ROMANCE SERIAL/SIDERAL

Seriado, de Mauricio Salles Vasconcelos, apresenta um panorama de enfoques e procedimentos para a escrita do romance no presente milênio. Com a utilização de técnicas de transmissão em rede, vincula trama narrativa ao fluxo de imagens-de-mundo difundidas no universo da produção serial. O autor cartografa as dimensões existenciais de uma época marcada por eclosões de conflitos, crises globais e estilhaçamento de perspectivas coletivas desde o 11 de Setembro de 2001.

O projeto parte de uma narrativa em torno de um núcleo composto por mãe e filho na constituição de um romance familiar, parafraseando-se aqui a conceituação de Freud, não mais em termos tradicionais, mas numa outra vertente, passível de se definir como romance familiar sideral.

Mirna Amorim, “mãe que acabou sozinha em sua própria moradia”, desloca-se entre um espaço de confinamento no Brasil – apartamento onde vive instalada diante de uma televisão enquanto acompanha a telenovela Grande Shopping Veredas – e caminhadas urbanas movidas por sexo irrefreável. Jornalista idosa, desde um desentendimento há seis anos com o filho, Ismael A. B., ela não mais manteve contato com o rapaz, que vive e trabalha em Nova York como ator em séries.

A narrativa se localiza entre dois polos (Nova York e Rio de Janeiro) de uma América assolada com as reverberações do atentado às Torres Gêmeas. Do encontro de Mirna com Ismael num teatro em Nova York em dezembro de 2001 – momento em que o filho apresenta uma peça teatral sobre sua própria vida, Ator Principal, desencadeia-se uma sucessão de eventos narrativos marcados por dinâmicas e impasses comuns à vida globalizada: dissolução dos laços coletivos, dissensos no pacto eminentemente econômico a envolver diferentes territórios e culturas do planeta, acirrados com conflitos de toda ordem e a crise crescente do projeto transnacionalizado do capital.

Ganham a cena multidões de corpos e espectros de humanidade em fuga televisionada sem saída. As conflagrações desencadeadas com o 11 de Setembro surtem um clima de suspense infinito entre o que ocorre e o que é noticiado. Como bem apreendeu Baudrillard, “a não-guerra inaugura a inquietante familiaridade do terror”.

Em contraposição, não mais correspondendo a uma concepção padronizada de socialidade, emerge em Seriado uma sintonia planetária nômade, atravessada por fluxos migratórios, descentralizações, num andamento multitudinal incalculável, tendo o construto de pertencimento favorecido pela tecnologia como propulsor de contatos à longa distância.

O tempo real da vida multisseriada se apresenta em um conglomerado de povos e espaços em confronto, assim como figura o bairro nova-iorquino da última série em que Ismael atuou: Game – Forum –Zero. “Golfo” é o nome de uma espécie de zona extraterritorial dentro da metrópole; ou “Globo – Glomus (Aglomeração rebaixada a uma sobrevivência mantida por refugos, recolhas de real adulterado, subvalorado)”.

A contar das constelações de sentido que vibram nos territórios os mais culturalmente diversificados no contexto da mundialização, o romance enquanto proposta serial/sideral ganha a consistência de uma multiplicidade de signos projetados entre as distâncias e as temporalidades, entre céus e terras. Trilha a vertente de uma cosmopoiesis – que vem também a ser uma cosmopolítica.

Um cruzamento de prismas se intensifica em várias esferas de conhecimento e subjetividade através de configurações expandidas de estar-no-mundo hoje. A narrativa em trânsito sinaliza processos de individuação das personagens que ganham corpo em um amplo horizonte de espaços heterogêneos, superpovoados. “No lugar de uma receptora de mensagens de áudio e espectadora de imagens (ao fim da existência), a dinâmica serial explicita o novo campo de produção alcançado pelo formato fração/fragmento”, assim expõe um personagem do livro, analista do boom dos seriados na atualidade.

De um enredo nuclear, S. Vasconcelos implementa uma história multimodal e serializada: as vidas de mãe e filho, emaranhadas a sistemas de informação, impelidas pela história virótica de povos em guerra e dispersão sobre a terra. Isso se dá sob a marcação do tempo do desastre, matriz grau zero que se extremiza na sequência dos anos desde o início do milênio. Assim, cada fragmento de Seriado, cada plot concentra um intrincado jogo de antagonismos e enlaces – a figura da mãe, por exemplo, irá se deflagrar em uma personagem que aos poucos constitui a ideia de uma anti-matriz –, de modo que o desdobramento da trama ganha uma força eletrizante característica dos thrillers tão comuns ao universo serial.

A implicação de duas personagens absorvidas pelo mundo das séries – a mãe, enquanto assídua espectadora, e o filho, um atuante nessa vertente – acaba por fornecer elementos para que uma história doméstica exponha-se em consonância com a serialização, hoje onipresente na vida cotidiana, de uma cultura digitalizada e regida por fluxos audiovisuais. Interferentes em diferentes esferas, inclusive no campo da narrativa literária. “O dado familiar capaz de converter em laboratório subsequente noite após noite (formato-episódio) a radiação de um fluxograma – / De um lado, escorre a comunicação corrente-universal sob forma de deliberada fantasia, tendo na outra ponta a fiação brutal do Coletivo Cotidiano Ao Vivo.”

Assim, Seriado demonstra que a escrita de romance é capaz de recriar trilhas para o audiovisual e diversos modos de arte, inclusive a literatura, quando levada a um dimensionamento tecnonarracional em sintonia com a grande disseminação de streamings. A contar de sua proposição como romance serial, também sideral por força de seus pontos conexos em expansão, o livro de Mauricio Salles Vasconcelos restitui à existência humana uma familiaridade inédita. Algo que se experimenta no corpo a corpo com o mundo em sua variedade de dispositivos tecnológicos e disposições comportamentais ocorridas em tempo real, na vertigem de um incessante fluxo de relações e renovações narrativas.

Tiago Cfer é pesquisador e escritor. Prepara a edição de seu ensaio Desabrigo-Mundo – Narrativa Século XXI e do romance Gradiente Spectrum.
        

Seriado, de Mauricio Salles Vasconcelos
 Editora Kotter, 2021

SEXO/SOMBRA: a erotização do mundo

 

 

                                                 Anderson Lucarezi

 

CLIQUE DA CLAQUETE: No turbulento 2019, a escrita-em-urgência de Mauricio Salles Vasconcelos realizou mais um afluxo proteico (Proteu / proteína) cuja preamar recebeu o nome Sexo/Sombra. O livro expressa aquilo que considera premente nos nossos dias: a expansão de uma sensibilidade que, indo além do mero elogio das miríades de perspectivas sexuais, aponta para uma erotização ampla do mundo, também no sentido simbólico; polinização de possibilidades para matizar o panorama, fraturar os discursos hegemônicos, muitas vezes esterilizantes.

