Entrevista Teti Conrado entrevista teticonrado

            Tudo o que não disse depois que a entrevista acaba.

Volto ao arquivo, encaminhado pela repórter, fazendo checagem com o texto final da revista on-line: para verificar o desejo de réplica (sempre tardia).

– O que significam Bandos de Blogs Móveis em seu romance Postar (Popstar)? Indicam método de trabalho?

Ah, a resposta vem horas depois. Num repente, muitos anos rolaram e a articulação definitiva surge na sequência do que não é mais pergunta, porém um embate contínuo (deixa de haver o rosto da jornalista Corinna Telêmaco à minha frente, boca suspensa à espera do que tenho a dizer).

Na real, minha produção tem um vínculo forte com a peça O Sintoma – Por uma vida sexual irrefreável  (encenada em 2018, no Quinto dos Infernos, SP). No momento da abertura, sempre referendado ao longo do espetáculo muito breve, o ator Cosmo Cassiel ao reviver Leopold Bloom (Ulysses, de James Joyce) através da leitura feita por Lacan, em seu texto “O sintoma”, deixa exposto o inviável bate-pronto à questão, o confronto de toda uma vida resumido em pergunta-enquete-esquete da voz de alguém. Mesmo uma autora é um alguém em sondagem interminada. “O texto da resposta a uma obsedante entrevista/interface está pronto, só se dando no entanto em outro momento, outro espaço. Bem quando a questão acoplada à criatura que a lança, ela/questão não mais são recorríveis”.

O debate agora é só comigo. Blocos-Móbiles. Tudo surge do meu contato frequente com a pessoa e a escrita de MSV (Mauricio Salles Vasconcelos). Sendo sua amiga ao longo de décadas (muitos meses a mais devem ser considerados na formação de uma outra época, o que leva à outra contagem de seres e seleções de tempo), fui notando uma convergência incrível de interesses, motivos em troca acelerada, ao ponto de me pôr a escrever. Muitas vezes tocada por um lastro de parágrafo, outras pelo movimento de sua livre leitura (Mauricio gosta de ler para mim o que acaba de ser inscrito); tarde da noite emendada em outra tarde. A digitação de tudo em pauta entre nós foi meu primeiro relance. Bem depois passei a responder a algo extraído de mim numa originalidade nunca antes percebida. Curiosamente, uma primeira emissão singular (por escrito) tem noção de que o diálogo com aquele homem, ainda amigo, fica à distância. Embora seja meu primeiro leitor (ainda que não leia efetivamente o que escrevo; tantas vezes se impõe o silêncio).

Na peça escrita por ele – a citada O Sintoma –, desentranhada de Joyce/Lacan, perceptível se mostra o fato de que chega-se a um estado em que o escrito passa a nos ver. Ganha um corpo autônomo espraiado em coisas outras (ditas, vistas ou irrompidas num repentino quadro destituído de cifragem). Aí é que existem os Blocos Móveis – tudo o que dizemos nos circuitos de blogs e mensagens-boxes pretensamente encriptadas para amigos distantes ou próximos ao abrigo da Rede –

o sintoma         – Esse complemento (transcrito agora “à guisa de parágrafo”) se revela imprescindível, Corinna Telêmaco. E você não está aqui. Eu mesma já me tornei outra pessoa. A resposta à questão-entrevista certamente surgirá em outro molde, nova matriz. Acontece que não é uma resposta, nem diz mais respeito a mim.

 

 

A ARTE DOS E-MAILS NÃO RESPONDIDOS

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A arte dos e-mails não respondidos

Teti Conrado

Projeta-se sobre mim o artigo de Jonathan Frazer sobre o uso e a conversação dos celulares, tranposto com muitos adendos para a universália on-line. O que mais pauta, pontua, estar em sintonia com inumeráveis muitos diz respeito a contato/corte no interior de uma charada referente a e-mails não respondidos.

Frazer aponta para a entronização da “vidinha”, o texto íntimo replicante pelo apelo mais primário (leia-se “Amor sem pudor”) – coisas do coração, listas de compras e obviedades sob o autocomando fático (retome-se Jakobson). “Eu estou no aparelho móvel”, eis o que gritam os cels por cima de qualquer urgência e despontamento real de um chamado mobilizador. Antes de tudo, dobra-se o lugar-comum e não o comum/comunal possível de perpassar as tecnologias de som-imagem-palavra.

“Eu estou na outra ponta de um contato tão extenso quanto intimizado”. Nada importa que seja dito na esfera das correspondências virtuais. De novo, se repõe a encruzilhada autorreplicadora do dispositivo técnico. Acima da interveniência particular de quem se lança à conversa, ao colóquio, a qualquer espécie de apelo.

A dimensão orbitante, onisciente, de uma sintonia presente, sempre em aberto, conta com o apagamento, a ruptura do outro dialogante. A máquina passa a se comunicar sozinha sobre as emergências. É um fator-comunicação levado à sua própria falácia (com alguém ao acaso, “você mesmo” pelo meio).

Vive-se arte da incompletude quanto mais as distâncias se contraem dentro de um circuito aparente de pessoalidade. Trata-se de completar antes de tudo o vácuo formado posto à beira de um interpelante capaz de atribuir sua ausência por conta dos limites comunicantes disponibilizados.

Pode ser caso de excesso de mensagens, algum erro não comunicado, mas o humano está em causa nesse pico oferecido pela ordenação de mensagens imediatas e pelo não-dito implícito que conduz a uma arte, combinada com meditação, autoaprendizado, relativa à impossibilidade da presença. Ao tempo da mais alta tecnologia, há um contorno impreenchível, relacionado ao trabalho de ser vivo atuante para fora da pendência instrumental, da carência fomentada pelos amados objetos falantes, dotados de transparente visualização e aferição de dados (“tudo o que é seu, sou seu, amor impossível”).

Existe algo impossível de ser recoberto quando se emite o limite-humano acima da fábula maquinal ao fundo – abismo do fora – momento suspenso: não-estar à altura da hora que passa (essa direcionada, no intervalo de crescentes alheios ao nosso dispor/dispositivo, apenas “para mim”).

 

 

 

 

CALOR CLARICE

    Tudo faz coincidir com o pior momento da história (não faço crônica, nem deixo de sair de um coma, intraduzível mal-estar referente a Crise/Palavra-Insígnia da segregação operante a se perder de conta): calor, domingo em desvalia (quando os dias úteis acabam), inexistência de elo comum. (Até pouco antes, eu tentei separar solidão e solitude, para benefício do ente abandonado por si mesmo, tornado força agora então).

   Revela-se falsa a luz eterna/internáutica. Quando um sol abarca, abrasa em seu toque incompleto o senso de abrigo. Ninguém se encontra à distância, porque ultramediado; põe-se inevitavelmente à mostra, cubo-apt sempre exterior a um palmo arquitetônico de olho íntimo e conjunto/conglomerado pós-humanista. Extrapolo. Algo incapaz de ser visto de um único dentro/centro. Mesmo o tal aludido sol igual à vida não reserva trégua, incabível em si, clarice (o nome-autoria de língua portuguesa mais lido em radiação-tela).

    Calor Clarice conduzido entre não-respiração e o fôlego meditativo. Através do que vem da rua/Incrivelmente, do plano em que o olhar desolado quer pousar para encontro de um solo negativo e propagador do incontrolável desespero quanto há mais gente de um modo bem intrigante gente vinda de tudo que é parte. Não é Parada. Nada para. Sem-Razão (à vista/ausência de festa/comunidade). A estação vira num repente, expulsa a possibilidade de harmonia, de um ponto a outro tudo empedra (ninguém escapa ao casulo contrassolar, metafísico ventilador).

   Superpopuloso clima – braços cruzados por sobre a janela – um vidro (aro quebradiço). Estou sempre pronta para a guerra (minúscula, involuntária, incessante).

   Vem da rua – o mal (o que não deve ser dito, toda palavra se transforma enquanto há senso, quero dizer corpo) – Vem da menor falha movida pela estratosfera, um único corpo tombado sobre a hiperpovoação –

   De onde se radia de um modo igual quando mira-se o céu aguçado por desastre ecumênico, ecosófico –

   Onda cálida catalisadora do que abstrai e abasta o em-volta (sufoco para cada palavra emitida por humano em saturação de calor, seu extremo). A intervenção cirúrgica de quem escreve em trespasse para ser lida em volta de todos, Clarice tal qual o calor/as datas batem/as motivações se tocam, estão na crista

   Domingo Maldito) – Assim, ela definiu, com base no filme polissêmico do sexo à deriva rodado por John Schlesinger – a ronda entre ap e botequim (living forrado de imagens diagonais modernas não impede a busca de Comprimido Melhoral, Coca-Cola, Cigarro Minister, no estabelecimento ao pé do prédio) – O calor fusionado com o dia abstruso ao grau máximo da História em seguimento e toque regressivo, numa só tacada, se torna a meditação crucial de gente/giro da hora (gente significa exatamente giro da hora, friso, depois passo a me entender e esquecer) –

   Circuito direcionado, nos menores atos, ao postante receptor tão vivo quanto distante/Assim, a subsistência como quem se apresenta nos grids-diagramas de uma postagem/Vidro-janela visto ao longe, reconhecivelmente há ao fim de tudo um habitante da solidão-cidade em certa época: rasgo do entrevisto horizonte lá no mais alto edifício, rachadura sol no auge refrata

   O calor vem de mim.

