MIRADA POP: DESCORTINO E ATIVAÇÃO DA MEMÓRIA NO ROMANZINE DE VALÊNCIO XAVIER

Minha mãe morrendo e o menino mentido, de Valêncio Xavier, edição de 2001 composta por três novelas gráficas – Minha mãe morrendo, Menino mentido – Topologia da cidade por ele habitada e Menino mentido –, nos apresenta um panorama historiográfico composto por técnicas de colagem aprimoradas pelo autor desde os anos 1970.

Neste livro em questão, centrado na constituição da infância e na morte da mãe, o uso destas técnicas é potencializado com as tecnologias de edição/transmissão de textos e as mutações da escrita biográfica, decorrentes da constante simulação de guerras entre mídias e narrativas no contexto dos anos 1990 e 2000.

Valêncio Xavier e William Burroughs
Montage Sunglass

Memórias desencadeadas de refinadas montagens de imagens e grafias dos anos 1930-40, ligadas ao evento nuclear – morte da mãe – que será diferido pelo autor ao longo de sua obra, vêm potencializar o uso que William Burroughs deu à colagem nos anos 1960: como uma arma na guerra do tempo.

Espécies de romanzines, estes três-livrinhos-em-um deslocam as convencionalidades estabelecidas até então sobre escrita romanesca. Quebram hábitos e narrativas. Permitem que novas associações topográficas e temporais – entre textos e imagens coletados do passado – liberem o presente. O desoneram das normatizações estatuídas por uma completa estrangulação da vida em seu processo de tornar-se mercadoria.

Suas formas e procedimentos contrariam as aporias descritas por Mark Fisher em Realismo capitalista, como a de uma existência totalmente financeirizada, sem saída. Insurgem contra o sentimento agonístico – descrito pelo filósofo Fanco “Bifo” Berardi (Depois do futuro) – de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Contrapondo ao horror reinante, em sua missão de asfixiar o tempo e sugar nossos corpos, uma intensificação máxima da ação criadora.

Se “a era das técnicas midiáticas é também a era das guerras técnicas”, como afirma Friedrich Kittler, a pesquisa arqueológica e a escrita de romances gráficos, assim como concebidas por V.X., implementam um verdadeiro combate ao projeto de empobrecimento, expropriação, destruição cultural e existencial típico da história republicana no Brasil. Uma verdadeira agonística entre a vida humana e o capitalismo moderno.

O modo como o autor entrelaça memórias e imagens advindas da cultura pop em sua escrita testemunhal/ficcional, em uma alta voltagem erótica e especulativa, vem assombrar o tempo de agora. Pois seus romances funcionam como um dínamo de potencialidades temporais, um acervo de informações circuladas pelos meios de comunicação – anúncios e publicidades de jornal, filmes de infância, desenhos animados, histórias em quadrinho, programas de TV, etc. Estocam e propagam, em proporções variadas, blocos de sensações, sentimentos e sonhos coletivos que foram de uma certa forma apagados por diferentes regimes autoritários num passado recente. Governos necrofílicos que se configuram em três momentos diferentes da história do país – coincidida, obviamente, com a história de uma mundialização técnica: a virada das décadas 1930-40, 1960-70 e 1990-00.

Já em O mez da gripe, de 1981, Valêncio Xavier havia decupado a história brasileira nos anos da gripe espanhola (1918-19). O livro descortina sedimentos de memórias justapostas por imagens cadavéricas, slogans publicitários, notícias assombradas pela moral religiosa, pseudocientífica; decretos e boletins de governos manipuladores; depoimentos de sobrevivente, crônicas do hospício, histórias de um contexto em crise sanitária culminada com o fim da Primeira Guerra Mundial. O livro demonstra gradualmente que as tragédias do século XX foram suplantadas e esquecidas por um louco desejo social de transformar a vida em filme, lembrando-nos que este foi o século em que o cinema triunfou.

Com Minha mãe morrendo e o menino mentido, V.X. reconstitui relevos de uma infância não mais concebida como história privada, mas em fluxos coletivos libidinais tomados dos meios de comunicação em massa. O próprio título do romance, publicado primeiramente em 1996, Minha mãe morrendo, foi retirado de uma série polêmica de desenhos do modernista Flávio de Carvalho – traços macabros, feitos a carvão pelo artista no leito de morte de sua mãe, em 1947.