Perante um contexto no qual o posicionamento oficial do país defende generalizações violentas – menina veste rosa e menino veste azul ou Deus acima de todos –, Mauricio responde com vigor vitalista e artístico, o que se evidencia em suas performances baseadas no livro e, principalmente, na forma de sua escritura, paratática, fraturada, não alinhada à lógica corrente e unívoca.

 

 

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Um dos procedimentos formais de ruptura com os discursos imperantes: a tessitura de uma sintaxe pautada menos pela subordinação do que pela coordenação e pela parataxe, recursos sintáticos, esses dois últimos, explorados por Mauricio desde seus primeiros livros.

Versos como “Subo o berço de trigo e mirra / A benzedeira pesquisa / não alcança meu rosto”, de Lembrança Arranhada, obra de 1980, ilustram o primeiro recurso sintático mencionado, isto é, a coordenação, a ordenação justaposta, em que, apesar da independência sintática, as orações estão semanticamente encadeadas. Já versos como “(…) máscara da palavra / Silenciada sob o som, peso-morto, pisca-pisca por Breu-Cruz: / 1000 Anos-Luz, Palavra-Peso, Imagem Avessa, Vida-Sem-Lavra”, de Ocidentes dum Sentimental, ou “Beijo das bocas – Adjacência – / Moral – Musical / Score – Do fim.”, de Sexo/Sombra, são experiências sintáticas mais radicais que tendem à parataxe, à não previsibilidade semântica.

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Myriam Ávila[1], estudiosa do assunto, defende: enquanto a coordenação corresponde – imageticamente – a um exército de soldados espaçados caminhando para um destino (semântico) comum, a parataxe poderia ser representada por pessoas compartilhando uma mesma rua, mas cada uma caminhando para um destino próprio. A leitura de Sexo/Sombra passa, como já mencionado, por casos de parataxe, inclusive por momentos em que ela se dá no nível macro, isto é, extrapolando o campo do poema e enveredando pelo campo do livro.

Alguns textos, ao mesmo tempo em que carregam algo de completo em si, não se entregam totalmente, adiando sua apreensão pelo leitor, jogando a suposta chave de leitura para o contínuo. Nesse sentido, um poema abre uma linha que só volta a ser fisgada em outro escrito, fazendo com que o livro pulse, à maneira de Gertrude Stein, como algo relacional em que os sentidos dos textos não estão neles próprios, isoladamente, mas na relação entre eles, isto é, nos fluxos e contrafluxos da escrita.

Iniciações – a parte – inicial – do livro, pauta-se – por esse – ritmo – ao mesmo – tempo – corrente e – contracorrente; poemas quase-crípticos cuja leitura sequenciada ilumina aquilo que aparece antes. Amostra disso é o último texto da seção, “Mira”, que dispara – “Desígnio do sexo // A ser testado mesmo depois / De todo fim / Como se fosse // Uma primeira vez” – versos que desanuviam a opacidade inicial do título da série, sugerindo todo sexo como uma iniciação, não no sentido virginal, mas no de uma busca da intensidade característica da vez primeira. Iluminam-se, a partir desse, trechos anteriores de poemas do grupo, como “assim agora // até o fim // repete-se ‘Até o fim’” ou “Chama-se sexo (senha a ser / Reincidida)”.

Paralela a esse anseio pela repetição, pela reincidência do sexo como forma de reviver um prazer original, a constatação de que não se é mais o mesmo após qualquer tipo de experiência, inclusive corpórea. Evidências: “(…) corpo que age    sob/sobre / O meu último eu”, “(…) logo mais / Ex” e “Da impossibilidade de qualquer repetição (…) // De uma repetição impossível / Qualquer”. Contrastam, então, esses obscurecimentos impressos no passado, ex-seres tornados outras coisas, com a luminosidade da chama sexual; claro-escuro que matiza o tema a que o livro se propõe, revelando que nem tudo é prazer. No entanto, se depois do sexo, a sombra, Iniciações dobra a aposta na erotização após / contra a treva, propõe um outro sexo, ainda que se almeje aquela mesma intensidade original. Botão de flor entre os escombros. Nascituros em meio à pandemia. Vida que segue. Novas possibilidades.

 

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Na segunda parte do livro, Libreto (três corpos), surgida a partir do corpo a corpo com Hilda Hilst, Tite de Lemos e Eduarda Dionísio, o caráter paratático da escritura se acentua. “Vivo o rolamento de todas as coisas”, linha de um dos poemas da seção, é a frase-encapsulamento da lógica-estética não hierarquizante proposta pelo livro. Ao longo dos escritos dessa e da parte final do livro, Beijos Públicos, o que se passa nas páginas é precisamente isso: rolagem – justaposição – sequenciamento; ritmo cinemático que reverbera (mas refratando inventivamente) referências do campo da não linearidade, da abertura a lógicas outras; um arco que vai de Rimbaud e Mallarmé até Charles Bernstein e Lyn Hejinian, passando pelas experiências, por exemplo, de Pablo Picassso, Getrude Stein, Décio Pignatari, Sergei Eisenstein, Mário Peixoto, Jean-Luc Godard, Júlio Bressane.

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A poética de Mauricio concretiza, então, toda uma rede de relações por meio do contato e do contraste de palavras e intertextos. Para isso, engendra uma forma-conceito que supera o “falar sobre”, muito comum na poesia contemporânea, e exerce uma ética composicional que, contrária à pretensão da univocidade, almeja a expansão erotizada do mundo, principalmente a partir do infinitesimal da parataxe, gameta-escritural.

Considerando que a sintaxe paratática, por assemelhar-se à lógica do pensamento oriental (evidenciado, por exemplo, pelos ideogramas chineses), indica uma relativização da lógica analítico-discursiva típica do Ocidente, pode-se dizer que seu uso é bastante coerente com a proposta de abertura à alteridade e de questionamento de discursos hegemônicos que os livros de Maurício propõem.

Essa contemplação da alteridade inclui, também, a descentralização, o deslocamento dos pontos de vista dos sujeitos. O primeiro poema de Sexo/Sombra já lida com tal questão ao enunciar “Viver sempre / Dar / O mais íntimo / O que não me pertence”, pois o não pertencimento daquilo que nos é mais íntimo caracteriza, em boa medida, um jogo de perspectivas que reconhece a realidade relacional da vida, ideia reforçada pelo poema seguinte, que diz “Verter o diário    corpo dual / ao mais vivo vírus / (o não-estar-em-um / nem durante    nem depois dois)”.