                                           M A R I   S O A R E S   V A R E L O

Surtos Shoppings Sitiados – Depois do Sexy?

Mauricio Salles Vasconcelos

Desde a dissolução dos emos[1], concentrados em São Paulo (Brasil), na virada da Avenida Paulista com Rua Augusta (rumo ao Centro), não se via uma tão efetiva/afectual marca de pertença. Não há nome para definir tantas pessoas reunidas, reencontradas à volta de alguns, obsedantes, sinais. Quem sabe? Mais do que surto: uma surgência.

Uma talagada da bebida exibidamente barata ou cavalgada de coisas reunidas num só átimo sobre passantes que voltam a se sentar naquele lugar: um canto do mundo à beira da maior metrópole latino-americana. Esquina exageradamente ocupada (por nada, noema, no ver de um alado anúncio).

Muito tempo depois da desaparição dos emos, tudo o que se ouvia sob um toque desesperado de balada (de algo como que ouvido antes, porém insistente, maquinalmente assimilado). Ao ouvido singular, indevassável (I-pod, iterativo sistema, aparato apreensível somente do lado-de-fora).

A palavra “balada”, aliás, começou a se impor (para qualquer evento/”escapadela” noturna) num misto de música direta – embora nada facilmente etiquetável –, vinda de uma deliberada marcação eletrônica, cheia de efeitos, porém gritada por um emocional corte de voz (hábil em ser repetida, viciado cantarolar) sem direcionamento. Onde todo mundo pode entrar. Qualquer pessoa pode vir e se acercar do amontado último de grupo. A música se revela tão-somente um aglomerado, capturável exteriormente.

Em certo momento, é um shopping-center não tão novo que volta a agrupar ex-gregários. Inicialmente, parecia ali se arregimentar um polo de liberação gay no masculino. Os gajos podem, desde então, se beijar na boca à luz do Frei Caneca Store. Mãos dadas, compras juntas familiares. Vez ou outra um rasgo de pele de onça subia pela coxa até a alma superpintada dos travestimentos.

Muita arte passa a se desdobrar a partir dessa hora. Alguns reconhecíveis atores – Off-Broadway paulistana – compõem a frequência (todos vindos de montagens hipertextuais, multimidiáticas mesclagens entremeadas de depoimentos sobre a “vida íntima”). O point homo continua firme, suplementado por novas proliferações. Há uma linha vital, vibrante pelo baralhamento, até estranhar as posições estatísticas, demarcadamente identitárias, as divisas entre sexo, momento e modos de vida sob os mais desregrados arranjos. Entranha povoação de sexo para todos – depois do simplesmente sexy.

Para onde foram os emos?

Para onde foi a música? (Atualizando-se aqui a indagação de Alice/L.Carroll acerca da luz da vela e seu rastro após ser apagada).

Tudo se acopla – Não há divisória – após a disseminação gay – A cidade, o momento, o mundo tomados por homossexualismos.

Tudo continua, a contar do shopping, passando a ganhar uma trilha apontada para a esquina mais abaixo, na beira da Avenida principal da cidade de São Paulo. Justo por onde cruzaram e criaram pouso, um dia, os chamados emos, entre o dito pejorativo e a replicação de uma série de seres quase iguais.

Tudo parece ressituar um escrito-de-força como aquele de Paul B. Preciado (desentranhado do testo/texto/sexo de Beatriz Preciado) acerca da máxima de Deleuze, leitor de Proust: “A homossexualidade é a verdade do amor”.

Não à toa, o Manifesto Contrassexual (editado no Brasil com a presença da autora/autor no lançamento e em outros eventos) circula nas mãos de muita gente.  Como se lê diretamente das linhas de Preciado (transformado em Paul B) através da voz de muitos passantes pela megalópole-Brasil: transversalidade/transdisciplinaridade é coeva da experimentalidade-transgeneração dos sexos.

Em Testo Junkie, uma combinação, muito bem conduzida, de ensaio multidisciplinar e romance expõe o idílio de B. P. P com a autora francesa Virginie Despentes, consolidado numa relação mantida até o dia de hoje. Traz como pulsação básica o entendimento de que o desejo é homossexual em sua origem.

Os textos do Manifesto de Paul B. soam como canto dessa hora que passa e extravasa no rumo dos segundos de todos. Relatam o conto do estado sempre nascente dos sexos a partir da passagem pelo ponto em que o devir (a dinâmica temporal do humano) se apreende como a própria imagem da sexualidade. Trata-se de uma cópula-matriz feita “por trás”, a fecundar uma polissemia de estados que alude à “enrabada”, ao “arrombamento” como concepção.

Deleuze/Proust/Preciado propiciam um veio de interligações no qual o Ânus Solar de Bataille se traduz enquanto Ânus Molecular tomado como princípio.

Fornecem, em tríade, um elo combinatório de forças em face de um fluxo de signos incididos sobre os corpos e uma cidade. São Paulo é captada, aqui, como polo hipermotorizado, saturado, de um excesso demográfico e caos ambiental, por uma desmesura de humanos a pé e em automóveis a um ponto (in)desejável de convivência.

Curioso é perceber que uma certa história da sexualidade desenhada entre esquina de Avenida Paulista e Shopping sitiado/situado (como palco de encontros e experiências) volta a repercutir com um clamor de erotização mais declarada. Ao modo de um despercebido manifesto (depois da chamada Era dos Manifestos, modernamente configurada e analisada por um crítico como Arthur G. Danto), muito próximo àquele lançado pelo rastro dos emos.

Desde os “emocionais hardcore” reenvoltos pela indumentária em negro e o aparato da música.

É como se o lastro do homossexualismo visível, manifestado por todos os lados (a afirmar uma condição presente e um princípio, bem frisado por Paul B), sempre em vias de uma mais ampla legitimação, ganhasse um inesperado vigor disseminante para além de uma pontuação segmentada. Após um momento de ação legalizadora, sustentada pelo crivo tantas vezes institucionalizador de um modo de ser e sexualizar, propaga-se para lá do espaço fechado do Shopping-Sítio-Situ (compreensível como surto de performances homossexuais em um âmbito demarcado).

Passa a transitar nesse momento de um modo mais interferente (inerente a toda sexualidade), de volta àquela esquina urbana em que se anunciou (através da súbita passagem dos emos) uma espécie de marco da vida da cidade. Repotencializa-se esse lugar à beira/esquina (mais do que à margem). Pedra-base, que é, da concentração e apresentação das pessoas que fazem existir um locus, em um instante/átimo do tempo, no decurso de um fluxo vivo de signos irrepetíveis (ou melhor, repetíveis pela variação de seus componentes, a contar de elementos sempre constantes e outros em correlação, nutridos por uma contingência).

Contingência – Microssegundo de uma época, crivada pelo recrudescimento do terror fundamentalista. Em outro extremo, despontam as macro-operações ultramodernas da economia transnacionalizada, gestada por toda sorte de tráfico empresarial, envolvendo Estado e segmentos criminais corporativados (na criação de um outro, fundamento em emergência, não sustentado pelas ideologias milenares). Em todas as quadraturas planetárias, vige o signo englobante/planificador de um consenso econômico quanto aos modos de serem concebidas governança, gestão de corpos e bens em demarcados territórios (blocos geopolíticos).

No mesmo giro simultâneo da História (em sua finitude, reengenhada depois do fim da história) entendida como heterogênese de forças e planos de ser/saber/poder, uma relação seminal entre canto e conto repensa as formas de convivência e ocupação dos espaços pelo veio de um impossível, alterno, romance do tempo. Um outro “emocional”, como que criando uma propagação dos emos em homos (até então, atravessados por um empenho legalizador acerca de um dado libidinal de origem), deriva agora em sexualidade dos humanos a contar de tal compreensão –

Contrassenso do sexo possuído por detrás, pelo corpo integral, visto para fora de si (id/índice-silhueta móvel, em extensão). O que se passa em detrimento de uma apreensão frontal, da ordem monovalente advinda de uma projeção da ratio (num desdobramento das teses de David Wills, em Dorsality). O cérebro é a paródia do equador.

   O coito é a paródia do crime (Bataille, 1985: 12)

    Outro toque: pela dorsalidade, como marca conceptiva, propulsora de uma heterogenia incontornável. Entre esquina, shopping e os novos caminhantes das ruas de uma metrópole ao sul do continente americano hegemônico ante um desígnio planetário do (des) concerto das nações, entendido por suas marcas terrenas, finitas, porém pedestres. Entre solo e muitos, diferenciados, corpos em relação até o paroxismo de uma involuntária, porém potencial, megaconcentração urbana.

   – Merda, aqui não há uma explosão metafísica, sem uma outra, psicopatológica! (Rawet, 2004: 251)

Saturação e Aliança (São Paulo) – O sexo pelas mãos, de mão em mão (depois da tão vaga, voejante nominação “sexy” para o que aflui e atrai de modo genérico). O amor pelo coletivo passa pela liberação gay, que já atravessa a rua como a gênese da liberação de todos os sexos. Porque todos querem todos, indiscriminadamente (eis o embate dos vivos, entre a angst da mortalidade e celebração corpórea do indeterminado finito).

