações em todas as órbitas cotidianas. Notação em vez de anotação. Um surgente veio produzido sob o influxo de respostas imediatas, engrenagem sensório-maquinal, próprio de criaturas cercadas por fiações não apenas tecnificadas, uma vez que o corpo sempre diz do pulsional, instigado como nunca por instâncias de instante/imanente época em um irreversível chamado. É um corpo q está sendo tocado, neste livro-poema-página (a leitura impactante de Ana C. César à volta de WW permanece).ana

Ao contrário do culto às selfies, em correspondência com os selves incidentes em projetos de escrita concebidos como uma hiperrepetida “autoficção”, quando não biorrelato ou, nos termos mais instigantes lançados por Foucault, uma escrita de si emerge, ao andamento de um cuidado de si, de um trabalho do corpo (em equivalência, certamente, com bodies of work, propulsionados por Kathy Acker). Algo mais próximo de uma vertente documental. Ou seja, para fora do sujeito, a dimensão em primeira pessoa se torna campo de virtualizações. Mostra-se como ativação/ativismo de uma sonda afinada com o que rola no mondo machina e todos os offs (line/alineas/alinhamentos identitários).

O que se escreve está tomado por fora. Vê-se numa ambiência em mutação. Ninguém se encontra sozinho, ancorado no princípio cada vez mais segregador e institucionalizado de um lugar (ponto fixo/prato-feito) de fala. Evidentemente, há que se construir para si um corpo (sem órgãos, ao modo deleuzo-guattariano desdobrado do Cruel Teatro Artaud ou o visionário polo de desregramentos, antevisto pela Carta-Rimbaud). Uma individuação se ergue contra todos os aninhamentos/anichamentos em tendências já corporativadas.      k a

Vem daí a eletrificação do corpo – desejoso de muitos, raiado/gozoso a ponto de inexistir uma única orientação para sexo, deixando de haver demarcação nesse sentido. Troca-troca da Infância, já enunciava Roberto Piva. Sim, porque a fala é uma enunciação coletiva, sempre em gradação disparada por muitos focos ardentes de um a outro. Bem fora da pavimentação de industrialização-urbanismo-democracia modernos, Whitman podia clamar A Canção de Si Por Si. Para além de si. Justo quando despontam ruas (na dimensão multitudinal irrecusável, intermitente, assim como lidamos com “milhões de amigos” nos recantos do postcard-livro de faces). Ruas e grafites. Somos lidos pelos que passam à altura da tecnificação dos mundos. Tudo o que pulsa no meu “pequeno eu” (lido/lindo poema de Ginsberg em consonância com o “eu menor” pensado por Laymert Garcia dos Santos, em “A experiência da agonia”, no contrapolo ao Grande Eu da Cultura).

Sim, o eu da cultura-selfie (nas postagens e nos projetos de livros) pode se tornar um hegemônico gordo repositório de reiterações anti-desejantes. O gozo da descoberta de si se paralisa, caso a escrita não saia da soberania de um sujeito autoposto. Por enquanto, eu assino meu nome como Teti Conrado. Encontro-me em diálogo com quem vier. Porque este texto é uma postagem. Encontra-se dentro de um álbum (tão volante quanto volitivo). Assim como se trata de uma página de livro. À gradação do grafite lido agora. Exatamente, na rua onde todos nós moramos.