Outra forma de abordagem da alteridade se dá por meio da indefinição enunciativa de certos poemas. Em alguns momentos, os escritos do livro nublam a cara da voz emissora, isto é, não fica claro quem está enunciando aquelas palavras. O uso de verbos no infinitivo (como exemplificam os poemas citados no parágrafo anterior) é um dos recursos de despersonalização explorados pelo autor. Em outros casos, no entanto, há explicitação do pronome “eu”, mas isso não é suficiente para saber se quem está falando é a voz da experiência-testemunho pessoal do autor, se é um outro ser de linguagem ou, ainda, se o que ocorre é uma alternância de perspectivas. O uso, em alguns poemas, do itálico e de rubricas entre parênteses também contribui para esse enevoamento da voz emissora.

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Ao emaranhar os pontos de vista por meio de uma sintaxe aberta e eletrizada, o livro, dentro do tema geral a que se propõe, acaba por esboçar um horizonte no qual torna-se viável conceber ideias tais como a da feminização do homem, da masculinização da mulher, da homossexualização do heterossexual e da heterossexualização do homossexual, isto é, questões não assimiladas por nenhum dos espectros políticos de maior ressonância no panorama atual. Numa visada contemporânea singular, a obra de Mauricio repudia tanto o conservadorismo que não conserva quanto os falsos discursos progressistas, buscando, em vez da segmentação identitária, um sincretismo de entendimento, de empatia, mas nada pusilânime, visto que, capaz de assumir os olhos da fera, solta o rugido da onça – iauaretê – e afasta a noite, a sombra.

 

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Sexo/Sombra, de Mauricio Salles Vasconcelos. Lisboa: Traveller, 2019.

                    Anderson Lucarezi (São Paulo, 1987) é escritor, professor e tradutor. Publicou Réquiem (Ed. Patuá, 2012), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011, e Constelário (Ed. Patuá, 2016). Como tradutor, dedica-se a trazer para o português as obras de poetas norte-americanos como Hart Crane, Jerome Rothenberg, John Gould Fletcher, entre outros. Faz, atualmente, mestrado em Letras Estrangeiras e Tradução na Universidade de São Paulo.

 

Nota/Referência Bibliográfica

[1] ÁVILA, Myriam. Dupla consciência e parataxe como conceitos críticos. Remate de Males, 28(2), 2010, p. 189-196. disponível em:  https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8636300

 

 

 

DISCO DUBLÊ – ROMANCE DE TRANSFORMAÇÃO

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 ROMANCE DE TRANSFORMAÇÃO

DISCO DUBLÊ. Mauricio Salles Vasconcelos.

Editora Kotter:  238 ps. R$ 45,00.

 

Considerável para a arte de narrar é o modo como um autor coloca signos e figuras em movimento, a maneira como ele introduz personagens em um determinado espaço-tempo sem reincidir em suas funcionalidades, mas acionando o sentido jamais imóvel das coisas. Uma narrativa se faz enquanto diz algo feito um contradito.

Em Disco Dublê, romance lançado no segundo semestre de 2018 pela Kotter Editorial, Mauricio Salles Vasconcelos toma o universo do DJ – instrumentista entre maquinismos e multidões – como lugar de recepção de toda uma historiografia exorbitante, satelizada, extraterritorial, tal como vem emergindo desde a segunda metade do século XX uma marca não epocal em decurso e prolongamento no presente milênio.

“DJs são produtos sintetizados. Não chegam a ser mais do que: revérbero de desaparições e ressurgimentos” (p. 223).

Centrada nos anos de aprendizado e criação de Dario Amarante Vaz, DJ Vazante, a narrativa opera através da imagem do duplo/dublê, do DJ. Apesar da vida do narrador-personagem se estender por todo o romance, da juventude até os 60 anos, observa-se aí um dado curioso: sua percepção não determina a trama, vai sendo fiada e propagada por diferentes modos de relatar e arquivar provenientes de outros três narradores suplementares – Marcianita, “irmã de criação” e depositária de arquivos musicais e notas de Dario; Laureana (DJ Lollipop), única mulher com quem se relacionou e que marcaria seu percurso de DJ para sempre; Delta (Delano), menino skatista que passa por sua vida uma única vez.

SKAEssa manobra homodiegética ocorre num processo narrativo que distribui a história em samples diferidos dessas três matrizes (duas mulheres e uma criança/adolescente), o que proporciona um ritmo de música em loop ao romance. Algo capaz de combinar o cinema de Jean-Luc Godard à literatura do espanhol Agustín Fernandez Mallo numa cena/ambiência de música eletrônica.

O que aparentemente forneceria uma estrutura cronológica do personagem, passado (irmã), presente (mulher) e futuro (menino), a formar a unidade de um relato, apresenta-se então numa estrutura dissipativa articulada a outros repertórios – música eletrônica como eixo instrumental/conceptivo de uma bateria de forças e fontes de leitura do nosso tempo em convergência com as travessias geográficas da história de agora. Disco Dublê se aproxima à noção de transicionalidade, desenvolvida pelo teórico Jean Bessière em Romance contemporâneo ou a problematicidade do mundo, na proposição de um romance-música. Nele, DJ Vazante se vê, em pontos extremos do tempo e planos desnorteadores da identidade, confrontado com essas figuras (Marcianita, DJ Lollipop e Delano) que formam, assim, as personae reveladoras de uma história-de-vida. O protagonista não se limita à música e à posição noturna de operante-artista musical à distância, mas consigna um efeito de radiância ao romance que, ao invés de flagrar e se delimitar a uma vida, espraia em modulações de bio-relatos. Faz assim vibrar desaparecimento e morte num para sempre da matéria escrita (“um corpo morto não pára de atuar sobre o lugar onde bem acabou”, p. 196).

A pergunta para onde vai a música, alusiva talvez à questão blanchotiana por excelência (para onde vai a literatura?), funciona como indagação propulsora, dínamo do ato escritural em Disco Dublê.

Quais as maiores músicas da década, do século que está para acabar e já começa, de novo, como milênio? Eu pergunto na hora: Para onde é que vai a música depois que ela passa?” (p. 26).

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Com a figura de DJ Vazante, sombra errante (encoberta por capuz, óculos escuros e fones de ouvido) a deambular por diversas metrópoles do planeta, surge uma narrativa concebida como escrita de caminhada. A livre leitura feita por Mauricio S. Vasconcelos de Os devaneios de um caminhante solitário, de Rousseau, transformando rêverie em rave, aponta para uma mutação histórico-discursiva já notada por Derrida no início dos anos 1970: passagem do logos (razão) ao loxôs (obliquidade), da apropriação do mundo pelo entendimento à sua expropriação pela escuta. Justamente aí onde a temporalidade progressiva do romance de formação escande um romance de vida já formada, no irrompimento da velhice, capaz contudo de repensar formação sob a batida da transformação de uma época tecno, inevitavelmente atuante nos atos e no corpo do DJ.