Os afetos ocorrem em um contexto traçado por gestos singulares a partir de padrões e suas variantes, incessantemente dispostos em encadeamento de contágios mútuos, proliferantes. “…emaranhado humano, ocorrendo por toda a parte e sempre sem fim” (Baldwin, 1967: 63).

Desde os primeiros beijos gays dados publicamente (sob o tag “emo”) até contar com a instalação, no âmbito-shopping, de um circuito de trocas e circulação de bens simbólicos, revela-se uma concomitante mutação nos corpos heterossexuais. Esquina/Shopping/Megalópole: um laboratório testado em backstage, tornado imanente abertura ao qualquer um do múltiplo visitado em cada corpo/narrativa sexo adentro. Quando se atravessa as amplas avenidas de uma certa cidade.

As diversificadas formas eróticas em convívio indireto, simultâneo, refeitas a partir da matriz modular proposta por Preciado, leitora do Proust deleuziano, agora esplendem no coração-capital.

(Soa outra badalada, balada da hora).

Filosofia em tráfego, vida pedestre plena, multitudinal, melodia no ar-do-tempo. Os sexos se intercambiam (segundo O Anti-Édipo, em culminação com “Da filosofia como arte (…) de dar o cu”, por Paulo Beatriz Preciado). São atos de partida e enlace sobre a velocidade moral dos seres em transposição de um a um, por arrombamento, por um original jato violado de

Esperma, rio, esgoto, blenorragia ou vaga de palavras que não se deixam codificar, libido demasiado fluida e demasiado viscosa: uma violência à sintaxe (…) o não-senso erigido em fluxo, plurivocidade que volta a adentrar todas as relações.

            (Deleuze e Guattari, 2010: 179-180)

[1] EMOS –  Num primeiro instante, passíveis de serem definidos como “emotional hardcore”, vibram pelo que excede, melodiza e externiza. Seres gerados por canções “pegajosas”, curiosamente hipereletrificadas, são elas/eles postos a caminhar numa série aparentemente desmotivada (por conta de uma imediata ausência de ideologia), porém reincidente. Ostentam rostos pintados sobre corpos paramentados de preto sobre o preto geral das vestimentas (em diálogo desbordado com a cidade cinza – SãoPauleira – do universo conhecido e cantarolável deste planeta).

corrente emo                                                                   M   S   V

Referências Bibliográficas:

BALDWIN, James. Giovanni. Trad. Affonso Blacheyre. Rio de Janeiro: Civilização Brasil, 1967.

BATAILLE, Georges. O Ânus Solar. Trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena, 1985.

CARROLL, Lewis. Obras escolhidas. Trad. Margarida Vale do Gato et al. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.

DANTO, Arthur G. Após o fim da arte – A arte contemporânea e os limites da História. Trad. Saulo Krieger. São Paulo: EDUSP, 2006.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. Trad. Luiz B.Orlandi. São Paulo: 34, 2010.

HALLEY, Janet e PARKER, Andrew (org). After Sex? On Writing Since Queer Theory. The South Atlantic Quarterly. n. 106:3. Verão 2007. Durham, Carolina do Norte, Duke University Press.

PRECIADO, Beatriz. Testo Junkie. Sex, Drugs, and Biopolitics in the Pharmacopornographic Era. Trad. Bruce Benderson. Nova York: The Feminist Press, 2013.

___________. Manifesto Contrassexual. Práticas subversivas de identidade sexual. Trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1, 2014.

RAWET, Samuel. Contos e novelas reunidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

WILLS, David. Dorsality. Thinking Back Through Technology and Politics. Minneapolis e Londres: University of Minnesota Press, 2008.

A Força do Queer

caroline duartet brant

      

A contar do seu título – através da dinâmica de um anagrama sob o toque de propagação inerente à sua problemática ficcional –, a atual Novela das Nove – programa reiterado ad infinitum feito pano-de-fundo da vida no Brasil (uma “instituição” midiática, como alguns frisam) –, A Força do Querer promove sua recepção como A Força do Queer.

Com a supressão de uma única letra (e o ingresso em outra língua), o jogo formado com o nome da novela não se lê apenas como uma gozadora, gozosa associação.  Desencadeia seus mais interessantes desdobramentos tendo como premissa o fator temático (constante das “linhas programáticas” de novelas e seriados, na incorporação dos efeitos de verismo e atualidade), tal como se evidencia no teledrama escrito por Glória Perez. Tudo o que se faz visualizar no debate acerca do transgênero propiciado pelo personagem Ivana/Ivan (Caroline Duarte) como também pelos atores Tarso Brant (no “papel” de si mesmo, Teresa/Tarso) e Maria Clara Spinelli (conhecida artista transsexual, intérprete de Miraceli, a secretária fake de um escritório de advocacia), integrantes do elenco, assim como se destaca na trama o travestismo de Nonato/Elis Miranda (Silvero Pereira). No entanto, ressalta-se o componente cross-gender por seu caráter de força, dado em um conjunto/campo, passível de se apreender através do desfile multitópico sempre apresentado pela novelista Perez (de um modo mais flagrante e, também, abrangente, a partir de O clone).

Ao alcance de um ponto em que querer não se dissocia do traço queer, ocorrem uma modulação e montagem narrativas capazes de expandir a compreensão insurgente e disseminadora da sexualidade no que envolve legibilidade/legitimidade em seu momento de projeção pública via TV, de sua ficcionalização como foco central. Queer quer dizer querer. Algo que pulsa muito além de um trocadilho de época (da época em que se passa a novela e, no futuro, poderá ser passível de servir como mera alusão paródica, “achatadora” de seus mais vivos elementos tematológicos, ao instante em que é transmitida, exatamente no ano de 2017, desde abril e com duração prevista até outubro/novembro).

O mais interessante na ambivalência de A força do querer, possível de ser entendida como A força do queer, está justamente na captação de um instante no tempo. Ganha relevo, de modo bem preciso e também pontual, o elemento característico da efemeridade da Telenovela, juntamente com seu poder de pregnância e captura de um decurso histórico de personae/figuras/elementos temáticos e culturais (de um modo serializado, cotidianizado, que nenhuma outra forma de arte e mídia realiza tão direta e flagrantemente, no interior de cada célula/casa/cabine de recepção noite a noite).

No momento em que a emergência da sexualidade em suas variantes trans se tornam mais e mais transparentes, apontando para diferentes formas de atuação no âmbito de estudos, espetáculos e eventos, a nova Novela das Nove centraliza tal enfoque numa derivação de prismas. Observável é a gradação (giro de sentido sobre um polo “temático”) que vai do luxo/luxúria do transformismo do motorista Nonato em Elis (Regina) Miranda (Carmen), à luz da diva-drag Jane di Castro, até tocar na angst da transição vivida por Ivana – com todo um tratamento sensível, intimista – na adoção da identidade de Ivan.

O sinal trans se revela com a dimensão possante de atravessamento – de modo a revelar o ultrassigno queer (que eu extraio do querer) como atributo polivalente das novas formas de sexualizar difundidas pela esfera crossing de modo mais explícito, patente.

Sob a imagem-coringa/palavra-passe/passe-partout da sexualidade, o Queer de todo Querer se faz deslizar sobre uma cadeia semiótica crescente, plurissignificativa dos diferentes planos inter-relacionados, intercambiantes, tomados pela afecção do que transita/traveste/transmuta. Enquanto cada um – dígito/índice de audiência – assiste à onipresente (em paroxismo e imantação simultâneos) Novela das Nove.

Passe-partout da socialidade – Passa-por-tudo o prefixo indicador de trajetória/transporte do querer. Não se separa mais do devir e da deriva de toda forma de sexo, indescartável, por sua vez, de uma travessia pela extensão do campo social.

Formulo aqui tais vertentes/variantes da transsexualidade com base no conceito de transdisciplinaridade concebido por Félix Guattari, desde os anos 1960 analista das novas formações psi, subjetivas, de gender, aos graus mais diversificadores das mutações dos campos das Ciências Humanas (e não só, quando se consideram suas inserções nos domínios da neurociência, genética, cibernética, física, entre outros). O co-autor de Mil Platôs já podia assinalar no desbravador O Anti-Édipo (ambos escritos ao lado de Deleuze) uma fonte produtora de formulações que ainda hoje percutem no universo contemporâneo de saber/sexo/ser:

          …cada um é bissexuado, cada um tem os dois sexos (…) E assim, o nível das combinações elementares, é preciso fazer intervir pelo menos dois homens e duas mulheres para constituir a multiplicidade na qual se estabelecem comunicações transversais, conexões de objetos parciais e de fluxos…   (Deleuze e Guattari, 2010: 97)

Partindo do estudo de La recherche du temps perdu, Deleuze podia lançar em Proust e os signos (em 1971, na segunda versão do livro) o ponto de seu encontro com Guattari, detonador de processos inovadores em várias esferas de conhecimento e acontecimento desde os 70. Quando incorpora o conceito de transversalidade proveniente do pensador da esquizoanálise, o filósofo não só transforma a análise do texto proustiano, como também a rota de seu itinerário disciplinar. E, ainda mais, fomenta nos âmbitos de cognição, arte, cultura, comportamento e sexualidade, uma chave poderosa de recomposição da origem, história e do horizonte sexuais, tal como se abre plenamente em nossa atualidade neomilenar, possível de ser lida no ativismo teórico de Beatriz/Paul Preciado.