O narrador, ao mesmo tempo em que torna-se multidão, não restringe-se mais apenas à tarefa de escrever um enredo, contar uma história. Para produzir memórias, incumbe-se de pesquisas, desenvolve técnicas de arquivamento de épocas, monta cenas que abrigam diversas camadas de realidades. Arranja uma coleção de antiguidades que ganham tons futuristas em seu modo de organizá-las e apresentá-las.

Além de atender a um novo tipo de analfabetismo emergente nas décadas de sua produção – tal como Bifo sinaliza em Geração pós-alfa que as gerações das décadas de 1970 em diante, ou gerações videoeletrônicas, testemunham o desenvolvimento de uma cognição pós-alfabética, no sentido de que elas aprendem mais palavras das máquinas que das mães -, este livro tem muito a contribuir para um ano como este. Se tudo tende a simplificações aplainadoras, discussões e disputas entre doxas ideológico-identitárias, ao burburinho ininterrupto dos discursos hegemônicos subordinados à lógica desvitalizada do mercado eleitoral, Minha mãe morrendo apresenta um vasto monstruário de perspectivas abertas como janelas para o tempo.

Seu modo de convocar espectros os mais variados da história fornece ao romance uma complexa sequencialidade, pois são inúmeros os fios que se cruzam e disseminam instante a instante, plot a plot. A forte nostalgia de um futuro do passado que a leitura de suas páginas vem despertar no leitor, sem causa reconhecida, talvez forneça exemplos de que é possível enfrentar os infortúnios do presente contrapondo-lhes uma intensa presentificação da ação criadora. Algo minimamente conciliado com a abertura de novos territórios estéticos e existenciais, espaços alternativos de escrita e imaginação.

Começa-se por não aceitar o tempo como qualidade dada, mas algo passível de ser recombinado, reelaborado. Uma pequena e concentrada duração temporal expande em muitas siderações, inusuais ficções, por meio do livro. Objeto não-identificado, em formação, o livro é também o mapa – com grande variedade de canais subterrâneos – pelo qual transpomos, a cada época, as barragens do presente.

Tiago Cfer

Abaixo, algumas imagens de Minha mãe morrendo e o menino mentido:        

         

ARTES, POLÍTICAS (Épocas Subterrâneas)

         Este é um blog sobre histórias subterrâneas, a minha inclusive, cruzada com 2 filmes exponenciais, praticamente esquecidos (de certa forma, invisíveis, difíceis de exibição e acesso por download).

         Este é um blog que busca rever do apagamento certeiras ativações das artes até hoje impulsionadoras de um sentido vital. Na contracorrente do fácil calendário sucessivo das décadas sobre épocas (ao ponto de não se compreender a radical virada de um milênio para outro) –

         THE EDGE (Robert Kramer, 1967) e VIDA DE ARTISTA (Haroldo Marinho Barbosa, 1972).

A grande Tetê Medina, atriz de Vida de Artista e de peças como As moças e A China é Azul, presença marcante dos anos 1970

         O tempo passa e essas belas ficções centradas nas inquietudes políticas de mais de 50 anos se bifurcam no nosso presente.

         A militância encampada por várias frentes, em The Edge, traz uma radiografia do ativismo chegando ao cume de um projeto de extermínio do Presidente (o Comandante da Guerra do Vietnã). Tal como aqui teve vigência entre 2019-2023, o mandante de tantos crimes coletivos e privês.

         No longa nacional,  promove-se a posse da terra para formas novas de vida, balizadas por teses de Feuerbach e inserts de Oswald de Andrade.  Os planos da Terra vão se encaminhando num travelling, sem retorno, pelos descaminhos  da droga nos becos e nos sufocos existenciais desaguados nos túneis de um claustrofóbico Rio de Janeiro (antes de se tornar A Furna da Onça).

         Geografias e Genealogias ainda não encerradas. Trilhas que precisam ser conectadas com o mundo da informação, plugando o sedentarismo global internado/internalar e, ao mesmo tempo, incitando ações com a energia de virar o jogo político. Bem por trás e para lá das corporações, do fake informacional, da cultura opinativa montada em sistemas tautológicos de identidade e individualismo exibicionista.

         Não há como recuar da urgência em transformar canais, ramais de saberes à nossa volta em ações constantes para mutação de uma História não explicável pelos fluxos dos capitais autogeradores da produção de pobreza. Quando tudo está no LIMITE, na MARGEM (Kramer) e acentua a Vida Artista de cada ser vivo para esplender em plenitude. FILMES PARA SEREM (RE) VISTOS. EXISTÊNCIAS inseparáveis de um Trabalho Político Cotidiano.