“E, assim, o tempo se acresce como na sequência de um sentido sem­pre suplementar – querendo-se ou não através da continuidade (vitó­ria do capitalismo? voluta impensada, insondável, do próprio tempo a se dispor para além do que eu digo e vivo? e então passo a fazer soar como música de fim e de festa?)” (p. 78).

Realizando uma arqueologia da cultura audiovisual, entre máquinas e mídias, por universos como o do iPod, música eletrônica, cultura DJ, cinema, TV, serialização streaming, os livros de MSV – Stereo (2002), Ela não fuma mais maconha (2011), Moça em blazer xadrez (2013), Telenovela (2014), Meu Rádio (Coletivo Animal) (2016), Bráulio Pedroso (Novela da Noite) (2018) – compreendem o que examino e sinalizo como escritas do século XXI. Narrativas não mais encaminhadas a uma época histórica, mas implicadas numa liberação mesmo da história, na profusão de formas de vida/escrita, eras e Eros entrelaçados a um só tempo trans: Er@s.

Em Disco Dublê, a música no tempo atua amalgamando diversas manifestações artísticas e formas de pensamento eclodidas no século XX numa revivificação do ato de narrar. No livro são entrevistas proposições/situações em formulação de modos de vida disrompidos do tempo passado, capazes então de reinventar a convivência nas cidades planetárias marcadas pela explosão atômica, decomponíveis em performances urbanísticas movidas por fluxos libidinais, dispositivos pulsionais, conexões, trocas de energia, em uma passagem mais complexa do que se entende como duração de um dia e sua mutação num próximo dia. A cada página do romance, abrem-se os veios de uma nova/antiga vida deixando entrever a possibilidade abissal de uma outra profundidade de tempo, submetida a uma espécie de escavação arqueológica sob o andamento dos bits musicais.

Como se lê nas notas do skatista Delta (Delano), que recepciona os trajetos da existência do Dj Vazante, a história não pára de se transformar no(s) próximo(s) romance(s) em insurgimento no universo infinito da fabulação:

“Como se o dia passasse na sua contraface – contraefeito – da cons­telação maquinal onde me insiro e se inseminam as menores sensações de estar vivo (numa “época”, num certo lugar). E eu não pudesse perder mais o rastro externo – exorbitado, aéreo ou terreno (o que for, tudo num mesmo tempo) – quando/onde mais me sinalizo” (p. 122).

Tiago Cfer

 

 

 

 

 

 

 

 

@mauriciosallesvasconcelos

futebol           Em seu livro, Postar, Fabular, um intenso intercâmbio com meu Postar (Popstar) se enuncia. O autor de Disco Dublê (Kotter, Curitiba: 2018) aponta no livro citado o modo como o romance assinado por mim faz vir à tona as linhas cruzadas com o real e as ondas informacionais que se condensam, de uma certa/orbitante forma à maquínica web, mas estão viralizadas em vitrais/ramais por toda sorte de convivência, comporta/portal. De tal maneira que a bifurcação entre uma dita plugagem tecnoctrônica e um dito real (acachapante por força do período miliciano-militar vivido pelo Brasil desse agora) tenta por vezes se homogeneizar. Mas acontece, em contrapolos rebeldes a qualquer ética adestrada, um baralhamento salvador por ordem de um jogo nunca fechado na competição hegemônica do perde-ganha.

Está, aliás, na proliferação de imagens desdobradas de cartas, cartões-postais de uma remissiva realidade, sempre em busca e incessada continuidade, nosso modo de viver a fábula do mundo (como se fosse, era uma vez a moral de uma postagem).

Tudo o que insemina o espaço de um romance. São outros alinhamentos e espaçamentos aqueles contidos na página-in fabula.

Indispensáveis se mostram os chamados vindos off-line (do que se lê diretamente num entrecho-romance ao mesmo tempo percutido por uma consulta à tela-info). Situa-se em tal intermitência intervalante, o que pode se chamar de escrita. Até porque nunca se viveu antes sob um número transfinito de códigos em correspondência sempre vicária com as incontáveis criaturas interpostas ao Placar Realidade. Migrações enormes desnorteiam a conferência distrital das nacionalidades. Na autoaferição da sexy-identidade, já somos muitos copuláveis pontos de atração e imantada forma de desejar disseminada naquele encontro repousante de um eu com seu pretenso soberano vazio.

Lembro-me, num repente, da épica proposta por Hermann Broch. Através de um pesponto (exo-relato) simultaneamente advindo de Virgilio, assim como do século bélico passado e da atmosfera assoprada/assoviada por um canto anônimo popular aderido a  um jovem passante: rito-ritornelo como motivo da vida de todos; até o fim se enfrenta um escoamento/endereçamento perdido de visto e vista (súmula incapaz acerca de um sujeito). Assim é o q me parece a escrita em enveredamento no corpo de títulos sob a senha MSV. Meu modo de manter em colóquio com o maior interlocutor do que produzo com o nome-literatura é traduzí-lo: Movimento-Ser-Virtual.

Nossos livros nunca param de se entrelaçar. Há máquinas entre nós. Em extracampo de fomentações fabulares colhidas no continuum histórico-real inseparável do que somos distraidamente como pessoas, envolvidas com instantâneas questões (linhas de uma autoria firmada em capas de livros).

Quanto mais assino teti conrado (em outra ponta de real extremo-espaçotempo) Eu Mauricio Salles Vasconcelos.

ROMANCES – RODAPÉS – REMETENTES

Mauricio Salles Vasconcelos

“Procurem mostrar uma outra lógica que não é a da palavra (…) O mais importante são as coisas que as pessoas não sabem que vivem”

Esqueci-me do alguém da citação. Vem, contudo, do período crítico (mais do q clínico). As alamedas de Sanatorinhos se ramificam em casas baixas prestas a ser demolidas no Bairro Pinheiros, Capital de Glória na América Latina em Alta Retração do Revolvimento dos Seres. Evite usar a palavra Revolução de modo a escutar as mutantes linhas que sigo. Bifurco a área contaminada, sem deixar de contar sua existência, de mira no romance-de-vida feito só agora. Não dá para contar com adiamento, nem a meta num montante de visibilidade, aparições no mercado e número de gozos obtidos.

À maneira de rodapés consultados em compulsão, vejo as nervuras de que sou feito (evito declinações Gender e Gregarismos). Inervação-Paradoxo, estou no interior de um romance e logo corto a sequência onde pareço me entregar

Rodapé reincidente        “O Velho Psicanalista são seus

(Mais do que analisandos/visitantes)

São seus corredores e falhas nos tapetes tão floridos quanto poeirentos, cortinas tocam suas abas de ponta a ponta por força do obsedante vento. Ele está em causa, ladeado por seu mestre ancestral (retrato invisível posto contra as costas das visitas). Vai se tornando sala aquela lugar-exclusivo-expediente/ponto onde se rememora do modo mais solitário (o homem, o ouvinte).