Em seu ensaio “Da filosofia como modo superior de dar o cu”, a (o) escritora (o)/teórica (o) espanhol (a) deixa bem nítido o alcance de sua atuação enquanto transgender no universo dos “estudos da sexualidade”, alçando-os, no mesmo movimento investigativo, a uma desenvoltura especulativa capaz de redesenhar fronteiras filosóficas e o lugar tantas vezes estanque das matrizes literárias institucionalizadas como domínio soberano, pretensamente refratário à vida corrente/torrencial dos corpos e bens simbólicos em seus trajetos/cruzamentos tempos afora. O foco no conceito, proposto por Deleuze, de “homossexualidade molecular” – “materializada através de um coming-out que não se deixa reduzir nem à identidade nem à evidência das práticas” (Preciado, 2014: 173) – possibilita um debate/impasse da parte de Preciado, que muito contribui para as derivações do que se concebe como “hermafroditismo inicial” (nos termos deleuzeanos em torno de Proust) e se anuncia como “dissolução dos gêneros, o final do sexo como acoplamento de órgãos” (Ibid., 188).

Compreendida a homossexualidade como “a verdade do amor” (Proust Deleuze), a gênese de todo-sexo, o corte com o identitário em favor de uma homossexualidade-transversal acaba por irrigar o “arrombamento” da existência de todo ser – “uma espécie de enrabada [encoulage]”, frisa Preciado (Ibid., 192) – muito além da cópula/fecundação. Toma o primeiro plano um ataque-afectuação por detrás, ao modo de uma vida integral pela trilha da dorsalidade (como insemina David Wills, no essencial Dorsality). Desenrola-se a emergência, enfim, de um corpo integral em contrafluxo da ratio, em dissidência com o rosto/persona/espelhamento do humano cindido pela discursividade autotélica do nome/sexo próprios, de toda uma disposição insulada, segmentada, na simples assunção de uma identidade. Quando, depois das imprescindíveis marcações/afirmações históricas, no tempo presente as vivências todas se abrem para o desafio de manter a crista do desejo em alta, ao ritmo das flutuações sempre pluralistas, nascidas intermitantemente da erotização movida de um ponto a outro de um hibridismo de base.

Esperma, rio, esgoto, blenorragia ou vaga de palavras que não se deixam codificar, libido demasiado fluida e demasiado viscosa: uma violência à sintaxe (…) o não-senso erigido em fluxo, plurivocidade que volta a adentrar todas as relações.                                               (Deleuze e Guattari, 2010: 179-180)

A dinâmica da implosão dos gêneros, contextualizada pela fascinante incursão do psicanalista argentino Ernesto Sinatra ao mundo de L@s nuev@s adict@s, não se pode abster do lastro da feminização do mundo como norteamento dos modos de viver/fazer sexo em um longo processamento de muitas décadas, de um a outro século/milênio.

Uma vez dissolvido o lugar masculino – paterno, onipresente em outros espaços de poder conexos ao regime familiar, comandado por uma noção de ordem determinante – como norma regida pela interdição (a partir da blocagem das infindáveis combinações de gozo/parcerias), a contemporaneidade avulta pela sinalização do devir sob a forma-mulher.  Ao compasso das demoiselles en fleur, lembra-nos O Anti-Édipo em mais outra consonância proustiana. Impulsiona-nos o feminino em nascença, em afloramento festejante, um estado virgem definidor de todos os seres/sexos, em vez de ocupar um lugar apropriado, já acabado da marca femina sobre qualquer um/um a um. O devir-mulher desponta também para toda mulher.

Com o fim da família e do acoplamento/casal guiado por metas reprodutoras, as sexualidades (hetero/inter/través/trans) irrompem em um extracampo, lançado, entretanto, em infindável reconfiguração. Observável é o sinal incessante de um mais/um a mais/cada vez mais desempenho prazeroso, através de um chamado incansável de liberação/livre escolha. Hoje, invés da proibição do sexo, incita-se o acúmulo do gozo como regra. Por seu turno, nota-se como todas as formas/forças se confrontam com as dimensões capitaneadas pela adicção de um e sobre e – sejam os mercados, nas suas variadas segmentações, sejam as instituições (escolas, clínicas, espaços de saúde e saber com tratamentos os mais sofisticados, sustentados por discursos da sexologia) existentes por conta da afirmação do prazer. Ao infinito projetado por uma miríade de espelhos-fantasmas reveladores da reiteração de imagens hedonistas prévias, sem que se suprima o andamento de controle/consumo sobre os fluxos desejantes.

Parece não haver estado final e absoluto na trajetória das sexualidades através do que é torrencial e não se dá como simples corrente: entre muitos, cada vez mais diferentes outros em composição/contágio das mutações presentes (relacionais sempre, inexistindo, portanto, a defesa de um único front, em segmentação, como horizonte/vir-a-ser, dentro de um entendimento unilateral quando a implosão da ideia monolítica de sexo está em pauta e processo). Principalmente, quando a diversidade das orientações produz trocas entre si (transformam-se ao mesmo tempo, a despeito dos sinais a início de violência/resistência). Estão concebidas pelo andamento da transversalidade andrógina que funda cada/todo um em sua busca experimental, incessante.

Vida/história/conhecimento/acontecimento criam um verdadeiro cosmorama (há algo aí de fascínio natural e espetacular, a um só tempo) de instintos/impulsos/seduções/mediações, compreensível como campo-de-provas por onde séries e signos se apresentam inseparáveis dos apelos do desejo. Campo-de-provas em que se converte sempre o campo-de-forças  –  No sentido nietzscheano, relido na atualidade por Avital Ronell, apontando para contextos/quadraturas de poder/saber/controle nos quais se testificam e se tecnificam (por obra de disciplinarização e ordenamentos sistêmicos) as variadas/variáveis formas de existência e conhecimento. De tal modo que não há domínio/discurso imune a tal inserção político-epistêmica de transcurso/atravessamento, referente a qualquer desempenho/exercício de vida, no espaço/esquadrinhamento de um campo em exame/exposição. Tudo o que estria e também transvasa como experiência simultânea de prova e potência em interminável passagem.

 

                   Ivan Ivana e a(o)s outra(o)s

À maneira de súmula, poderia ser dito que assistimos no cotidiano de agora, em extensão à tela teledramática, as sexualidades em estado sempre nascente por conta da feminização do mundo (como conceituou Lacan o desejo na cultura, se alastrando para formações incisivas, pontuais, refiguradas na contemporaneidade por Avital Ronell e Ernesto Sinatra, em dois lados do continente americano).

Um contexto tornado alterno sob o signo feminizante – após demissão da soberania do pater famílias – tensiona-se entre conquista e captura. Os sinais legíveis/legitimáveis, envolvendo o queer/querer em alternância e fusão na Nova Novela das Nove, exibe simultaneamente uma quadratura da história das sexualidades em eclosão no nosso presente e o excesso de uma composição/combinatória dotada da sensibilidade de extravasar o componente queer como inapartável dos elos entre os diversificados modos de querer.

O constructo do continuum consolidado pelo grid programático da TV Nacional, por obra de uma sequencialização de fatos/fábulas intercalados a percorrer toda a faixa horária do dia/noite do tempo humano, reserva esse baralhamento de planos que a Novela no pico da audiência – meio da noite/retorno, recesso dos espectadores entre trabalho/lazer – produz, principalmente pelas mãos de Glória Perez. Em especial, quando percebemos que a telenovelista é uma experimentada condutora de um  verdadeiro Parque Temático (em suas vertentes/variantes do verdadeiro), munido de impacto (por ordem de verismo/visualização) e poder de introspecção  (em compasso com a recepção espectadora). Ao andamento intercambiante de estriamento e deslizamento das subjetividades, tomando em primeiro plano as derivações do queer com focagem na transição/transformação de gênero.

Interesssante se mostra seguir – “acompanhar a Novela”, como se fala popularmente (até o chiste de caminhão legendar “Não me acompanha que eu não sou Novela”) – a capacidade de A Força do Querer realizar a passagem de fluxos do desejo em tal pulsação mista de fluidez e configuração temática.

