
Seriado, de Mauricio Salles Vasconcelos, apresenta um panorama de enfoques e procedimentos para a escrita do romance no presente milênio. Com a utilização de técnicas de transmissão em rede, vincula trama narrativa ao fluxo de imagens-de-mundo difundidas no universo da produção serial. O autor cartografa as dimensões existenciais de uma época marcada por eclosões de conflitos, crises globais e estilhaçamento de perspectivas coletivas desde o 11 de Setembro de 2001.
O projeto parte de uma narrativa em torno de um núcleo composto por mãe e filho na constituição de um romance familiar, parafraseando-se aqui a conceituação de Freud, não mais em termos tradicionais, mas numa outra vertente, passível de se definir como romance familiar sideral.
Mirna Amorim, “mãe que acabou sozinha em sua própria moradia”, desloca-se entre um espaço de confinamento no Brasil – apartamento onde vive instalada diante de uma televisão enquanto acompanha a telenovela Grande Shopping Veredas – e caminhadas urbanas movidas por sexo irrefreável. Jornalista idosa, desde um desentendimento há seis anos com o filho, Ismael A. B., ela não mais manteve contato com o rapaz, que vive e trabalha em Nova York como ator em séries.

A narrativa se localiza entre dois polos (Nova York e Rio de Janeiro) de uma América assolada com as reverberações do atentado às Torres Gêmeas. Do encontro de Mirna com Ismael num teatro em Nova York em dezembro de 2001 – momento em que o filho apresenta uma peça teatral sobre sua própria vida, Ator Principal, desencadeia-se uma sucessão de eventos narrativos marcados por dinâmicas e impasses comuns à vida globalizada: dissolução dos laços coletivos, dissensos no pacto eminentemente econômico a envolver diferentes territórios e culturas do planeta, acirrados com conflitos de toda ordem e a crise crescente do projeto transnacionalizado do capital.
Ganham a cena multidões de corpos e espectros de humanidade em fuga televisionada sem saída. As conflagrações desencadeadas com o 11 de Setembro surtem um clima de suspense infinito entre o que ocorre e o que é noticiado. Como bem apreendeu Baudrillard, “a não-guerra inaugura a inquietante familiaridade do terror”.
Em contraposição, não mais correspondendo a uma concepção padronizada de socialidade, emerge em Seriado uma sintonia planetária nômade, atravessada por fluxos migratórios, descentralizações, num andamento multitudinal incalculável, tendo o construto de pertencimento favorecido pela tecnologia como propulsor de contatos à longa distância.

O tempo real da vida multisseriada se apresenta em um conglomerado de povos e espaços em confronto, assim como figura o bairro nova-iorquino da última série em que Ismael atuou: Game – Forum –Zero. “Golfo” é o nome de uma espécie de zona extraterritorial dentro da metrópole; ou “Globo – Glomus (Aglomeração rebaixada a uma sobrevivência mantida por refugos, recolhas de real adulterado, subvalorado)”.
A contar das constelações de sentido que vibram nos territórios os mais culturalmente diversificados no contexto da mundialização, o romance enquanto proposta serial/sideral ganha a consistência de uma multiplicidade de signos projetados entre as distâncias e as temporalidades, entre céus e terras. Trilha a vertente de uma cosmopoiesis – que vem também a ser uma cosmopolítica.
Um cruzamento de prismas se intensifica em várias esferas de conhecimento e subjetividade através de configurações expandidas de estar-no-mundo hoje. A narrativa em trânsito sinaliza processos de individuação das personagens que ganham corpo em um amplo horizonte de espaços heterogêneos, superpovoados. “No lugar de uma receptora de mensagens de áudio e espectadora de imagens (ao fim da existência), a dinâmica serial explicita o novo campo de produção alcançado pelo formato fração/fragmento”, assim expõe um personagem do livro, analista do boom dos seriados na atualidade.