Enquanto histórias se superpõem ante seus próprios olhos neutralizadores de qualquer risco de abismo e fantasia de fim”

Darei exatamente o título do romance a caminho: O Psicanalista (Fantasia de Fim)

Assim fico liberada para dizer de segundo a segundo meu próximo sexo. O que contém um segredo (não o “segredinho sujo” expropriado até à expulsão, por Mr. D. H. Lawrence)

Acontece que um livro, depois de editado, não libera ninguém. A partir daí é q começam a jorrar os dados nada duais. Fazem trípicle sequência sobre o sexteto ladeado de um mero jogo-de-azar. O Asaro. Tudo que fala azara alguém. Isto é o livro e o sequente acontecimento a envolver uma autoria. Principalmente no esquadrinhado escopo da Cultura-Romance. “Há que se obter uma ética da sedução”. Para lá das urdiduras de Mme de La Fayette e do tramado de dor/história nos picos do desespero em M. Duras ou Maura L. Cançado.

Cada vez acredito no que se configura no papel. Não sou o centro dos lançamentos. O suporte branco caderno tela-abscissa recria minha pretensa história-de-vida. Vamos dizer, Teti Conrado.  – Aceite o lado/dado –  Vamos dizê-la.

ELECTRO SELF – RUAS E GRAFITES

 

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A proposição e a presença do Corpo Elétrico, em Walt Whitman (tal como radia Song of Myself/Canção de Mim Mesmo), viabilizam uma nascente focagem no ato de notar, no senso de notação, ao compasso de uma escrita eletrificada com nossa era regida por high technology e mediações em todas as órbitas cotidianas. Notação em vez de anotação. Um surgente veio produzido sob o influxo de respostas imediatas, engrenagem sensório-maquinal, próprio de criaturas cercadas por fiações não apenas tecnificadas, uma vez que o corpo sempre diz do pulsional, instigado como nunca por instâncias de instante/imanente época em um irreversível chamado. É um corpo q está sendo tocado, neste livro-poema-página (a leitura impactante de Ana C. César à volta de WW permanece).ana

Ao contrário do culto às selfies, em correspondência com os selves incidentes em projetos de escrita concebidos como uma hiperrepetida “autoficção”, quando não biorrelato ou, nos termos mais instigantes lançados por Foucault, uma escrita de si emerge, ao andamento de um cuidado de si, de um trabalho do corpo (em equivalência, certamente, com bodies of work, propulsionados por Kathy Acker). Algo mais próximo de uma vertente documental. Ou seja, para fora do sujeito, a dimensão em primeira pessoa se torna campo de virtualizações. Mostra-se como ativação/ativismo de uma sonda afinada com o que rola no mondo machina e todos os offs (line/alineas/alinhamentos identitários).

O que se escreve está tomado por fora. Vê-se numa ambiência em mutação. Ninguém se encontra sozinho, ancorado no princípio cada vez mais segregador e institucionalizado de um lugar (ponto fixo/prato-feito) de fala. Evidentemente, há que se construir para si um corpo (sem órgãos, ao modo deleuzo-guattariano desdobrado do Cruel Teatro Artaud ou o visionário polo de desregramentos, antevisto pela Carta-Rimbaud). Uma individuação se ergue contra todos os aninhamentos/anichamentos em tendências já corporativadas.      k a

Vem daí a eletrificação do corpo – desejoso de muitos, raiado/gozoso a ponto de inexistir uma única orientação para sexo, deixando de haver demarcação nesse sentido. Troca-troca da Infância, já enunciava Roberto Piva. Sim, porque a fala é uma enunciação coletiva, sempre em gradação disparada por muitos focos ardentes de um a outro. Bem fora da pavimentação de industrialização-urbanismo-democracia modernos, Whitman podia clamar A Canção de Si Por Si. Para além de si. Justo quando despontam ruas (na dimensão multitudinal irrecusável, intermitente, assim como lidamos com “milhões de amigos” nos recantos do postcard-livro de faces). Ruas e grafites. Somos lidos pelos que passam à altura da tecnificação dos mundos. Tudo o que pulsa no meu “pequeno eu” (lido/lindo poema de Ginsberg em consonância com o “eu menor” pensado por Laymert Garcia dos Santos, em “A experiência da agonia”, no contrapolo ao Grande Eu da Cultura).

Sim, o eu da cultura-selfie (nas postagens e nos projetos de livros) pode se tornar um hegemônico gordo repositório de reiterações anti-desejantes. O gozo da descoberta de si se paralisa, caso a escrita não saia da soberania de um sujeito autoposto. Por enquanto, eu assino meu nome como Teti Conrado. Encontro-me em diálogo com quem vier. Porque este texto é uma postagem. Encontra-se dentro de um álbum (tão volante quanto volitivo). Assim como se trata de uma página de livro. À gradação do grafite lido agora. Exatamente, na rua onde todos nós moramos.

Entrevista Teti Conrado entrevista teticonrado

            Tudo o que não disse depois que a entrevista acaba.

Volto ao arquivo, encaminhado pela repórter, fazendo checagem com o texto final da revista on-line: para verificar o desejo de réplica (sempre tardia).

– O que significam Bandos de Blogs Móveis em seu romance Postar (Popstar)? Indicam método de trabalho?

Ah, a resposta vem horas depois. Num repente, muitos anos rolaram e a articulação definitiva surge na sequência do que não é mais pergunta, porém um embate contínuo (deixa de haver o rosto da jornalista Corinna Telêmaco à minha frente, boca suspensa à espera do que tenho a dizer).

Na real, minha produção tem um vínculo forte com a peça O Sintoma – Por uma vida sexual irrefreável  (encenada em 2018, no Quinto dos Infernos, SP). No momento da abertura, sempre referendado ao longo do espetáculo muito breve, o ator Cosmo Cassiel ao reviver Leopold Bloom (Ulysses, de James Joyce) através da leitura feita por Lacan, em seu texto “O sintoma”, deixa exposto o inviável bate-pronto à questão, o confronto de toda uma vida resumido em pergunta-enquete-esquete da voz de alguém. Mesmo uma autora é um alguém em sondagem interminada. “O texto da resposta a uma obsedante entrevista/interface está pronto, só se dando no entanto em outro momento, outro espaço. Bem quando a questão acoplada à criatura que a lança, ela/questão não mais são recorríveis”.