Conta, em seu empreendimento narrativo ao longo dos meses de uma transmissão diária, com a afirmação de instinto – plataforma das manifestações transgender/travestis e daquela relacionada ao híbrido Garota do litoral Norte/Sereia de Entretenimento-Empreendimento Aquário Natural no Centro-Sul do País – na organização de montagem/mostragem de um conjunto de ficções paralelas, tornadas coesas, coevas. Trânsitos geográficos em uma mesma nação, imprimindo modos de ser entendidos por um hibridismo irresolvível entre sereia/mulher (Ritinha por Isis Valverde) – gênese lendária por fecundação do boto amazônico – possibilitam um jogo, que ganha contorno de tema/questão como se materializa no personagem Silvana (Lília Cabral). Temos aí uma compulsiva Jogadora (a TV redesenha os personagens conceituais da Literatura) possuída pelo frenesi que dissolve pouco a pouco – na noite após noite de suas fugas para mesas de aposta – a fortuna familiar do grande empresário, que é seu marido, dilapidado gradativamente em seu obsessivo, monolítico, projeto de homo economicus.

juliana paes

Em meio à fábula da transição-gender, destaca-se Bibi – inspirada na história real de Fabiana Escobar, a Perigosa, a Baronesa do Pó –, uma jovem abismada nas promessas de ascensão social através da formação em Direito, atraída pouco a pouco pelo ganho (tão rápido quanto volátil)  que favorece o narcotráfico, a ponto de comandá-lo em um morro na vizinhança de sua casa classe-média como líder inteligente, plena de estratégia e estonteante sensualidade (personagem e atriz obtêm uma espécie de auge da mulher na TV, criando um marco para Juliana Paes, numa impressionante voltagem/voragem de atuação).  Por outro lado – em um extremo preciso -, intervém Jeiza (Paolla Oliveira), major da PM do Rio, faixa preta de jiu jitsu e lutadora de MMA. Perseguidora do tráfico, ela age contra a rota tomada por Bibi, desde que o marido desta se enveredou no narconegócio, demonstrando dureza, postura aguerrida nas posições profissionais e afetivas, no mesmo movimento em que insufla passionalidade na vivência de suas paixões heterossexuais.

Os personagens de Perez – não apenas os femininos, frise-se, quando se observam as gradações emocionais de Zeca e Rui, através de um elo que os liga desde a infância pelo fator do impulso/instinto (uma aventura pelas águas do Norte), chegando-se até Eugenio, em sua forma passiva de ser/viver/erotizar –  agem sob influência (lembrando-se o filme-chave de Cassavetes com a impactante Gena Rowlands) da “força do querer”. Algo que ocorre no interior da configuração queer desenhada pelo conjunto da Novela, inseminadora de uma redistribuição de papeis e atributos às outras sexualidades, em correlação de planos/plataformas temáticas em mútuo contato/contágio. Uma afetivação generalizada toma o espaço do melô telenovelesco sob um traçado decorrente de feminização e homoerotização. Importa pôr em foco – à altura dos olhos espectadores –  a potência metamórfica (tendo as mutações trans/cross como balizas) a enlaçar mulheres e homens da trama.

A Força do Querer é tudo – é isso e mais: um componente se acresce sob a ordem do dia tornado Noite da Novela que (se) segue. Agrega temas e pontos de confluência nos muitos núcleos em que se constitui para se emendar em mais outra novela (Novela/Narração é o que está sempre por vir). Um desenrolar de ficções, combinadas ao stream dos fatos vindos de telejornal (notícias, reportagens-espetáculos, incursões e maratonas desdobradas dos globais jornalismos) em uma continuada transmissão de imagens, viabiliza esse formato de ambivalência irresolvível –

Transição (dos afetos em seres/sexos, do psiquismo ante a realidade mediatizada), tráfico (de informação/poder/economia transnacional), tráfego (deambulação dos nômades do mundo globalizado, em trocas das mais altas às mais mendicantes esferas de desabrigo/ilegalidade) – não ao acaso, Ivana/Ivan e Nonato/Elis Miranda fazem trânsito pelas ruas à noite quando se debatem no impasse da afirmação trans/travestimento (chegam até mesmo se encontrar, num congraçamento, quando confrontados pela agressão dos passantes em face de suas posições hibridizadas, em desfile ao ar do tempo presente).

Justo, em um momento histórico tão conflitivo e denso como o de agora, desvirtuado para ordenações retroativas, descartadas do compromisso com a vida social sob orbitação do mesmo quadro econômico monovalente, corroborado por um processo incontornável de implosão apesar dos ditames de “tomada de poder” –, a Novela em curso se desenvolve pela marcação do termo trans a perpassar muitas trajetórias sem recusa do cruzamento cognitivo proposto por Guattari. Vivamente se mostra a impossibilidade de conter limites – do ganho da família Garcia tornado matéria do jogo vicioso de Silvana, assim como o que toca ao regional/local de nossa geografia – o Pará das dimensões míticas populares no seio/centro do País (Parazinho se instala nas formas cariocas de ser multicultural, em consonância com o ethos da mundialidade, sem restrição a qualquer regionalismo de capital litorânea rodeada de favelas e miragens postcards).

Quanto mais tematiza e, no mesmo instante, faz deslizar sua condição serializada – em um nítido diagrama de dia/noite projetado em teias do continuum fictivo/factual discorrido em telas televisivas –, A Força do Querer guarda a aporia de expor o fio fabular como dado inerente à factualidade de uma postura política, vitalista, no interior do mundo-imagem.

Uma intrincada relação de signos acaba por revelar noite a noite a via do querer – numa atualização gritante das políticas do desejo em contrapolo ao império audiovisual de notícias que nos rege na mesma extensão de estriamento e captura na qual a Rede, o Globo, exercem sobre um mesmo segmento/seguimento de ficções (por onde assistimos à História que passa). Quer dizer, a força do queer.  Em um campo-de-forças

Mauricio Salles Vasconcelos

 

Referências Bibliográficas:

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. Trad. Luiz. B.Orlandi. São Paulo: 34, 2010.

PRECIADO, Beatriz. Manifesto contrassexual. Trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1, 2014.

SINATRA, Ernesto. @s nov@s adit@s: a implosão do gênero na feminização do mundo. Trad. Flávia Cera. Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2013.

 

 

 

 

 

 

 

ROMANCE E MÚSICA – RADIÂNCIA ALIEN

ORANGE animal dog collective ii

                                     

                                          Tiago Cfer

Se o romance moderno enquadra-se numa antropologia do indivíduo, dentro de um projeto em que sujeitos observam e refletem o mundo na medida em que engendram um jogo proposicional, o romance contemporâneo tem seu início ao se dissociar dessa tradição. Visível se mostra o corte com uma trama autorreferente cujo enredo consiste na disputa interminável pela representação universal.

O que se passa entre a egologia moderna e a dispersão contemporânea? Entre uma trama bem amarrada, em sua pretensa onisciência, e uma trama sem amarração, contingencialmente amnésica? Que espaço é esse, entreaberto por aquele que escreve e através do qual não cessa de ser revelada uma experiência exorbitante, desatada de todo pacto prévio mantenedor de uma ordem de leitura e escrita reconhecíveis?

No terceiro romance de Mauricio Salles Vasconcelos, Meu Rádio (Coletivo animal) (São Paulo: Lumme, 2016), a narrativa incursiona pelo espaço da música: “Depois que a música termina, continuamos a perceber o que  passamos a chamar de alegria tribal trazida pela banda” (p. 11). A escrita desprende-se de uma ontologia da visualidade e passa para o plano ondulatório da sonoridade, operando, nos termos de Derrida, uma manobra textual que demonstra certa transformação do logos (a racionalidade) em loxôs (a obliquidade), do entendimento em escuta.

A vida dos personagens é apresentada em três capítulos num trânsito contíguo à recepção e retransmissão em rede, através de iPods e aparelhos celulares, do som da banda Animal Collective. No primeiro, “Sha La La”, Ciço, ao lado da companheira com quem vive em São Paulo, Bembe, desenvolve uma tese sobre a música dos mundos: Compactos – Música e Caminhada. Num assombro repercussivo (tudo está acontecendo bem agora) de Salve-se quem puder (a vida), J-Luc Godard, o personagem munido de lápis anota tudo o que vai passando: “… rumor de guerras/mundos concomitantes em um só instante-conflito-contato (…) Como se fosse o princípio de um outro tempo” (p. 47).

Em “Mato Alto” (2º capítulo), Rami, um garoto que cresce isolado no quarto de uma casa dividida com o pai (Sacramento) numa periferia de Cuiabá, encontra-se na voragem de uma vida em transição. Apelidado Mestre da Música pelos moradores do bairro, desde a gaita, instrumento tocado na solidão da infância, até a música eletrônica que hoje lhe dá o prestígio de jovem crítico, o rapaz vem se lançando para fora dali. Ele e Mariô, garota que “está na dele” pelo toque da gaita, confluem num projeto de banda que ressoa de uma canção do Animal Collective, “My girls”: “Eu só quero uma casa”. Em meio à rota de tráfico neste subúrbio do centro-oeste brasileiro, as biografias de Rami e Mariô se cruzam sob o signo da música.

No terceiro capítulo, “Festival”, a relação amorosa entre Íris e Gaela se desmancha durante o Festival da Música do Mundo. Vindas da Área de Comunicação, elas realizam uma “cobertura” da performance de Animal Collective. Enquanto Íris atua na TV, Gaela faz transmissões e registros online num aparelho celular para seu blog em construção, Flama (não é Fama). Numa celebração musical em tom de iminência, tudo, ao ar livre de Meu rádio, sugere uma mutação em curso (do espaço-tempo territorial, do próprio livro): “A nação (um conglomerado de ouvintes, apreendidos antes na distância) vai sendo entendida como pista” (p. 127).