De um enredo nuclear, S. Vasconcelos implementa uma história multimodal e serializada: as vidas de mãe e filho, emaranhadas a sistemas de informação, impelidas pela história virótica de povos em guerra e dispersão sobre a terra. Isso se dá sob a marcação do tempo do desastre, matriz grau zero que se extremiza na sequência dos anos desde o início do milênio. Assim, cada fragmento de Seriado, cada plot concentra um intrincado jogo de antagonismos e enlaces – a figura da mãe, por exemplo, irá se deflagrar em uma personagem que aos poucos constitui a ideia de uma anti-matriz –, de modo que o desdobramento da trama ganha uma força eletrizante característica dos thrillers tão comuns ao universo serial.
A implicação de duas personagens absorvidas pelo mundo das séries – a mãe, enquanto assídua espectadora, e o filho, um atuante nessa vertente – acaba por fornecer elementos para que uma história doméstica exponha-se em consonância com a serialização, hoje onipresente na vida cotidiana, de uma cultura digitalizada e regida por fluxos audiovisuais. Interferentes em diferentes esferas, inclusive no campo da narrativa literária. “O dado familiar capaz de converter em laboratório subsequente noite após noite (formato-episódio) a radiação de um fluxograma – / De um lado, escorre a comunicação corrente-universal sob forma de deliberada fantasia, tendo na outra ponta a fiação brutal do Coletivo Cotidiano Ao Vivo.”
Assim, Seriado demonstra que a escrita de romance é capaz de recriar trilhas para o audiovisual e diversos modos de arte, inclusive a literatura, quando levada a um dimensionamento tecnonarracional em sintonia com a grande disseminação de streamings. A contar de sua proposição como romance serial, também sideral por força de seus pontos conexos em expansão, o livro de Mauricio Salles Vasconcelos restitui à existência humana uma familiaridade inédita. Algo que se experimenta no corpo a corpo com o mundo em sua variedade de dispositivos tecnológicos e disposições comportamentais ocorridas em tempo real, na vertigem de um incessante fluxo de relações e renovações narrativas.
Tiago Cfer é pesquisador e escritor. Prepara a edição de seu ensaio Desabrigo-Mundo – Narrativa Século XXI e do romance Gradiente Spectrum.

Seriado, de Mauricio Salles Vasconcelos –
Editora Kotter, 2021








Essa manobra homodiegética ocorre num processo narrativo que distribui a história em samples diferidos dessas três matrizes (duas mulheres e uma criança/adolescente), o que proporciona um ritmo de música em loop ao romance. Algo capaz de combinar o cinema de Jean-Luc Godard à literatura do espanhol Agustín Fernandez Mallo numa cena/ambiência de música eletrônica.
Em seu livro, Postar, Fabular, um intenso intercâmbio com meu Postar (Popstar) se enuncia. O autor de Disco Dublê (Kotter, Curitiba: 2018) aponta no livro citado o modo como o romance assinado por mim faz vir à tona as linhas cruzadas com o real e as ondas informacionais que se condensam, de uma certa/orbitante forma à maquínica web, mas estão viralizadas em vitrais/ramais por toda sorte de convivência, comporta/portal. De tal maneira que a bifurcação entre uma dita plugagem tecnoctrônica e um dito real (acachapante por força do período miliciano-militar vivido pelo Brasil desse agora) tenta por vezes se homogeneizar. Mas acontece, em contrapolos rebeldes a qualquer ética adestrada, um baralhamento salvador por ordem de um jogo nunca fechado na competição hegemônica do perde-ganha.


– Esse complemento (transcrito agora “à guisa de parágrafo”) se revela imprescindível, Corinna Telêmaco. E você não está aqui. Eu mesma já me tornei outra pessoa. A resposta à questão-entrevista certamente surgirá em outro molde, nova matriz. Acontece que não é uma resposta, nem diz mais respeito a mim.
M S V