O debate agora é só comigo. Blocos-Móbiles. Tudo surge do meu contato frequente com a pessoa e a escrita de MSV (Mauricio Salles Vasconcelos). Sendo sua amiga ao longo de décadas (muitos meses a mais devem ser considerados na formação de uma outra época, o que leva à outra contagem de seres e seleções de tempo), fui notando uma convergência incrível de interesses, motivos em troca acelerada, ao ponto de me pôr a escrever. Muitas vezes tocada por um lastro de parágrafo, outras pelo movimento de sua livre leitura (Mauricio gosta de ler para mim o que acaba de ser inscrito); tarde da noite emendada em outra tarde. A digitação de tudo em pauta entre nós foi meu primeiro relance. Bem depois passei a responder a algo extraído de mim numa originalidade nunca antes percebida. Curiosamente, uma primeira emissão singular (por escrito) tem noção de que o diálogo com aquele homem, ainda amigo, fica à distância. Embora seja meu primeiro leitor (ainda que não leia efetivamente o que escrevo; tantas vezes se impõe o silêncio).

Na peça escrita por ele – a citada O Sintoma –, desentranhada de Joyce/Lacan, perceptível se mostra o fato de que chega-se a um estado em que o escrito passa a nos ver. Ganha um corpo autônomo espraiado em coisas outras (ditas, vistas ou irrompidas num repentino quadro destituído de cifragem). Aí é que existem os Blocos Móveis – tudo o que dizemos nos circuitos de blogs e mensagens-boxes pretensamente encriptadas para amigos distantes ou próximos ao abrigo da Rede –

o sintoma         – Esse complemento (transcrito agora “à guisa de parágrafo”) se revela imprescindível, Corinna Telêmaco. E você não está aqui. Eu mesma já me tornei outra pessoa. A resposta à questão-entrevista certamente surgirá em outro molde, nova matriz. Acontece que não é uma resposta, nem diz mais respeito a mim.

 

 

A ARTE DOS E-MAILS NÃO RESPONDIDOS

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A arte dos e-mails não respondidos

Teti Conrado

Projeta-se sobre mim o artigo de Jonathan Frazer sobre o uso e a conversação dos celulares, tranposto com muitos adendos para a universália on-line. O que mais pauta, pontua, estar em sintonia com inumeráveis muitos diz respeito a contato/corte no interior de uma charada referente a e-mails não respondidos.

Frazer aponta para a entronização da “vidinha”, o texto íntimo replicante pelo apelo mais primário (leia-se “Amor sem pudor”) – coisas do coração, listas de compras e obviedades sob o autocomando fático (retome-se Jakobson). “Eu estou no aparelho móvel”, eis o que gritam os cels por cima de qualquer urgência e despontamento real de um chamado mobilizador. Antes de tudo, dobra-se o lugar-comum e não o comum/comunal possível de perpassar as tecnologias de som-imagem-palavra.

“Eu estou na outra ponta de um contato tão extenso quanto intimizado”. Nada importa que seja dito na esfera das correspondências virtuais. De novo, se repõe a encruzilhada autorreplicadora do dispositivo técnico. Acima da interveniência particular de quem se lança à conversa, ao colóquio, a qualquer espécie de apelo.

A dimensão orbitante, onisciente, de uma sintonia presente, sempre em aberto, conta com o apagamento, a ruptura do outro dialogante. A máquina passa a se comunicar sozinha sobre as emergências. É um fator-comunicação levado à sua própria falácia (com alguém ao acaso, “você mesmo” pelo meio).

Vive-se arte da incompletude quanto mais as distâncias se contraem dentro de um circuito aparente de pessoalidade. Trata-se de completar antes de tudo o vácuo formado posto à beira de um interpelante capaz de atribuir sua ausência por conta dos limites comunicantes disponibilizados.

Pode ser caso de excesso de mensagens, algum erro não comunicado, mas o humano está em causa nesse pico oferecido pela ordenação de mensagens imediatas e pelo não-dito implícito que conduz a uma arte, combinada com meditação, autoaprendizado, relativa à impossibilidade da presença. Ao tempo da mais alta tecnologia, há um contorno impreenchível, relacionado ao trabalho de ser vivo atuante para fora da pendência instrumental, da carência fomentada pelos amados objetos falantes, dotados de transparente visualização e aferição de dados (“tudo o que é seu, sou seu, amor impossível”).

Existe algo impossível de ser recoberto quando se emite o limite-humano acima da fábula maquinal ao fundo – abismo do fora – momento suspenso: não-estar à altura da hora que passa (essa direcionada, no intervalo de crescentes alheios ao nosso dispor/dispositivo, apenas “para mim”).

 

 

 

 

CALOR CLARICE

    Tudo faz coincidir com o pior momento da história (não faço crônica, nem deixo de sair de um coma, intraduzível mal-estar referente a Crise/Palavra-Insígnia da segregação operante a se perder de conta): calor, domingo em desvalia (quando os dias úteis acabam), inexistência de elo comum. (Até pouco antes, eu tentei separar solidão e solitude, para benefício do ente abandonado por si mesmo, tornado força agora então).

   Revela-se falsa a luz eterna/internáutica. Quando um sol abarca, abrasa em seu toque incompleto o senso de abrigo. Ninguém se encontra à distância, porque ultramediado; põe-se inevitavelmente à mostra, cubo-apt sempre exterior a um palmo arquitetônico de olho íntimo e conjunto/conglomerado pós-humanista. Extrapolo. Algo incapaz de ser visto de um único dentro/centro. Mesmo o tal aludido sol igual à vida não reserva trégua, incabível em si, clarice (o nome-autoria de língua portuguesa mais lido em radiação-tela).

    Calor Clarice conduzido entre não-respiração e o fôlego meditativo. Através do que vem da rua/Incrivelmente, do plano em que o olhar desolado quer pousar para encontro de um solo negativo e propagador do incontrolável desespero quanto há mais gente de um modo bem intrigante gente vinda de tudo que é parte. Não é Parada. Nada para. Sem-Razão (à vista/ausência de festa/comunidade). A estação vira num repente, expulsa a possibilidade de harmonia, de um ponto a outro tudo empedra (ninguém escapa ao casulo contrassolar, metafísico ventilador).

   Superpopuloso clima – braços cruzados por sobre a janela – um vidro (aro quebradiço). Estou sempre pronta para a guerra (minúscula, involuntária, incessante).

   Vem da rua – o mal (o que não deve ser dito, toda palavra se transforma enquanto há senso, quero dizer corpo) – Vem da menor falha movida pela estratosfera, um único corpo tombado sobre a hiperpovoação –

   De onde se radia de um modo igual quando mira-se o céu aguçado por desastre ecumênico, ecosófico –

   Onda cálida catalisadora do que abstrai e abasta o em-volta (sufoco para cada palavra emitida por humano em saturação de calor, seu extremo). A intervenção cirúrgica de quem escreve em trespasse para ser lida em volta de todos, Clarice tal qual o calor/as datas batem/as motivações se tocam, estão na crista

   Domingo Maldito) – Assim, ela definiu, com base no filme polissêmico do sexo à deriva rodado por John Schlesinger – a ronda entre ap e botequim (living forrado de imagens diagonais modernas não impede a busca de Comprimido Melhoral, Coca-Cola, Cigarro Minister, no estabelecimento ao pé do prédio) – O calor fusionado com o dia abstruso ao grau máximo da História em seguimento e toque regressivo, numa só tacada, se torna a meditação crucial de gente/giro da hora (gente significa exatamente giro da hora, friso, depois passo a me entender e esquecer) –

   Circuito direcionado, nos menores atos, ao postante receptor tão vivo quanto distante/Assim, a subsistência como quem se apresenta nos grids-diagramas de uma postagem/Vidro-janela visto ao longe, reconhecivelmente há ao fim de tudo um habitante da solidão-cidade em certa época: rasgo do entrevisto horizonte lá no mais alto edifício, rachadura sol no auge refrata

   O calor vem de mim.