NOVA CAPA MEU RÁDIO

O teórico Jean Bessière, em seu livro O romance contemporâneo ou a problematicidade do mundo, diz que o romance de agora tem uma função de mediação, e que sua evidência consiste em apresentar a transitividade social enquanto figura sua própria transição, doando-se como objeto de mediação. Neste nó representacional (jogo de percepções temporais e emergências biográficas) é que o romance tocaria a contemporaneidade.

Em Meu rádio (Coletivo animal), MSV incorpora à escrita romanesca uma humanidade entre máquinas, em caminhada embalada pela “música do mundo” –  do walkman ao iPod. Justo num momento em que a radiofonia parece estar fora de cena, e a transmissão da música se transforma com os dispositivos móveis que armazenam dados download, o autor confere um novo efeito radiofônico à narrativa. Põe-se a captar música (vinda de tecnologias sonoras) e guerra (de corpos, tráficos, do poder econômico em todos os setores e formas de vida) numa profusão de mundos, no sentido de que essas máquinas difusoras de imagem e som instalam um tempo de suspeição, o sempre urgente agora, canal tanto para o terror quanto para uma transformação inédita da realidade.

A leitura deste romance pode ainda ressaltar que o animal ali emergente tem a ver com o ciborgue de Donna J. Haraway, uma vez que “ser homem ou mulher não existe mais em música” (em sintonia com as proposições de Deleuze e Guattari, em Mil Platôs).

_daniel richter _ die idealisten

O que pulsa em Meu rádio – feito uma nota atrativa, um intervalo dissonante – chama atenção para o arrebatamento e a deriva da escuta. Um escrever/filosofar de corpo perdido, tal como enuncia Derrida em Margens da Filosofia. Ação da escrita e do pensamento que consiste numa alteridade qualitativa, num devir-música. Ou a sinalização de uma gênese extraterritorial do romance (esfera alien) de agora, entre maquinismos e multidões do planeta, capaz de apontar para um coletivo humano e não-humano em descoberta, em expansão:

                               Alien – é o modo de recepcionar espaço/tempo/terra

Órbita que a própria música faz gravitar em sua emissão

Incompleta, infinita” (p. 151)

    Tiago Cfer é doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Traduziu o ensaio Literatura de esquerda, do escritor argentino Damián Tabarovsky (lançado em maio deste ano pela Editora Relicário).

Imagem: Die Idealist (2002), pintura do artista alemão Daniel Richter.

 

 

Última Lírica Urgente (Por Fernando Naporano)

foto napo

Última Lírica Urgente (Por Fernando Naporano)

                                                Mauricio Salles Vasconcelos

Águas, pássaros, círios abstratos – Um lance de poesia, como poderia formular Charles Bernstein, em sua muito recente reunião ensaística, A Pitch of Poetry (publicada no ano passado em Nova York) – Os livros que Fernando Naporano produziu entre 20014 (A agonia dos pássaros) e 2017 (A convergência das águas, lançado em março pela Editora Poética, Lisboa) encontra, entre a estranheza e a ressurgência de muitos topoi e tropos da dicção do poético, um modo renovado de escrita pela intensificação de um veio ultralírico – o que quer dizer último e, simultaneamente, urgente (vindo de um instante único, de agora).

Pássaros, águas, “teatro dos restos”. O autor paulista rearticula o lirismo em encruzilhadas surpreendentes sempre, depois da estilização parodístico-citacional do pós-moderno que o situa numa condição contemporânea de escrita, no mesmo gesto em que vai dialogar com tradições remotas – barrocas, simbolistas e mesmo aquelas perdidas em fontes imemoriais de instantes consagrados por imagem e entoação de canto (desde que a poesia na Grécia muda de estatuto e se faz musicalmente convocadora das divindades sob influxo do corpo, das sensações). Fontes medievas também ecoam em módulos repentinos de canções, recepcionadas certamente em sintonia com o interesse grande que nutre Naporano pela poesia portuguesa em todas as suas variantes de tempo e enunciação. Ainda que ele faça especial menção – e seja perceptível em seus versos – a nomes impressivos a partir dos anos 1950 em Portugal (Mário Cesariny de Vasconcelos, Carlos Eurico da Costa, Pedro Oom, António Maria Lisboa, referidos por ele, entre outros poucos lidos no Brasil)

Interessante é deixar viva a procedência pop do cantor/letrista da banda Maria Angélica Não Mora Mais Aqui (cultuada nos 80, difundida internacionalmente por força de seu composto de psicodelia e vibrante concepção poemática). Mais interessante se torna perceber que tal dimensão mediática possibilitou a FN um ingresso em um campo escritural específico, propiciado pelo livro-de-poesia, com um sentido tradutório nada linear por parte de quem atuou no espaço espetacular. Algo realizado para além do foco de um tipo de estética muito particular, o que se restringiria a um sentido de letra-de-música característico, com contornos conhecidos –  circunscritos a certas temáticas, a posturas/procedimentos iconográficos e cênicos, numa modulação inseparável do “som da banda”.

Intrigante se revela, justamente, o senso preciso e ampliado no trato da matéria escrita no âmbito do livro, da lírica, linha sobre linha.

          Ai, pis, quantos, prantos

        inumeráveis dicções

       assomados pensamentos

       nasceram

      desta pedra

     deste meu permanente

    ascendente, veemente

    olharesgrima à pedra   (Naporano, 2014: 60-61)

 

      A agonia dos pássaros traz, na estreia do poeta, outra musicalidade – conjugada por afiada convivência com um vasto repertório de escrita paralelamente à escuta das sonoridades eletrônicas e enunciativas da new music há muitas décadas. E, também, outra imagem – depois das incursões pelo estroboscópico/délico pop universe.

Em outra via, há um dimensionamento do imagético, indissociável da formação de um autor pelas muitas esferas de mediação que regem vida/arte/cultura desde o século XX. Século intensificadamente plugado nos sistemas de informação, até sua travessia milenar, que consolida nosso agora numa civilização tecno, sem perda, entretanto, do lugar reconfigurado, renascente, reservado, sem cessar, a palavra/livro/linha poética.

Através de uma mobilizante mescla com vários fronts da hipermodernidade – do âmbito electro/acústico à sua atuação como crítico de cinema (do audiovisual em todas as suas acepções atuais) -, um toque deliberadamente antigo se torna flagrante – advindo da receptividade a uma tradição aberta a várias acepções da poiesis literária -, tornando-se mais e mais extemporâneo, exorbitado do relevo/timbre/tag do que é meramente epocal, sem recair, contudo, em qualquer especie de cultismo, de reverência classicizante. Muito ao contrário. Justo, o contrassenso aqui avulta, sensorial voltagem da potência de poeta e poesia em nosso contexto veloz de fruição e modelação de gosto.

Em tal compasso, tão heterodoxo quanto imantador, Naporano cria um elo renovado com diferentes referências de escrita. E, no caso, de um projeto poético, as dimensões de pensamento, sonoridade e imagismo definidoras de uma arte precisa, autônoma no seu modo de compor (desde as proposições ressonantes, essenciais, concebidas por Pound), obtêm formulações inesperadas, tamanhos são os planos cruzados capazes de jogar com o espaço/tempo (da ressonância íntima de algo conhecido como lírico, num sentido vivo de proveniência e revivência). Assim como conseguem se redesenhar domínios de linguagem e regimes de signos os mais diversificados sob o influxo de instigantes acentos rítmicos/construtivos.

Atravessei as máximas possibilidades do silêncio,

reentrâncias áridas que desconheciam o teor do pulso,

a posse do tato, o tao, a pose da vida.

Fiquei assim: imune ao mundo imundo

              com um olhar caligráfico dissipado de todo o passado,

o formalismo lírico, pisado feito trapo.            (Naporano, 2017: 106)

Curiosamente, o trânsito por temporalidades remotas toca fundo a poesia desse agora.  Ao avesso de qualquer imobilismo, revival ou cultismo, dá-se o enfrentamento com o “passado puro”, a “memória imemorial” (tal como Deleuze faz vibrar até o momento o lastro bergsoniano do pensamento-tempo). Tal postura explica, também, o sentido mais pulsante de cada ser em trajeto/em linguagem na recriação dos vetores intermitentes incapazes de paralisar uma intensidade sempre virtual, no contrafluxo da síntese do bom senso (súmula do tempo).

A aproximação feita com Novalis, em Diferença e repetição, se revela bem engrenada com a dinâmica da ultralírica em Naporano. Trata-se de um estado “da diferença infinitamente desdobrada, ressoando indefinidamente”. (Deleuze, 1988: 356).

É a disparidade que torna o infinito a força declinada/dobrada formadora do poético. Para lá de qualquer ajuste consensual a uma disposição ordenadora, o que aparece toma o plano, o palco da agonística verbal – o fator-imagem tão decisivo para Fernando Naporano, numa extração ultrassensível do romantismo radical de Novalis quando faz emergir a turmalina como peça pensante, propiciadora do movimento revolto da palavra na poesia, em desarmonia com o retórico, o simples protocolo da forma (gênero e estilo referenciais da disciplina Literatura). Assim como a flor azul de Novalis, em sua desconcertante narrativa Henri D’Ofterdingen, cria um indício interminado entre real e revelação pela escrita.