Tite de Lemos, poeta contemporâneo fundamental, possuía bela voz sempre presente em locuções do cinema nacional. Em Vida de Artista, ele não só atua, mas deixa imprimir um off impactante, por meio de uma espécie de travelling vocal.

         Os 2 filmes ainda incitam a necessidade de eletrizar corpos e mentes. Através de um fio não rompido de busca e inteireza, para além da mecânica repetitiva do que está aí através do teatro das representações partidárias e das instituições identitárias. Eis o que eclode em THE EDGE e VIDA DE ARTISTA.

Robert Kramer, cineasta seminal em atividade dos anos 1960 a 1990, diretor do citado The Edge e dos extraordinários Ice e Milestones, entre incontáveis, importantes filmes.

Este é um blog centrado na captação de emergências criativas nas artes, nas áreas diversas de pensamento e política. Em diferentes, subterrâneas, entrecruzadas épocas, por aqui se disseminam. Só se for agora.

MSV

           

Tempo – Romance – Serialização

O texto de Tiago Cfer (veja-se postagem neste KOBO & TRANSISTOR) sobre Seriado, romance lançado em dezembro de 2021 pela Kotter, põe à mostra a rede de motivos que move a escrita literária, especialmente a narrativa, em tempos de serialização. Revela como o espaço romanesco hoje se renova, insuflado pelo poder de abarcamento pluritópico que as séries – em uma de suas fases áureas – imprimem e impactam no cotidiano de uma civilização techno.

Ao dispor da relação entre segmento e seguimento, o livro-seriado reelabora a teia multiforme de temas e tramas de uma época balizada pelo sentido neomilenar desde a eclosão do 11 de Setembro de 2001. Deixa assinalados a face de terror e o abalo dos propósitos tecnoglobais anunciados para uma era de transportes universais pelas webspheres guiados por fluxos amplificados de culturas e mutações sociais. Onde/quando a truculência econômica impera e homogeneiza os horizontes dos mundos.

O romance redesenha o universo da serialidade, situando o Brasil em voltagem mundializada. Erotiza, espacializa, refaz geografias da globalidade, dialogando a um só tempo com a mescla entre telenovela e seriado muito presente na atualidade, reinventando plots de Lost, Twilight Zone e Twin Peaks 2017.

Compreendida como arte da invenção de formas, arquitetura propositiva de enlaces renovadores entre espaço-tempo-personagem (um legado intensificado no século XX, ainda em vigor), a escrita do romance expõe sua força presentificadora ao recombinar referências as mais diferentes, envolvendo experiências, conceitos e contextos dessa nossa agônica hora.

SERIADO, romance de Mauricio Salles Vasconcelos. Editora Kotter.

FUROR LAMBOR VORAGEM VINAGRE

OSVALDO LAMBORGHINI, recém traduzido e editado em português – O Menino Proletário – 3 Narrativas (São Paulo, Ed. Córrego) -, é uma avalanche de invenção narrativa e instigação sexual. Não comportado a uma categoria simplesmente “orientada”, toca a androginia básica de todo ser. Invade corpos e logísticas comportamentais.

Só vejo similitude com tal audácia criativa em um filme nacional de Gustavo Vinagre – NOVA DUBAI – Onde as divisas entre as personae sociais e o desejo explodem para lá do registro homossex tomado de partida. Trata-se de um cinema, assim como a literatura do argentino exponencial – Lamborghini -, compreendido como descoberta e disseminação. Muda a instância do humano, ressitua os lugares da arte e do que há de estanque na conformação corporativa das autorias e das causas justas pessoais. Isso é Vivo, vira o jogo das adequações culturalistas insuportáveis da época do Bolsão do Bolso Mínimo. Nota – Há também tal disposição mobilizante de sexos em profusão na poética do português essencial José Emílio-Nelson. Tudo vibra no ar, nos corpos, sob a égide da mortantade organizada (Bolsete/Putin Europa Pocket). Viva a contraface do Vírus!

MSV

O menino proletário: 3 Narrativas, de Osvaldo Lamborghini. Trad. Mauricio Salles Vasconcelos e Pedro Magalia. São Paulo: Editora Córrego (Coleção Vírus), 2022