                                           M A R I   S O A R E S   V A R E L O

Surtos Shoppings Sitiados – Depois do Sexy?

Mauricio Salles Vasconcelos

Desde a dissolução dos emos[1], concentrados em São Paulo (Brasil), na virada da Avenida Paulista com Rua Augusta (rumo ao Centro), não se via uma tão efetiva/afectual marca de pertença. Não há nome para definir tantas pessoas reunidas, reencontradas à volta de alguns, obsedantes, sinais. Quem sabe? Mais do que surto: uma surgência.

Uma talagada da bebida exibidamente barata ou cavalgada de coisas reunidas num só átimo sobre passantes que voltam a se sentar naquele lugar: um canto do mundo à beira da maior metrópole latino-americana. Esquina exageradamente ocupada (por nada, noema, no ver de um alado anúncio).

Muito tempo depois da desaparição dos emos, tudo o que se ouvia sob um toque desesperado de balada (de algo como que ouvido antes, porém insistente, maquinalmente assimilado). Ao ouvido singular, indevassável (I-pod, iterativo sistema, aparato apreensível somente do lado-de-fora).

A palavra “balada”, aliás, começou a se impor (para qualquer evento/”escapadela” noturna) num misto de música direta – embora nada facilmente etiquetável –, vinda de uma deliberada marcação eletrônica, cheia de efeitos, porém gritada por um emocional corte de voz (hábil em ser repetida, viciado cantarolar) sem direcionamento. Onde todo mundo pode entrar. Qualquer pessoa pode vir e se acercar do amontado último de grupo. A música se revela tão-somente um aglomerado, capturável exteriormente.

Em certo momento, é um shopping-center não tão novo que volta a agrupar ex-gregários. Inicialmente, parecia ali se arregimentar um polo de liberação gay no masculino. Os gajos podem, desde então, se beijar na boca à luz do Frei Caneca Store. Mãos dadas, compras juntas familiares. Vez ou outra um rasgo de pele de onça subia pela coxa até a alma superpintada dos travestimentos.

Muita arte passa a se desdobrar a partir dessa hora. Alguns reconhecíveis atores – Off-Broadway paulistana – compõem a frequência (todos vindos de montagens hipertextuais, multimidiáticas mesclagens entremeadas de depoimentos sobre a “vida íntima”). O point homo continua firme, suplementado por novas proliferações. Há uma linha vital, vibrante pelo baralhamento, até estranhar as posições estatísticas, demarcadamente identitárias, as divisas entre sexo, momento e modos de vida sob os mais desregrados arranjos. Entranha povoação de sexo para todos – depois do simplesmente sexy.

Para onde foram os emos?

Para onde foi a música? (Atualizando-se aqui a indagação de Alice/L.Carroll acerca da luz da vela e seu rastro após ser apagada).

Tudo se acopla – Não há divisória – após a disseminação gay – A cidade, o momento, o mundo tomados por homossexualismos.

Tudo continua, a contar do shopping, passando a ganhar uma trilha apontada para a esquina mais abaixo, na beira da Avenida principal da cidade de São Paulo. Justo por onde cruzaram e criaram pouso, um dia, os chamados emos, entre o dito pejorativo e a replicação de uma série de seres quase iguais.

Tudo parece ressituar um escrito-de-força como aquele de Paul B. Preciado (desentranhado do testo/texto/sexo de Beatriz Preciado) acerca da máxima de Deleuze, leitor de Proust: “A homossexualidade é a verdade do amor”.

Não à toa, o Manifesto Contrassexual (editado no Brasil com a presença da autora/autor no lançamento e em outros eventos) circula nas mãos de muita gente.  Como se lê diretamente das linhas de Preciado (transformado em Paul B) através da voz de muitos passantes pela megalópole-Brasil: transversalidade/transdisciplinaridade é coeva da experimentalidade-transgeneração dos sexos.

Em Testo Junkie, uma combinação, muito bem conduzida, de ensaio multidisciplinar e romance expõe o idílio de B. P. P com a autora francesa Virginie Despentes, consolidado numa relação mantida até o dia de hoje. Traz como pulsação básica o entendimento de que o desejo é homossexual em sua origem.

Os textos do Manifesto de Paul B. soam como canto dessa hora que passa e extravasa no rumo dos segundos de todos. Relatam o conto do estado sempre nascente dos sexos a partir da passagem pelo ponto em que o devir (a dinâmica temporal do humano) se apreende como a própria imagem da sexualidade. Trata-se de uma cópula-matriz feita “por trás”, a fecundar uma polissemia de estados que alude à “enrabada”, ao “arrombamento” como concepção.

Deleuze/Proust/Preciado propiciam um veio de interligações no qual o Ânus Solar de Bataille se traduz enquanto Ânus Molecular tomado como princípio.

Fornecem, em tríade, um elo combinatório de forças em face de um fluxo de signos incididos sobre os corpos e uma cidade. São Paulo é captada, aqui, como polo hipermotorizado, saturado, de um excesso demográfico e caos ambiental, por uma desmesura de humanos a pé e em automóveis a um ponto (in)desejável de convivência.

Curioso é perceber que uma certa história da sexualidade desenhada entre esquina de Avenida Paulista e Shopping sitiado/situado (como palco de encontros e experiências) volta a repercutir com um clamor de erotização mais declarada. Ao modo de um despercebido manifesto (depois da chamada Era dos Manifestos, modernamente configurada e analisada por um crítico como Arthur G. Danto), muito próximo àquele lançado pelo rastro dos emos.

Desde os “emocionais hardcore” reenvoltos pela indumentária em negro e o aparato da música.

É como se o lastro do homossexualismo visível, manifestado por todos os lados (a afirmar uma condição presente e um princípio, bem frisado por Paul B), sempre em vias de uma mais ampla legitimação, ganhasse um inesperado vigor disseminante para além de uma pontuação segmentada. Após um momento de ação legalizadora, sustentada pelo crivo tantas vezes institucionalizador de um modo de ser e sexualizar, propaga-se para lá do espaço fechado do Shopping-Sítio-Situ (compreensível como surto de performances homossexuais em um âmbito demarcado).