“A disparidade, isto é, a diferença ou a intensidade (diferença de intensidade) é a razão suficiente do fenômeno, a condição daquilo que aparece” (Deleuze, Ibid.)

Desponta a pauta poética como spatium – plano não-coincidente, nada coeso, de tempo-espaço – de emergências.

A imediaticidade das sensações – “nada mais eram que a saudade/a jazer em Jackson Pollock,/vítima borrada,/carmim-cinzel abstrato/de todas as futuras manhãs” (Naporano, 2014: 48) – requer incisão para captura da vertigem do tempo posto sempre fora do eixo (o hamletiano time out of joint), vindo de todos os quadrantes/quadrículas de passagem e duração.

Não ao acaso, a imagem “ao longo do cipreste ininterrupto” (Ibid., 38) fornece a ponta insidiosa do lirismo díspar – último ultra tornando-se urgente. A emergência do que se passou instila a indagação: o que está se passando? Um plano-poema linha sobre linha montado a partir de um dínamo pataquérico, como propõe Charles Bernstein, num ensaio nuclear de seu A Pitch of Poetry –  “Imaginação Pataquérica”. 

Ao derivar a patafísica de Jarry em estado disseminante, infestador do excedente de criação proveniente da combinatória incessante entre a tradição e o imediato, através de um inviolável pacto com o presente, Bernstein acentua o traço tardio, multiplamente exquisite, propiciador da poesia que é só de agora. A proveniência latina da modernidade – modernus –  bem exige, como pensa Jauss, leitor agudo de Baudelaire, a incorporação da hora única que passa, do que há de mais efêmero para existência de uma escrita com senso de historicidade, ou seja, do potencial de descontinuidade em relação ao incorporado à tradição. Tudo o que impõe absorção e contraefetuação do legado/recepção de um repertório por obra de uma irrefutável (não dada, inacabada) condição de agoridade.

De tal amálgama, precisamente, são compostos os livros de Fernando Naporano, nos quais vibram um imagismo maximal, contíguo à música extremada com que são reinventados lirismo e livro de poesia no auge da mais alta tecnologia. O choque da disparidade se instala, então, no declinado solo de palavras como arrebol, anil, lourejante, diamantífero, cinzel, entre inúmeras outras conjugadas em um dispositivo de lirismo intensamente dobrado sobre o antique e o intempestivo toque de um montador/mixeur multimidia.

Imagine Imagem – Situe o Som. O abstrato da poesia é viral – Pharmakon. O Afeto, como em Blake, decorre como estratégia e esgrima do supercomposto, hiperposto (mais que sobreposto) lugar da poesia depois de tanto tempo – depois dos propagados fins do livro e da arte – como arena/área viva de insurgências.

Sem temor da coda afectual dobrada a cada linha – construto concebido/conceituado de afflatus/imago –  por pulsação extravagada o mais novo vem da ganga de imediaticidade, nunca desfeita do tom impessoal de uma construção poética, feita para ser visiva. Um ato movido por uma imagética em seu senso performativo de ato, de cena – sob o signo da aparição, do surgimento disparatado, insuflador de sentido/síntese nunca encerrados –  antes experimentado em letras e cantos de música por Fernando Naporano, desbravado agora como a questão mais urgente do poético, por meio da acentuação exacerbada do lirismo.

Através/em travessia de sua marca ultralírica – pássaros, águas, entre os dados da coerência e da agonia  (como se leem nos títulos dos dois livros de FN) -, tornada ponto de urgência, da mais pontual incisão no tempo.

“Nestas memórias em chamas/tua infância arde, criança-sabre” (Ibid., 44).

Fotografia de Fernando Naporano

Por Melanie Havens

O recém-lançado livro A coerência das águas, de Fernando Naporano, está disponível no site da Poética Edições, através do link

http://poetica-livros.com/loja/index.php?route=product%2Fproduct&product_id=452

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BERNSTEIN, Charles. A Pitch of Poetry.  Chicago: The University of Chicago Press, 2016.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

JAUSS, Hans Robert. “Modernity and Literary Tradition”. In Critical Inquiry. Vol. 31, No. 2 (Winter 2005), pp. 329-364.

NAPORANO, Fernando. A agonia dos pássaros. São Paulo: Demônio Negro, 2014.

______________. A coerência das águas. Lisboa: Poética, 2017.

Poema ON THE ROLL (integrante da Récita Beat, evento paralelo à Mostra de Cinema BEAT, CCBB SÃO PAULO janeiro 2017)

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ROLL

Mauricio Salles Vasconcelos

Rubrica – CANTAR “Girassol – Um sutra – Um 

Parque de diversões da mente

Roda-Gigante de um eu bem pequeno”

(Até que o poema ganhe corpo no poeta-performer-

Guia-Autor da Gira)

“Gira Agora Sol

Não-Eu De Repente”

 

Caminhante ao longo do tempo

Injeto todas e apareço na dita   vida

Cada vez mais real – a pulsar

Dentro de um contorno saturado

Demasiadamente depois do humano – Um – humanista

Lá estou on the roll, mais do que na estrada,

O giro nada mais cede:

Eu ou um carregamento de coisas

Nas costas (Delírio para surgir

De vez nessa mesma vida

Entrecortada pelo nonsense história fim de ciclos

Beatniks sob ressurgências sem nome)

À volta de Tristessas foxes belezas

Do corpo sempre mais à frente

Da datação, em abismo: a linha do tempo

Costura sua moral alucinada

Ao ritmo do ar que se respira

Naturalmente dentro do redemunho

Tudo que antecede cada um e zera

A projeção de qualquer futuro

ON THE ROLL

– Um desnorteio de origem assumido como urgência pessoal

Mesmo por conta de guerras, abrigos ultratecnos

Like Corso – o mais simples respiro de fora para dentro –

Até se encontrar em um ponto interior, posto de gasolina

Perdido na distância/Panorama vestal varrido

Da Ideal Grécia, da Amerika High-Tech cisco por cisco

Em caso de perda dos dentes se for: a poesia escoa

Conta relatos radicais beatrices dos sexos preciados, nascentes

Bocas-sem-dentes até o encontro de seu fim

Like in Corso’s poem: “morrerei dentro de um canto”

Mesmo que as bocas-sem-dente da nascença toquem

O fecho/extremo de gente e tempo (sem nenhum dente

Apenas a fonte a força que cantam)

Guerra Química Farmaco Tecnologia Móbile –

Por exemplo, o reincidente automóvel/rodovia

In continuum e corpos

Como este até agora em avalanche

Rodeio no redemoinho

Bem leve, bem a mais

Só de tragar o símbolo (uma caveira

Piercing na ponta das línguas)

Todas as épocas num compacto – Girassol

Um Sutra, um Parque de Diversões na Cabeça –

Desafio à essência a um lugar sol-posto – Aditivo

Sempre sinuoso modo de chegar até aqui

VIDA quer dizer idade

Enquanto faz rol

Queremos dizer e então somos: Roll

IDA = VIDA sempre por surgir

Só fumando um unzinho

Só se gastando e gostando da vida inteira que se dá

Apenas  Através de um sozinho

De alguém bem real

Solitário à procura de seus desconhecidos

Numa única vida

De um jeito sempre single

Uma canção e um decreto em descoberta

Passar

Pela rolagem mais violenta – internamentos inquéritos milícias

Delirar em cima do morro onde se maloca o entorpecente

Em orbitação sideral – Pertencemos portanto ao Globo

Mundializado, mera transfusão do lucro em falso

Surgido feito delírio intransferível

Em divisa da pedra pílula cristal nota de 100 Real entre moradores

Da Favela dos Desejos

Fazer viagem da cabeça

Aos pés

Em percurso dentro de si mesmo

Bem capaz – com toda surpresa –

DE traçar mapas

Imediatamente visíveis

Épocas são cruzadas

O que se entendia como bem antes – ancestral, medievo, perdido de tão

Remoto e jamais finito –

– Escancare este ácido tabu tatuagem

Já entrei na minha pele –

O que antes eram cruzadas

Agora faz um ponto-cruz

Chamam-se épocas: lugares

Impossíveis do Planeta

Capitais e periferias

Em busca de só um

Porque alguém se põe a pé

– Meditação e tráfico

Migração Tópica

Unzinho

Na face revolta, pura crosta

De erva: superfície-toda terra

IDADE – quer dizer

Vida (Aquela a transcorrer

Em “você”, coletiva clandestina, sim, só agora)

A vida toda de qualquer momento sempre

A continuar toda sua e

Alheia

Idade – Ideia

Não está na mente

Quer dizer vida a ser raptada

No delírio, no tráfego oculto da droga,

A mais aleatória, absoluta

A ser expelida até o fim

Desse um – para além dele

Dela, soberana sobra humanóide

Em representação de seu pronto extravio

(Um vazio um do humanista marco original

Em nome do um

Vagante até o próximo encontro no ponto

De sempre da Drugstore)

Idade – Ideia – Uma só ida sem volta

(Uma espécie de transporte,

Trainspotting imóvel em volta da mobília

De um quarto apenas para um

Na roda das rochas cascatas do real

Onde todos querem entrar ao mesmo tempo

A Natureza é um empreendimento

Não se dá à mão, “acenda, então, a beata”

O pó de todo credo, paraíso a crédito)

A era beat acabou, meu bem,

Acabou toda classificação em Eras

CUT-UP PLEASE THIS information

And zoom it

Em meu corpo esfomeado de gente e mais um

Um só a mais pela última promessa primeira vez do vício

Imanente à vida: O mais traficado interdito

VIDA quer significar IDADE

Conta de menos e Cume

(Do deambulatório, carregado no corpo

De cada um, carga e débito sem pagamento

De todo tempo da espécie

Já rolada antes e ainda em ação

Sabe-se não

DO AMBITO DA IDA) – IDADE igual a VIDA

Da esfera do transcorrido

E seu curso não-dado

Nunca findo

Só picando a pele –

EXPEDIÇÃO À CABEÇA

SATELITE SEMPRE INVISÍVEL

GUERRAS DO CRACK e encantamentos nunca antes transpostos

Missão autônoma de risco segue o rastro do mais disperso

Astronauta com os pés no chão ainda indescoberto

Logo aqui à frente

Só para um – o feito só de um só na bagagem bagaço do DESMEDIDO HUMANO Só se for

“Unzinho”

Desde a batida beat

Desde a última silhueta de alguém vivo

Estrada adentro sempre pelo meio

Insemino todas (as coisas líquidas, soltas no ar, duras na fonte)

Só mais um, eu, (quero) “unzinho”:

“A vida tomada numa talagada”

 

Refs. Inserts/

Kerouac/Corso/Beatriz, Paul Preciado/Monte Hellman/

Conrad/Irvine Welsh/Ferlinghetti/Céline/Avital Ronell/W.S.B

Ginsberg/Pynchon

Dante

POTÊNCIA DA POESIA/PATERSON, DE JARMUSCH

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Mauricio Salles Vasconcelos

ContrAnotação do Calendário Hegemônico 2016 –

Até tocar o nada – o que move as palavras para que estejam em um corpo vivo à prova de todas as fronteiras e suas desaparições produtivas. Paterson, de Jim Jarmusch, contra-anotação do brutal calendário 2016.

Se antes, o  cineasta podia estilizar o minimalismo com o toque jovem de quem retomava o pop entre a new-wave anos 1980, na tacada pós-punk de uma época transculturalizada – tudo o que se assistia em Stranger than Paradise (1984) sob a forma de um programa na era do fim dos manifestos (tese producente de Danto, pulsante até a hora de agora) – Paterson (2016) ressurge como um invento precisamente pelo que se dispersa, não tem cara de arte e “posição”, justamente quando mais vibra a incursão pelo toque, pelo timing da criação de poesia. E mais: a escrita no interior do cinema. A um ponto em que a face escritural indissociável do fazer-imagem se expande para a vitalização do cinema mesmo.

A partir da confluência entre o nome da pequena localidade (em New Jersey) e daquele do protagonista (um bus driver), que vem a ser o título de um clássico poético da modernidade – um épico da cotidianidade concebido por William Carlos Williams –, o filme de Jarmusch reengrena a trajetória de um cineasta até há pouco tempo em suspensão. Inegavelmente, um certo refluxo se fazia observar, não obstante os muitos acertos espaçados no tempo em que ele veio produzindo após o estouro com o longo citado de 1984 – a confirmação bem humorada do despojamento em Down By Law; o risco intrigante de Mistery Train; as bases da legenda americana a serviço de uma desbravação inicitática (no grande Dead Man) e algumas centelhas afectuais, comportamentais, não de todo impactantes em Broken Flowers.

Paterson pontilha os toques de um aprendizado pelo silêncio, pela perda – sob auxílio de um nítido repertório nipônico colhido entre o zen e a lírica ideogramática que o personagem-visitante da cidade de W.C. Williams acaba não apenas por ilustrar. Mas, também, está ali – aí – para guiar o protagonista e seus espectadores a um breve incurso pela poética norte-americana estendida em referências bem marcadas a Frank O’Hara (a ponto de inserir um exemplar de Lunch Poems na mínima bagagem que o motorista leva para o trabalho, entre o almoço e os objetos de sua escrita e estima, entre a caderneta-de-anotações e o retrato da mulher).

Uma extensão que chega à vida presente da poesia tal como entende os americanos, entre os mais ativos criadores do gênero nesse momento milenar nada avesso à “Poesia de Linguagem” em várias acepções, desde a Escola de Nova York aos compactos de vida/inquirição de pensamento trilhados por Lyn Hejinian, passando-se pela instigante formulação de sexualidade/mapeamento historiográfico pela via cotidiana trazida por diferentes autores como Wayne Koestenbaum e Felix Bernstein, entre os mais recentes. Em cima do nada, a poesia se revela atuante para o que extravasa a palavra, o espaço literário. Contagia o cinema feito de poucos elementos temáticos, a contrapelo da culturalização, dos esquemas engrenáveis na serialidade de um plot. A fiação se dá através do pequeno percurso diário de um motorista provinciano, a contar de conversas simples da casa às ruas, do retorno do trabalho ao bar de todas as noites.

Jarmusch acaba por incidir numa poética das artes agora ante a agenda da humanidade globalizada em 2016 por meio da “lógica do pior”, como pôde formular há algum tempo atrás Paul Virilio. Todo um temor sublinhado pelo filósofo tendo como horizonte a sistematização do compósito formado entre tecnologia e capital transnacionalizado.

A economia agora se paralisa para usufruto/usura (um poeta como Pound, de modo enviesado, se presentifica na constelação ensaiada pelo filme Paterson), em andamento dissolvente, autodestrutivo. É o que decorre da voltagem de lucro desestabilizadora de seu expansionismo mundializado, ao ponto de sacrificar a governança e o bem-estar das diferentes nacionalidades de um planeta em vários quadrantes geopolíticos submetidos à agonia de corrupção, crime, desassistência social, até o abandono de todo projeto comum/coletivo essencial ao crescimento de qualquer propósito sustentável de economia.

Nesse contexto, um título como Paterson gira em muitas direções de leitura e sensibilidade, numa curvatura de sutileza e poder intelectivo, orientada como ato de valorização do tão pequeno quanto potente universo localizado em uma cidade ao léu de tantos mundos. Valorizados ficam a imaginação e o poder de contemplar, dando-se ênfase ao que fica pelo caminho, para ressurgir em vibrante forma de entendimento . Algo que se mostra eletrizante pelo dado de se ocupar do que é mais vigoroso para a arte (poesia e cinema tomados como núcleos), favorecendo simultaneamente outra ética de viver o fio de tempo que escorre um dia após outro.

Tem-se, então, um modo de escrever, como também de ler/fazer arte, incitar vitalidade e pensamento, através de sinais reveladores colhidos de instante a instante, como se tratassem de nada e nascessem de um vazio sempre em reincidência. Ao mesmo tempo, signos e sinais se fazem traçar na superfície mais simples de quem vê, de fato, algo compreensível em toda sua extensão projetiva como cinema.

Da associação criada entre ser e linguagem, entre analogia e paradoxo, de todo evento em decurso e seu impasse no plano do conhecimento, da história de um corpo e o repertório trazidos por cada criatura, Paterson se estampa ao modo de um satori a ser depreendido como poema. Da mesma forma que a caligrafia do personagem Paterson preenche alguns momentos da tela em escrita.

A senha está na linha-movimento-evento do poema que ele elabora ao final do filme, após cruzar o limite da autonegação e do desaparecimento do livro/projeto de vida. Tornar-se o peixe do que surge como imagem em seu próprio escrito. Outra poesia se deflagra, então. A partir de si ao avesso do falso início da página em branca (uma vez que toda folha a ser preenchida já contém, como bem aponta Foucault em “Linguagem e Literatura” os ecos de tudo que já foi escrito e se alinha numa virtual biblioteca).

Escavar a contingência. Eis o que se plasma como um Mistery Bus dos transportes anti-informacionais percorridos pelo poeta nascente Paterson (da mesma terra que deu W.C. Williams), alguém que vive entre cruzamentos, nas encruzilhadas que a tecnocultura não cobre com seus dispositivos de presença/ubiquidade.

Tornar-se a isca de Clarice na captação do que emerge do rumor subjacente ao ato de escrever. Ou, senão, o aquário de Marianne Moore (de novo, a órbita dos séculos modernos e pós-modernos em língua inglesa). Quanto mais localizado, o dado matérico, formado de resíduos, abre trilhas sobre a aparência do que é off, do que seria contrário e perdido para a poesia. Uma sonda-ambiente desponta, pois. Cria um lugar – o aquário, quanto é mais vazada a paisagem/cachoeira na cidade de Paterson. Um modo de habitação, a partir do que se traduz fora das palavras para melhor integrar-se a elas. A poesia é a questão do que se é em ato. Faz-se onde/quando não teria mais sua potente razão de se dar em evidência.