Passa a transitar nesse momento de um modo mais interferente (inerente a toda sexualidade), de volta àquela esquina urbana em que se anunciou (através da súbita passagem dos emos) uma espécie de marco da vida da cidade. Repotencializa-se esse lugar à beira/esquina (mais do que à margem). Pedra-base, que é, da concentração e apresentação das pessoas que fazem existir um locus, em um instante/átimo do tempo, no decurso de um fluxo vivo de signos irrepetíveis (ou melhor, repetíveis pela variação de seus componentes, a contar de elementos sempre constantes e outros em correlação, nutridos por uma contingência).

Contingência – Microssegundo de uma época, crivada pelo recrudescimento do terror fundamentalista. Em outro extremo, despontam as macro-operações ultramodernas da economia transnacionalizada, gestada por toda sorte de tráfico empresarial, envolvendo Estado e segmentos criminais corporativados (na criação de um outro, fundamento em emergência, não sustentado pelas ideologias milenares). Em todas as quadraturas planetárias, vige o signo englobante/planificador de um consenso econômico quanto aos modos de serem concebidas governança, gestão de corpos e bens em demarcados territórios (blocos geopolíticos).

No mesmo giro simultâneo da História (em sua finitude, reengenhada depois do fim da história) entendida como heterogênese de forças e planos de ser/saber/poder, uma relação seminal entre canto e conto repensa as formas de convivência e ocupação dos espaços pelo veio de um impossível, alterno, romance do tempo. Um outro “emocional”, como que criando uma propagação dos emos em homos (até então, atravessados por um empenho legalizador acerca de um dado libidinal de origem), deriva agora em sexualidade dos humanos a contar de tal compreensão –

Contrassenso do sexo possuído por detrás, pelo corpo integral, visto para fora de si (id/índice-silhueta móvel, em extensão). O que se passa em detrimento de uma apreensão frontal, da ordem monovalente advinda de uma projeção da ratio (num desdobramento das teses de David Wills, em Dorsality). O cérebro é a paródia do equador.

   O coito é a paródia do crime (Bataille, 1985: 12)

    Outro toque: pela dorsalidade, como marca conceptiva, propulsora de uma heterogenia incontornável. Entre esquina, shopping e os novos caminhantes das ruas de uma metrópole ao sul do continente americano hegemônico ante um desígnio planetário do (des) concerto das nações, entendido por suas marcas terrenas, finitas, porém pedestres. Entre solo e muitos, diferenciados, corpos em relação até o paroxismo de uma involuntária, porém potencial, megaconcentração urbana.

   – Merda, aqui não há uma explosão metafísica, sem uma outra, psicopatológica! (Rawet, 2004: 251)

Saturação e Aliança (São Paulo) – O sexo pelas mãos, de mão em mão (depois da tão vaga, voejante nominação “sexy” para o que aflui e atrai de modo genérico). O amor pelo coletivo passa pela liberação gay, que já atravessa a rua como a gênese da liberação de todos os sexos. Porque todos querem todos, indiscriminadamente (eis o embate dos vivos, entre a angst da mortalidade e celebração corpórea do indeterminado finito).

Os afetos ocorrem em um contexto traçado por gestos singulares a partir de padrões e suas variantes, incessantemente dispostos em encadeamento de contágios mútuos, proliferantes. “…emaranhado humano, ocorrendo por toda a parte e sempre sem fim” (Baldwin, 1967: 63).

Desde os primeiros beijos gays dados publicamente (sob o tag “emo”) até contar com a instalação, no âmbito-shopping, de um circuito de trocas e circulação de bens simbólicos, revela-se uma concomitante mutação nos corpos heterossexuais. Esquina/Shopping/Megalópole: um laboratório testado em backstage, tornado imanente abertura ao qualquer um do múltiplo visitado em cada corpo/narrativa sexo adentro. Quando se atravessa as amplas avenidas de uma certa cidade.

As diversificadas formas eróticas em convívio indireto, simultâneo, refeitas a partir da matriz modular proposta por Preciado, leitora do Proust deleuziano, agora esplendem no coração-capital.

(Soa outra badalada, balada da hora).

Filosofia em tráfego, vida pedestre plena, multitudinal, melodia no ar-do-tempo. Os sexos se intercambiam (segundo O Anti-Édipo, em culminação com “Da filosofia como arte (…) de dar o cu”, por Paulo Beatriz Preciado). São atos de partida e enlace sobre a velocidade moral dos seres em transposição de um a um, por arrombamento, por um original jato violado de

Esperma, rio, esgoto, blenorragia ou vaga de palavras que não se deixam codificar, libido demasiado fluida e demasiado viscosa: uma violência à sintaxe (…) o não-senso erigido em fluxo, plurivocidade que volta a adentrar todas as relações.

            (Deleuze e Guattari, 2010: 179-180)

[1] EMOS –  Num primeiro instante, passíveis de serem definidos como “emotional hardcore”, vibram pelo que excede, melodiza e externiza. Seres gerados por canções “pegajosas”, curiosamente hipereletrificadas, são elas/eles postos a caminhar numa série aparentemente desmotivada (por conta de uma imediata ausência de ideologia), porém reincidente. Ostentam rostos pintados sobre corpos paramentados de preto sobre o preto geral das vestimentas (em diálogo desbordado com a cidade cinza – SãoPauleira – do universo conhecido e cantarolável deste planeta).

corrente emo                                                                   M   S   V

Referências Bibliográficas:

BALDWIN, James. Giovanni. Trad. Affonso Blacheyre. Rio de Janeiro: Civilização Brasil, 1967.

BATAILLE, Georges. O Ânus Solar. Trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena, 1985.

CARROLL, Lewis. Obras escolhidas. Trad. Margarida Vale do Gato et al. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.

DANTO, Arthur G. Após o fim da arte – A arte contemporânea e os limites da História. Trad. Saulo Krieger. São Paulo: EDUSP, 2006.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. Trad. Luiz B.Orlandi. São Paulo: 34, 2010.

HALLEY, Janet e PARKER, Andrew (org). After Sex? On Writing Since Queer Theory. The South Atlantic Quarterly. n. 106:3. Verão 2007. Durham, Carolina do Norte, Duke University Press.

PRECIADO, Beatriz. Testo Junkie. Sex, Drugs, and Biopolitics in the Pharmacopornographic Era. Trad. Bruce Benderson. Nova York: The Feminist Press, 2013.

___________. Manifesto Contrassexual. Práticas subversivas de identidade sexual. Trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1, 2014.

RAWET, Samuel. Contos e novelas reunidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

WILLS, David. Dorsality. Thinking Back Through Technology and Politics. Minneapolis e Londres: University of Minnesota Press, 2008.